Nova obra de Manuel Rui o Kaputo camionista e Eusébio um livro marcante e memorável

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Vamos voltar a 1966.


Nova obra de Manuel Rui o Kaputo camionista e Eusébio um livro marcante e memorável
Lançado em 15 Fevereiro 2017 Fotografia: Jornal Cultura

Em Inglaterra, Portugal vai entrar em campo para jogar com a Coreia do Norte. O pé de Eusébio vai pisar daqui a nada a relva. Mas não é para Inglaterra que este livro do angolano Manuel Rui nos leva. É mesmo para Angola, para uma solitária estrada de Angola. Está Eusébio a entrar em campo e está um camião em viagem. Saído do Lubango, Sá da Bandeira colonial, por uma estrada de Angola vai um camião sem auto-rádio. É dia 23 de Julho de 1966, um sábado. Um camionista fala com o pendura a quem deu boleia. Fala de Eusébio, do que espera de Eusébio, da forma como mitifica Eusébio. E falando de Eusébio, fala dos seus preconceitos, dos seus medos, da estranheza das outras raças. Em Inglaterra, Eusébio está em campo e Portugal joga contra a Coreia do Norte. O camionista acelera, quer saber o resultado na primeira tasca de estrada que apanhe. Vai num alvoroço patriótico. Quer a glória desportiva. E, no entanto, espera-o um resultado desencantado. Para ele, kaputo camionista, um resultado humilhante. Poderá o mito de Eusébio resistir ao choque?
Tó-Tó gastou o dinheiro que o pai lhe mandou para o bilhete, por isso agora tem de fazer a viagem para casa à boleia de um camionista. O ano é 1966 e o dia o do mítico Portugal - Coreia do Norte. Quanto à viagem, o plano é fazê-la entre boa conversa e uma paragem para ouvir um pouco do relato. Pelo caminho, fala-se de tudo: da vida, do futebol, da raça e de como o governo de então pretende mudar as coisas. Da guerra, também. E do Eusébio, claro, esperança maior do Botijas para uma vitória devastadora. Até à tal paragem... e ao desânimo que se lhe segue. Mas nada é certo antes do fim do jogo. E, se o desânimo pode despertar revoltas, o que dizer quando tudo se inverte?
Pouco mais de cem páginas, incluindo, para além do conto que dá título ao livro, um conjunto de textos sobre o mesmo e sobre o tempo a que se refere. E, contudo, tanto haveria a dizer sobre esta história se grande parte não estivesse já lá. É que as reflexões que o conto desperta - sobre a paixão futebolística, sobre a forma como as diferentes personagens vivem a questão da raça, sobre a importância de Eusébio para a sua geração e para as futuras - surgem também nos tais textos que acompanham o conto. E, assim, não vale a pena alongar-me quanto a isso. Tudo o que importa está no livro.
Mas, claro, além dos temas, há a escrita e essa é também ela uma grande surpresa. É cativante, sim, mas isso já era expectável. A surpresa vem da forma como, aos poucos, numa voz aparentemente tão simples, os tais temas complexos emergem de forma natural. Como se fôssemos também à ­boleia, a ouvir a conversa entre o Tó-Tó e o Botijas e a ponderar no tanto que eles têm para dizer. É fascinante como em tão poucas páginas se consegue dizer tanto - sem floreados, sem elaborações desnecessárias, indo directamente ao essencial e sem que isso pareça tornar a história demasiado apressada. Simples, completo e muito bem construído: assim se faz a essência desse conto.
E depois há o aspecto visual, e o laranja vivo que parece ele próprio dar outra vida ao livro, destacando o conto, que é a alma essencial do todo, e rodeando-o dos tais textos que, falando de uma história que se basta a si mesma, acrescentam, ainda assim, novas perspectivas, o que torna a leitura mais completa.
Às vezes, um livro não precisa de ser grande para ser um grande livro. É o caso deste O Kaputo Camionista e Eusébio, que, em poucas, mas muito relevantes páginas, conjuga toda a matéria de que são feitas as boas histórias. Breve, simples, mas vastíssimo em conteúdo e muito belo na voz, um livro marcante e memorável. Que não posso deixar de recomendar.

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