O conceito de património imaterial segundo a UNESCO

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A Convenção para a Salvaguarda do Património Imaterial é um instrumento adotado pela Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura, em 2003, e ratificado por Angola em 2011.

Um dos argumentos de base desta ferramenta conceptual é o facto do património cultural intangível ser o produtor primordial da variedade das civilizações, tal como releva, em particular, respetivamente, a Recomendação e os programas relativos às Obras-Primas do Património Oral do braço cultural da ONU, sobre a Salvaguarda da Cultura Tradicional e do Folclore de 1989.

Assim, entende-se por património intangível toda a inteligência linguística e antropológica dos povos. Concretiza-se nas práticas, representações, expressões, conhecimentos e aptidões, em vários domínios, tais como nos suportes artísticos, crenças, tradições sociais, manifestações festivas, etc.

AS TRADIÇÕES KONGO E A CONVENÇÃO

Vasta entidade civilizacional com forte protagonismo histórico no além Atlântico, o "Reyno" neocristão teve, aí, uma influência linguística e antropológica estruturante.

A instalação de centenas de milhares de escravos no Golfo de Guiné, na Península ibérica, nas Américas e Caraíbas, fez, sistematicamente, deslocar aí vários aspetos da substância "civilitas" do país da pantera.

Nota-se, nessas regiões, que cobrem três continentes, ou seja, praticamente a metade do planeta, a perpetuação ou a incrustação das estacas da identidade cultural congo. Elas estão presentes nas manifestações musicais e coreográficas, teatrais, nas imposições etnonímicas, antroponímicas, toponímicas, hidronímicas, zoonímicas, fáunicas, organológicas, divinas, nas persuasões ontológicas, etc.

Alistaremos, neste quadro, algumas continuidades dentro de centenas, as menos conhecidas, saídas do Kongo dia Ntotela, provadas no Golfo de Guiné, na Península ibérica, nas Américas e Caraíbas. É assim que se regista a dança congo no arquipélago de São Tome, Príncipe e Annobon.

Antes da dinâmica inculturalista moderna, no século XVII, os Bantu escravizados introduziram os tambores "congos" no Portugal católico, no quadro das manifestações da Confraria da Nossa Senhora do Rosário do Salvador, irmandade reivindicando-se da " Nação Congo/Angola" A Sociedade Congo destacou-se na ilha das Gonaives, na coletivista Haiti.

Um dos primeiros focos palenqueros, no Panamá, foi constituído, em 1525, no Golfo de San Miguel, na embocadura do Rio Congo (!).

No imenso Brasil, deve se inscrever, naturalmente, congada, congado, congos ou bailes de congo, folguedo e ritual, atestado em várias regiões do subcontinente e ligado aos festejos de coroação dos Reis do Congo.

Houve, por volta, de 1867, em Lima, no Peru, uma dança muito popular, a conga. Há, em Trinidad, o Congo Dance. Salienta-se nos Djuka do Suriname o temível espírito congo burtri.

Regista-se os membranofones afro-cubanos conga, apelação que se alastrou a suportes organológicos metálicos, à denominação de grupos carnavalescos, assim como a uma dança que se introduziu na criação cinematográfica e nos salões internacionais, nos anos 40.

É conhecido, além-Atlântico, como congolo, uma espécie de chocalho grande, apelação proveniente, provavelmente, do kikongo nkongolo, jarro ou cântaro. Outro guizo, esse pequeno, de lata, é conhecido como conguinho. Os tocadores de reco-reco nas bandas de Congos são chamados de conguistas.

Em Cuba, na grande ilha, como o afirma Miguel Barnet, o arbitrário qualificativo de congo aplicou-se à maior parte dos indivíduos e representações culturais de origem bantu.

Centenas de milhares de neo-cubanos, como os seus companheiros de infortúnio caribenhos e americanos, guardaram os seus apelidos, ou foram aplicados esses saídos do porto da "Foz".

Assim, como exemplo, El Congo foi a alcunha pela qual foi conhecido Guillermo Armenteros, personagem popular cubana do início do século XX.

Com efeito, na localidade de Catalina de Guines, próxima de Havana, destacou-se como proprietário de uma iniciativa de forte sucesso o restaurante do mesmo nome.

As tradições sagradas congo conservaram divindades com características próprias e corpus de narrações e lendas ligados ao Reino de Nimi a Lukeni, seus rios, suas montanhas, suas árvores e seus animais.

Neste domínio de perpetuação, nota-se no Recôncavo as denominações Congo de Ouro e Congo Munjola que designam duas das nações do candomblé baiano. Um dos inquices, benfeitores divinos de caçadores dos terreiros brasileiros e Congobila, na provável interpretação de apelo de Congo. Sensíveis ao arco-íris, os antigos pertencentes ao "Nzadi" perpetuaram, no inevitável Brasil, a crença ao"Congoro".
 
A presença congo na América do norte foi tão marcante que certifica-se congo dye e congo red,apontando tintura, e congo snake, que designa evidentemente, uma serpente.

Aplicou-se a apelação Congo na Beauregard Square, praça em New Orleans, na Louisiana, que, no século XIX, foi um dos principais focos de animação da música e danças africanas, no sul dos Estados Unidos de América. Hoje, o largo é conhecido como o Congo Square/Louis Amstrong.

São alcunhados congo tony, nas Caraíbas, os peixes de cor escura. Na Jamaica, congo peas designa uma espécie de ervilha.

CONCLUSÃO

Uma das vertentes seguras para a proclamação do Kongo dia Ntotela como Património da Humanidade é a sua herança intangível.

Com efeito, esse legado linguístico e antropológico é partilhado por milhões de indivíduos no espaço do Atlântico e merece, assim, ser reconhecido, melhor protegido e promovido pela comunidade internacional.

O resultado desta ação será a construção de novas passarelas, na ponte que liga há séculos as margens do"Kalunga", fortalecendo, desta maneira, e a exemplo, a concórdia entre os povos, de uma parte substancial da Humanidade.

Mbanza Kongo, Novembro de 2012

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