O Canto de Intervenção e as ex-colónias portuguesas antes, durante e depois da guerra colonial

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5. A Lusofonia
Como referimos, quarenta anos passados do 25 de Abril as relações entre Portugal e as ex-colónias já entraram numa fase onde se respeita a soberania entre países, pesem embora algumas feridas ainda não completamente sanadas.

O Canto de Intervenção e as ex-colónias portuguesas antes, durante e depois da guerra colonial
A orquestra Mazagão (Al-Jadida, Marrocos) era representada por músicos do Brasil, Cabo Verde, Espanha, Marrocos e Portugal

Estamos em tempos de colaboração, com muitos exemplos onde autores dos diversos países se reúnem para criar juntos, veja-se o caso dos Buraka Som Sistema ou o também significativo trabalho do cantor João Afonso, sobrinho de José Afonso, que em Janeiro de 2014 editou Sangue Bom, onde África em português viaja até Goa navegando nas palavras de Mia Couto e Jozé Agualusa. Muitos outros exemplos poderiam ser apontados.
São iniciativas que se enquadram na chamada Lusofonia, conceito nascido duma designação linguistica mas que define um espaço político, económico e cultural, em linha com a Commonwealth e a Comunidade Francófona. As três entidades têm em comum o serem, de algum modo, o prolongamento de antigos impérios coloniais, mas ao contrário das outras na comunidade lusófona a potência mais forte não é antiga metrópole: a importância do Brasil (200 milhões de falantes) e o desenvolvimento de alguns dos países africanos de língua portuguesa bastam para redimensionar o papel de Portugal e para dar uma natureza própria a essa Comunidade (onde talvez se esteja mais perto de um verdadeiro pacto de amizade e de solidariedade entre iguais), o que não deve ser esquecido quando da apreciação de certas iniciativas como o Acordo Ortográfico...
Remonta a 1902 o objectivo de integrar espaços falantes do português, quando o filósofo brasileiro Silvio Romero propôs a criação de um bloco defensivo entre todos os territórios que falassem português, para fazer face à cobiça hegemónica da Europa Central. Mais tarde, em 1931, Bernardo Soares sublinha que a "minha pátria é a língua portuguesa", encontrando reflexo colonialista no paternalismo luso-tropicalista de Gylberto Freire (os portugueses teriam condições especiais para um colonialismo equilibrado e justo). É com Agostinho da Silva que se utiliza, pela primeira vez, o termo Lusofonia, oferecendo-lhe conteúdo mais progressista, globalizante e mesmo racialmente igualitário.
A criação, em 1977, do grupo dos Países Africanos de Língua Portuguesa, viria a estabelecer o primeiro fórum de concertação política e diplomática com o português como veículo de comunicação, que mais tarde desembocaria na Declaração Constitutiva da CPLP de 17 de Julho de 1996, assinada em Lisboa pelos Chefes de Estado e de Governo dos então sete países de Língua Portuguesa, com Timor-Leste a assistir como observador, tendo aderido mais tarde.
Note-se que o conceito de Lusofonia inclui também territórios onde a presença cultural portuguesa deixou marcas, como sendo o caso de Macau e Goa, para além dos interessantes caso do Sri Lanka, Indonésia (o Kerekong merece atenção especial), etc.
A primeira iniciativa no sentido de uma colaboração estruturada no campo musical nasce também em 1996 com a Associação Sons da Lusofonia, onde o saxofonista português Carlos Martins junta artistas africanos, brasileiros e portugueses em diversos agrupamentos, com destaque para a Orquestra Sons da Lusofonia. Em 1994, na Galiza, o festival Sons da Fala reunira nove cantores lusófonos nascidos nos PALOP ou em Portugal. Curiosamente em 2008 é editado um CD com o mesmo título onde se juntam André Cabaço, Guto Pires, Madeira, Janita Salomé, Filipe Mukenga, Vitorino, Sérgio Godinho, Tito Paris e Juka, interpretando 18 temas em ritmos que se entrecruzam sem perder a identidade. Entretanto, em 1999, o Trovante grava Timor, tema de apoio à luta dos Timorenses pela independência.
Não deve também ser esquecido o papel polarizador que a Expo 98 possibilitou ao convidar diversos artistas lusófonos (e não só) a criarem peças e espectáculos onde se encontrassem "abraços entre culturas". Lisboa vem gradualmente a constituir-se palco privilegiado para encontros entre músicos portugueses, músicos migrantes residentes e músicos de outros países de língua portuguesa em digressão, como torna claro o documentário Lusofonia, a (R)evolução (2006), sendo também de referir iniciativas como Lisboa Mistura, Festival ImigrARTE e África Festival, Festival Todos (e a sua Orquestra Todos) e a Lusofonias: Culturas em Comunidade, da Associação Etnia.
Mas também existem projectos de caracter mais técnico, de que é exemplo o facto da Orquestra Clássica do Centro ir acolher um centro de transcrição musical de Cabo Verde, em Coimbra, de forma a disponibilizar partituras de obras de música tradicional cabo-verdiana.
Em 2002 a importante editora de Nova Iorque Putumayo editou a compilação AFRO-PORTUGUESE ODYSSEY, onde se pode ler que "The artists on this CD embrace what has been termed Lusophone music -- that is, music from African countries where people speak Portuguese (or at least something Portuguese-influenced like Cape Verde's Crioulo language), and those artists embrace the contemporary pop of Mozambique (Mabulu), Angola (Ruy Mingas, Banda Maravhilha), Cape Verde (Jovino Dos Santos, Leonel Almeida, Agusto Cego), and Guinea-Bissau (Dulce Neves, Bidinte, Manecas Costa)". A World Music, na sua vertente mais digna, aceitava a Lusofonia como espaço com vida própria.

Curioso o objectivo da Mazagão 7 Luas Orkestra, que integra músicos portugueses, cabo-verdianos, brasileiros, espanhóis e marroquinos: a partir da história da cidade de Mazagão desde a sua constituição como antiga fortaleza portuguesa em território marroquino até à deslocação dos seus 2000 habitantes, depois de uma longa espera em Lisboa, para a Nova Mazagão (construída na Amazónia), a orquestra pretende simbolizar a viagem de uma cidade inteira que atravessou o Atlântico, cruzando África, Europa e América. A Lusofonia aparece aqui a acolher e a abraçar outras culturas. Vemos assim que o conceito de Lusofonia tem vindo a ganhar identidade própria, surgindo como espaço cultural (e não só) com características que o diferencia de outras realidades, discutindo-se mesmo agora se deverá ser alargado e a que países ou comunidades (veja-se o caso da Guiné Conakri, entre outros). Note-se que em Junho de 2014 foi constituído o FORPALOP (Fórum dos Países Africanos de Língua Portuguesa), organização de intervenção política, diplomática e cultural onde se defendem os interesses comuns da "lusofonia africana", o que demonstra a vitalidade e diversidade deste lugar que se espalha por quatro continentes!
Portugal vive tempos difíceis, com muito do progresso trazido pelo fim da ditadura a esvair-se em desemprego e pobreza, com hospitais e escolas a fecharem e as reformas e aposentações a serem cortadas enquanto os jovens voltam a procurar melhor vida fora do país. Nos novos países de expressão portuguesa as dificuldades também são imensas, onde à corrupção e abuso de poder próprios da herança que a presença colonialista deixou - analfabetismo, pouca formação profissional, recursos económicos limitados, destruição da língua e cultura locais, favorecimentos que se transformaram em corrupção - se junta a componente de ambição própria da natureza humana que a sociedade capitalista multiplica.
Mas a aproximação entre os povos que a música proporciona pode ajudar a avançar para uma sociedade mais equilibrada e a arte continuará a ser "para os homens uma forma de realização, projecção ou sublimação das suas lutas, dos seus sentimentos, dos seus anseios” !
JOAQUIM CORREIA

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