Nos testemunhos do seu trajecto

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Lúcio Rodrigo Leite Barreto de Lara nasceu em Nova Lisboa, hoje Huambo, a 9 de Abril de 1929, filho de um comerciante e funcionário público e de uma angolana do Bailundo neta de um soba do Cuanza- Sul. Falecido aos 86 anos de idade, em 2016, Tchiweka, como era conhecido pelo seu nome de guerra, foi um dos membros fundadores do Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA), tendo sido reconhecido como “artífice da luta pela Independência de Angola”, ao lado do primeiro Presidente de Angola, António Agostinho Neto, e outros eminentes nacionalistas.

Lúcio Rodrigo Leite Barreto de Lara nasceu em Nova Lisboa, hoje Huambo, a 9 de Abril de 1929, filho de um comerciante e funcionário público e de uma angolana do Bailundo neta de um soba do Cuanza- Sul. Falecido aos 86 anos de idade, em 2016, Tchiweka, como era conhecido pelo seu nome de guerra, foi um dos membros fundadores do Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA), tendo sido reconhecido como “artífice da luta pela Independência de Angola”, ao lado do primeiro Presidente de Angola, António Agostinho Neto, e outros eminentes nacionalistas.

No mês em que nasceu, e para marcar o percurso de um dos mais destacados nacionalistas angolanos, o Memorial Dr. António Agostinho Neto ( MAAN) acolheu a conferência “Lúcio Lara: trajectória de um combatente”, que incluiu testemunhos de companheiros em diferentes fases da vida política e duas comunicações académicas sobre a vida do político. Além da conferência, foi inaugurada uma exposição fotográfica focando vários aspectos da vida de Lúcio Lara.
O evento foi uma iniciativa da Associação Tchiweka de Documentação (ATD), criada em 2006, e que tem como principal objectivo preservar e divulgar a memória da luta pela independência de Angola. O seu Centro de Documentação vem organizando e disponibilizando o acervo documental e bibliográfico de Lúcio Lara, ao qual se juntaram contribuições de outros participantes da luta e materiais de várias proveniências.
E foi exactamente a directora da ATD, Rodeth Gil, a quem coube a intervenção de abertura, seguida de testemunhos de companheiros de luta de Lúcio Lara, nomeadamente João Teta e Lopo do Nascimento, sendo moderador Mbeto Traça.
Nascido em 1956, João Sebastião Teta chegou a conhecer pessoalmente Lúcio Lara somente no primeiro encontro no Bureau Político do MPLA em Brazzaville, em 1967, onde o partido se fixara a partir de 1963 para dirigir a luta de libertação nacional e obteve várias instalações cedidas pelas autoridades congolesas. “A primeira vista, o camarada Lara pareceu-me um homem enigmático, de pouca fala e de um olhar penetrante”, conta João Teta, para quem, logo a seguir, havia já no seu rosto um sorriso conquistador, um olhar afável...
A chegar à República do Congo, João Teta revela-se preocupado e temeroso, mas recebeu de Lúcio Lara o consolo de que precisava, ele e a outros jovens que então se juntavam às instalações do MPLA. Teta não tardou a notar a importância de Lara, que concebera e implementara vários projectos locais de formação (primário e secundário) de crianças e jovens no “Internato 4 de Fevereiro”, onde os professores eram destacados membros do partido, nomeadamente, Augusto Lopes Teixeira, Artur Carlos Maurício Pestana dos Santos (Pepetela), Emílio Teta, José Eduardo dos Santos, Hugo Azancot de Menezes, Maria dos Céus, entre outros. “O camarada Lara já estava convicto, como os finlandeses o fizeram apenas no limiar do século XXI, de que o ensino de qualidade é garantido, antes de tudo, pela qualidade do professor”.
A paixão de Lara pela educação do homem novo, comprometido com a causa de libertação do povo do jugo colonial e da exploração do homem pelo homem foi manifestada pela criação da Organização de Pioneiros de Angola (OPA), tendo dado substância ao projecto com os dez princípios do pioneiro do MPLA. Chegou a ser professor de matemática e física, mas envolveu-se desde cedo nas movimentações nacionalistas em curso desde os anos 1950, em Angola e entre os angolanos no exílio. Foi eleito secretário da Organização e dos Quadros na primeira conferência nacional do MPLA, em Dezembro de 1962, passando mais tarde a secretário-geral. Nesta função, foi o “operacional” junto de Agostinho Neto, sobretudo a partir da sede do MPLA, em Brazzaville onde adoptou uma criança natural do país, Jean-Michel Mabeko Tali. “A relação com os Lara fez-se através de uma longa história de amizade entre eu e o Paulo, amigo de colégio e, primogénito da Ruth e do Lúcio, em Brazzaville, nos fins dos anos 60. Tornámo-nos como que irmãos”, conta Jean-Michel Mabeko Tali, hoje em dia um destacado historiador, professor da Universidade de Howard, nos Estados Unidos, onde lecciona Historia Política.
Em Novembro de 1974, depois da queda da ditadura portuguesa voltou a Angola. E mais uma vez mostrou ser um verdadeiro esteio moral e um dos grandes ideólogos do MPLA ao rejeitar, reiteradas vezes, cargos no governo, mantendo-se somente ao serviço do partido. “Após a Independência, quando se constituiu o Governo, Lúcio Lara foi indicado para ministro da Educação, mas recusou, dizendo que não queria nenhum cargo governamental”, conta Lopo do Nascimento. Nascido em 1942, Lopo do Nascimento, que exerceu o cargo de primeiro-ministro desde o primeiro dia de independência, esclareceu no seu testemunho que o seu companheiro de luta e amigo só queria continuar a trabalhar no partido. "Não queria ir para o Governo, o que mostra a sua maneira de ser. Não era um indivíduo que estava ali para se servir ou aproveitar-se de nada”. Assim, Lopo do Nascimento lembra-se sempre de Lúcio Lara como uma figura angolana de extrema elevação, modéstia e humildade. “Fui colega, camarada e companheiro de Lúcio Lara, a partir de 1974. Convivemos em três áreas geográficas diferentes, e em cada uma delas tive a oportunidade de descobrir uma personalidade e aprender muitas coisas, não apenas do ponto de vista político, mas comportamental”, reconhece.
Lúcio Lara é um dos grandes obreiros do MPLA, porque teve sempre a tendência de conservar, catalogar e classificar documentos. “Graças a essa capacidade, muita coisa que podia se ter perdido, felizmente, caiu nas mãos de Lúcio Lara e ele conseguiu fazê-los reviver até aos nossos dias”, lembrou o Ex-Vice Presidente do MPLA e actual Presidente da Fundação Sagrada Esperança, Roberto de Almeida, em entrevista ao Jornal de Angola, em 2008. Entretanto, quando desejavam apenas terminar um livro do pai, os filhos de Lúcio Lara, Paulo e Wanda, aproveitaram os arquivos do nacionalista e criaram uma associação de documentação exactamente com o seu nome de guerra, Tchiweka, com mais de seis mil livros, milhares de recortes de jornais e mais de 11 mil fotografias.
Já em 1996, Lúcio Lara, um dos históricos da Independência de Angola, publicou com a ajuda da esposa, Ruth Lara, o primeiro volume de “MPLA -Um amplo movimento”. A obra, com mais de 300 páginas, foi o resultado da compilação do arquivo (documentos, fotografias, livros, etc), que o nacionalista foi guardando desde a fundação do MPLA até mais ou menos ao início da Luta de Libertação. Hoje, o livro é uma referência obrigatória para historiadores e investigadores.
“Angola é uma obra, e nas obras não temos só os arquitectos, temos também os engenheiros”, atira Lopo do Nascimento, deixando transparecer o lugar de destaque do nacionalista. Um lugar de destaque que pede mais história. A verdadeira. E, nos debates, muitas inquietações foram levantadas pelos participantes, os quais defenderam que a iniciativa de homenagear devia ser do próprio partido, MPLA, e não de uma associação. A antiga deputada do MPLA, Teresa Cohen, uma das intervenientes, disse ser obrigação do partido homenagear todos aqueles que entregaram as suas vidas pela causa da liberdade do povo angolano que considerou terem caído no esquecimento. E a resposta não tardou. O histórico dirigente do MPLA, Lopo do Nascimento, garante ter chegado o momento de se contar “a verdade histórica de algumas áreas da história de Angola”.

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