O fim da solidão da BD angolana

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Prémio Nacional de Cultura e Artes 2016

O fim da solidão da BD angolana

“A imaginação, a criatividade, e, sobretudo, a angolanidade estão patentes nestas obras”, define a ministra da Cultura, Carolina Cerqueira, alguns dos itens que justificam a atribuição do Prémio Nacional de Cultura e Artes (PNCA), durante a gala de entrega dos prémios, realizada na noite do dia 10 de Novembro no Cine Tropical. Por outro lado, acresceu destacando que a iniciativa serve também para engrandecer a nação e resgatar os valores culturais dos diferentes pontos de Angola, visando ser “um exercício de unidade nacional e de fortalecimento da cultura angolana”. Estiveram presentes figuras importantes da cultura e da cena política angolana, como os distintos Higino Carneiro, governador de Luanda, João Lourenço, ministro da Defesa, Roberto de Almeida, PCA da Fundação Sagrada Esperança, que se juntaram aos artistas e testemunharam a entrega das estatuetas e diplomas de mérito aos vencedores, que também recebem um valor pecuniário avultado em três milhões e meio de kwanzas para cada disciplina.

A gala

A boa música e dança angolanas foram os principais ingredientes para exaltar o momento. O Ballet Tradicional Kilandukilo fez começar a noite com o número Ngolo, descrito por Maneco Vieira Dias, director da companhia, como “um momento de exaltação e festa, em que se invoca a alegria para saudar os vencedores”. Mas, e porque era véspera do incontornável dia 11 de Novembro, a companhia se adiantou apresentado um número especial em homenagem a Agostinho Neto, desafiando-se a coreografar um dos seus poemas mais conhecidos, Renúncia Impossível, fazendo recurso à elevada interpretação feita pelos Irmãos Kafala. a música fez-se com a trova de José Kafala, que interpretou Ngola e Crucifixo, a voz forte de Ndaka Yo Wini, que interpretou Tchiungue, da autoria de Joaquim Viola, e Cantares da Terra, Selda, que interpretou Morro da Maianga e Esperanças Idosas, Gari Sinedima, que interpretou Nvula, de Filipe Mukenga, e Tchipalepa, de André Mingas, Kyaku Kyadaff, que interpretou Ntoyo, de Teta Lando, e Belina. Os jovens talentos, conforme justificou Kyaku, tentaram fazer alguma coisa nova, nesta continuidade na modernização. “Seria fundamental interpretar os sucessos, como forma de manter vivo o passado. Só para dar exemplo, Mito Gaspar é um exemplo concreto, é um exímio trovador, um artista de mão cheia, que chega a ser um exemplo de inspiração de vários artistas”.
Mito, ao ser entrevistado, comungou com a opinião dos jovens e traduziu a atribuição do prémio como um sinal claro de grande responsabilização. Asseverou que sempre olhou para música como um sector de influência, formação e informação, o que acarreta um responsabilidade social muito grande, que não pode estar reduzido ao mero capricho de imitarmos, de querermos fazer aquilo que os outros melhor sabem fazer. “Temos de ter a consciência de trazer alguma tradição e criar referência dentro dos parâmetros dos nossos valores culturais. O meu mais franco objectivo sempre foi contribuir para a valorização da diversidade cultural, porque imperou muito a ideia de que havia uma única vertente cultural, o que não faz jus a todo este mosaico artístico-cultural que Angola possui. Porque o que se sabia era o que vinha sendo divulgado, preterindo o que de melhor e excelso acontecia no interior. Achei que tínhamos essa responsabilidade de repor a justiça, e mostrar que devemos fazer de tudo para a valorização da nossa complexidade artística”, analisa.

Se o Anselmo Ralph
cantasse em kimbundu

Anselmo Ralph foi o escolhido para fechar a noite, com o seu mais recente sucesso Todo Teu. Enquanto músico, começou por felicitar todas as pessoas que fazem de tudo para a preservação de eventos que dão a entender que a nossa cultura não é só feita de música. “Tem um leque de disciplinas artistas que merecem o seu carinho, pela qualidade que estas apresentam, obrigando ao reconhecimento de fazedores de outro tipo de artes. É importante”, avalia. E acrescenta: “Mesmo quando é um estilo internacional, o melhor é faze-lo à nossa maneira, tendo sempre o ADN da maneira angolana”. A seu ver, sobre o reconhecimento de músicos fora do nosso país, consequência da intenção de internacionalizar a música angolana, sugere que tudo passa primeiro por um reconhecimento consensual dentro do nosso próprio país. Explica: “Devemos ser nós os primeiros a dar valor e orgulharmo-nos, porque isso acaba por ser transmissível lá fora”.
Anselmo fez saber também que tem aprontado um projecto novo e que ao que pretende será bilingue, cantado em português e espanhol. Claro está que isso levanta alguma inquietação, a ver com a valorização das nossas línguas nacionais. Ou seja, como seria bom se o sucesso todo de Anselmo carregasse também a preocupação da valorização e uso corrente de uma das nossas línguas. E questionado sobre quando cantar em uma língua nacional, ao responder voltou-se a Bangão, pela estima e admiração que sente pelo seu semba, mas também pela maestria como este trazia à contemporaneidade um kimbundu que ele tão bem sabia vergar do modo mais cantante e alegre, resultando assim numa admiração de kotas e jovens. Anselmo conta que tinha proposto a Bangão que escrevesse para si uma música em língua nacional kimbundu, já com tema acertado. Bangão aceitou, e tinham acordado grava-la tão logo Anselmo regressasse de uma viajem que tinha a fazer ao estrangeiro. Malgrado destino, naquele intervalo de dias Bangão falece e leva consigo esta intenção de Anselmo.
Não restam dúvidas de que Bangão é um artista insubstituível, mas, pelos projectos que o jovem Anselmo tem pela frente, o melhor a fazer é recorrer a outros bons letristas do kimbundu, e já naquele dia tinha praticamente um à mão, de reconhecido mérito e entre os eleitos desta edição do PNCA: Mito Gaspar. Vamos esperar.

Amor à Arte

Amor à Arte é um grupo que se caracteriza com o teatro e nomes do teatro angolano das últimas duas décadas. É fruto da massiva proliferação de grupos feitos por corajosos actores e encenadores/dramaturgos que vão dando vida à cena teatral angolana, com grande enfoque para Luanda. Marisa Júlio, encenadora do grupo Amor à Arte, vencedor na categoria de teatro, explica que foi necessário muita dedicação, criatividade, responsabilidade cénica e trabalho árduo. “O público tem vindo a reconhecer-nos como tal, e penso que isso fez com que o júri não hesitasse tanto a atribuir-nos um prémio tão importante. Também ficamos um tanto surpresos, porque não contávamos ganhar nestes nove anos de trabalho um prémio de carácter nacional. Há muita gente nesta luta, mas a nossa casa foi a escolhida”.
O grupo promete fazer tudo para continuar com a mesma qualidade, e não ser afectado por possíveis vaidades que poderão surgir. O grupo vem da Samba e tem como patrocinador a Xiami Produções. Composto por 19 elementos, foi fundado no dia 2 de Agosto de 2007 e dois anos depois, 2009, chega a ser terceiro classificado do Festival de Teatro de Luanda. Começou criando comédias e sátiras, mas bebendo da experiência dos grupos Enigma Teatro, de Tony Frampenho, Walter Cristóvão, Henrique Artes, de Flávio Ferrão, Osvaldo Moreira, Pitabel, de Adérito Rodrigues, foi se posicionado entre os grupos de destaque. Também chegou a experimentar o teatro épico. Tem como referências as peças “Colchão”, “Resultado”, “O Verdadeiro Sangue”, “A Bela e o Monstro”, “Escrava da Cama”, “Duas Horas”, “Suave Pecado” e “Quem é que não Chora”. Conta realizar no próximo Março o festival Março Mulher, em homenagem às mulheres envolvidas no teatro.

O fim da solidão da BD angolana

O fim da solidão da banda desenhada angolana? Os tempos que se aproximam nos darão cabalmente esta resposta, embora a atribuição do prémio à classe da banda desenhada angolana já venha a ser sinal sólido, suficiente para nos fazer crer que esta disciplina das artes visuais mais do que conseguir o seu lugar, impôs-se entre as restantes, como a tradicional pintura, que toma todas as atenções das variantes que a UNAP defende.
Primeiramente, a designação “núcleo da banda desenhada” já denuncia em si a problemática da dispersão dos artistas e da dificuldade de definição de trabalhos de cada artista, sendo uma disciplina que quase sempre, no nosso caso, se movimenta em grupo, cujo historial se consigna entre antes e depois do Luanda Cartoon. Aquando do anuncio do vencedor da categoria de artes plásticas, muita gente e certa imprensa receio cair em erro ao tentar definir o “núcleo da banda desenhada”. Ora, trata-se de quem? Porque até então eram apenas trabalhos individuais e o Estúdio Olindomar, promotor do festival que veio dar a conhecer o que de melhor se faz de BD angolana, e que também fez os novos artistas ganharem espaço na comunicação social, tendo alguns o privilégio de terem um espaço onde apresentar frequentemente os seus trabalhos. A presença de Olímpio e Lindomar dissipou as dúvidas. Fez-se então entender que o termo núcleo surge na tentativa de englobar toda uma acção desta arte do desenho, mas com merecida ênfase às iniciativas solitárias do Estúdio Olindomar, que surge a dar rosto na atribuição do prémio como sendo a cabeça actual da BD angolana, pelo menos em termos organizativos.
Mas este nascimento solitário já algum tempo que vinha sendo ultrapassado, tendo nos apoios do festival a mão forte da UNITEL, a colaboração prestimosa do Centro Cultural Português-Camões, que não apenas dispensa o espaço como também facilita a movimentação de artistas da BD portuguesa, e a Alliance Française, que também surgiu como ponte e promotora de actividade entre artistas angolanos e franceses. Muito recentemente, o Centro Cultural Brasil-Angola se envolveu acolhendo a exposição individual do cartoonista Nelson Paim. Um pouco sobre a designação, Olímpio de Sousa acredita que a organização queria atingir um número abrangente para dar o prémio, e que achou por bem intitular núcleo para visar o Estúdio Olindomar que há 13 anos vem realizando o festival internacional de banda desenhada, não vendo motivo de belisco ao ego e protagonismo do Estúdio Olindomar.
É claro que daqui para frente a BD angolana passa a ser vista com outros olhos. Como se poderá fazer para tirar proveito do facto de ser reconhecida com este prémio, também é outra das tarefas do estúdio. Diz Olímpio: “Felizmente a banda desenhada deixa de ser uma arte solitária, depois de treze anos de solidão. Nós não imaginávamos que um dia fôssemos ser agraciados com este prémio. Mas aconteceu. Nós nunca almejamos o prémio, queríamos apenas fazer a banda desenhada crescer. Surgiu, e é bom. Trabalhamos. Vamos usar o nome e a categoria para poder ir buscar alguns apoios. Acredito que este prémio veio nos trazer cunho institucional, e isso é motivo suficiente para algumas empresas, em razão de serem mecenas, poderem ajudar-nos significativamente. É um grande sinal de reconhecimento”.
Já, dois dias depois do anúncio do prémio, o secretário da UNAP, Etona, manteve um encontro com Lindomar e Olímpio, aproveitando a oportunidade para felicita-los e encorajar. Por ser uma actividade feita maioritariamente por jovens, a brigada juvenil da UNAP foi a que mais ficou entusiasmada com o prémio, visto que os jovens interpretam esta atitude do Executivo (ministério da Cultura) como um grande incentivo e um elogio inesperado. “Porque sentíamos que a banda desenhada era tida assim à parte. Mas esse prémio veio mostrar o contrário, levando-nos a concluir que cada semente tem o seu tempo de dar frutos”, conclui.

As razões do júri

O júri da 16ª edição do PNCA, presidido pelo escritor António Fonseca, reuniu no passado dia 30 de Setembro para trazer a público os nomes que deveriam preencher as respectivas categorias. À obra de Cremilda de Lima, vencedora na categoria de Literatura, tece que a escritora “desenvolveu um estilo de escrita ancorado na oralidade angolana e nos valores da cidadania que, com hábeis e criteriosos recursos linguísticos, lexicais, narrativos e de qualidade de escrita, resultam em textos de grande valor literário e de grande alcance cultural e educativo”.
A categoria de Artes Plásticas ficou a mercê do Núcleo da Banda Desenhada, ao qual o júri atesta ter prestado atenção especial “às obras da técnica ´bico de pena´, na sua ampla abrangência, como tiras, estórias aos quadradinhos e ´cartoons´, retratando essencialmente cenas do quotidiano e críticas, como meio de formação de massas, para além do entretinimento satírico”. Por outro, o júri destaca a “execução meritosa das caricaturas apresentadas e o emprego da metáfora, onomatopeia nacional e a integração de técnicas do mundo digital”.
Da análise que fez às peças ´O Verdadeiro Sangue´ e ´Resultado´, em que conclui haver “criatividade artística e cénica, a formação estética dos espectáculos, solução cénica, maneira diferente e criativa de abordar temas, o nível interpretativo das obras, a combinação da cenografia, caracterização, sonoplastia, iluminação”, o júri atribuiu o prémio de Teatro ao grupo Amor à Arte.
Pelo conjunto da sua obra composta em "Man Polê" (1980), " Mitos &Tradições" (1986) e "Phambu ya Njila" (2004)), Mito Gaspar é o destacado na categoria de Música. Diz o júri sobre si: “Um dos garantes da preservação da ancestralidade artístico-cultural e projecção da mesma na contemporaneidade. Recorrendo ao domínio do imaginário expresso nos provérbios kimbundu e em temas como ‘Havemos de Voltar´ (de Agostinho Neto), de que resultou uma brilhante tradução para o kimbundu pela sua pena (…). Embora assente na tradição angolana, a sua obra ocupa também espaço na word music e afro jazz”.
Na categoria de Cinema e Audiovisuais, o prémio recaiu à equipa do documentário ´Independência´, elogiado pela investigação e técnicas: “Realça-se o guião, a direcção de fotografia, o tratamento da imagem (coloração), a edição, a sonoplastia (efeitos sonoros, música, locução, narração), o grafismo 2D para suporte da narração e a realização”.
Os grupos participantes no Festival Luvale de Kazombo receberam a distinção da disciplina de Dança. Justifica o júri: “Pelo alto grau estético, expressivo e criatividade, maturidade interpretativa e cénica. Os rituais dançados, as máscaras, a música, o vestuário constituem uma forma de resgatar, preservar e divulgar valores matriciais da cultura angolana e um valioso contributo à contemporaneidade da cultura nacional”. Henrique Guerra, pelo conjunto da sua obra, ganhou na disciplina de Investigação em Ciências Humanas e Sociais. “Com um vasto campo de actuação no domínio das ciências humanas e sociais desde a década de 50, tendo publicado nas revistas Mensagem e Cultura, revela-se como um dos angolanos pioneiros nos estudos etnográficos que o consagrariam nos anos 80 com o livro ´Três Histórias Populares´ (…). Destaca-se que é autor de um dos primeiros estudos nacionais sobre história económica de Angola, intitulado ´Estrutura Económica e Classes Sociais´, obra de referência obrigatória neste domínio”.

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