O poder da autoridade tradicional em Benguela: Os Akokoto

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Os Ovimbundu do planalto de Benguela acreditam que o poder da autoridade endógena está encarnado nos seus agentes, por isso, entronado o Soma y'Akokoto, a sua autoridade torna-se vitalícia.

Esta convicção encontra explicação no poder da gestão comunitária comparticipada entre as autoridades endógenas vivas e não-vivas. A resolução de alguns problemas que afetam a nação exige a intervenção direta dos ancestrais por serem eles os gestores antecedentes, cuja experiência por eles acumulada transmite-se entre gerações, segundo a pertinência e o contexto.

Assim, o maior líder, Soma y'Olosoma ou Soma Ynene, morre quando assim acontecer mas continua vivo e interventivo sempre que for necessário. Por esta razão é considerado não-vivo, biologicamente falecido mas espiritualmente influente (Graf, 42 ­ 43:1984). Este cenário justifica a ablação de crânios dos falecidos Olosoma Vyolosoma e Olosoma Vinene (Arjago, 28-31:2002) para a entronização dos sucessores, por se achar que é no crânio que reside o poder cuja transferência só acontece se o celebro do falecido passar para o vivo através de uma cerimónia, para depois celebrar-se o depósito do crânio num santuário. Este longo processo que começa com o óbito do Soma, passando pela terapia da ablação à entronização do sucessor que, depositados cronologicamente em lugares sagrados, com total confidencialidade, é tudo o que dá a designação institucional de Akokoto.

À semelhança da Ekula (A. J. Gomes, 33 - 39:2007), os Akokoto (T. Manuel, 53:2005) também não têm conhecido importantes referências bibliográficas pelas mesmas razões e, particularmente, porque o seu i) carácter religioso (L. Henderson, 22 ­ 24:1990) levou o cristianismo a humilhá-los, declarando-os inimigos imperdoáveis; ii) o elevado índice de intervenção militar, aquando da penetração das civilizações ocidentais, levou o sistema colonial português a hostilizá-los até à exaustão; iii) e, por conseguinte, fragilizados em todos os sentidos, depois da independência de 1975, não conseguiram recuperar o espaço sócio histórico mas, em função das condições geográficas do planalto de Benguela, foi possível preservar alguns lugares sagrados com estruturas próprias sem as funções militares. Neste aspeto não se conhece um rei umbundu que tenha resistido à penetração e ocupação europeia que não fosse Soma y'Akokoto, mesmo fora do espaço de Benguela; como se não bastasse, iv) caracterizaram-se por golpes militares e muitas dissidências políticas.

O óbito de um Soma y'Akokoto (Graf, 42 ­ 43: 1984) nem sempre é desejado pela nação inteira por causadas trágicas consequências em todas variantes da vida comunitária. Além da instabilidade política, geralmente promovida pelos Vakwavisoko, o fogo apagava-se desde onjango às simples famílias e só se voltava a acender depois do juramento, na cerimónia do entronamento do Soma sucessor.

Com ele aceso, declarava-se o reavivar da nação e, através dos Vakwelombe coadjuvados pelos Vakwaviso-ko (Arjago, 36-37:2002), era distribuído por todos os habitantes. É no decurso do fogo apagado que os golpes institucionais aconteciam com frequência, por ser um período em que a relação entre o poder central dos súbditos se cancelava em obediência à observância do luto estadual.

O vigente em preceituados históricos, tendo em conta a relação de consanguinidade (D. Forde e R. A. R. Brown, 281-338:1950), no poder político consuetudinário umbundu, está centralizado na capital do país mas os agentes da autoridade de Akokoto espalham-se hierarquicamente por todos Atumbu através de Olosongo (M. Malumbu, (158 ­ 184:2005). Em caso do falecimento de um deles, a negociação do translado do crânio e consequente entronamento do sucessor, a realizar-se na capital, pode ser por falta de fogo, e as autoridades são livres de a fazerem localmente, pressupondo a declaração unilateral da independência e anúncio da emersão de um novo Estado. Apesar do Wambu se localizar próximo da Ciyaka, sendo o Mbalundu (E. Sanjukila, 23 ­ 30:1997) o Estado mais extensivo da nação umbundu, grande parte dos Estados-satélites (Arjago, 34 ­ 39:1999) acabaram por emergir no atual planalto de Benguela (Miller, J. C., 81:1995).

A nossa aproximação aos Akokoto foi facilitada pela implementação do PAR a partir de 2001 em que fomos operadores de referência do município da Ganda, pois nas suas estratégias previam a criação de fóruns comunitários4. Somente em 2003 se venceu a barreira de desconfianças e escolhemos, em função das oportunidades, capacidades e proximidade para o estudo de caso, a Ombala de Katutu (M. Malumbu, 1722005), na comuna da Ebanda, em detrimento de Civanda (íd., ibid.) e Cikuma ambas da Ganda (Arjago, 71:2002) de Mavango (Miller, 89 ­ 90:1995). Em Setembro de 2006, o exercício repetiu-se em Kambololo, comuna da Chilata município de Longonjo.

A opção pela Ombala de Kambololo resultou da análise de dados recolhidos entre 1997 a 1999 da entrevista cedida pelo Soma Salupassa Do Soma ficou-nos a informação de que o centro do poder tradicional de Benguela era Ganda, particularmente a Cikuma de onde ele tinha vindo como Soma y'Akokoto, refugiado de guerra. Na entrevista, o Soma previa a sua morte com a consciência de que "mesmo tendo sangue de brancos, o seu crânio será depositado em Akokoto", não importa o tempo que tal leva-se.

No I encontro provincial sobre autoridades tradicionais em Benguela, como preparação para o fórum nacional de 2002, com exceção da Baia Farta, os regedores municipais indicaram a Ganda como centro do poder da autoridade endógena e o Soma Salupassa (Arjago, 73:2002) o líder de consenso.
Por feliz coincidência, no I Encontro Nacional Benguela convidaram-nos para assessoria na caravana onde se encontravam os regedores municipais do Cubal e da Ganda, disponibilizados em conversas paralelas. Ambos reiteraram a Ganda e Salupassa da Cikuma (M. Mulumbu, 169:2005). Entretanto, das informações recolhidas na Cikuma, em 2006 sugeriram-nos para visitar a Ombala de Kambololo encravada no triângulo entre as províncias do Huambo, da Huíla e de Benguela (Arjago, 36-37:2002).
Salvo o nível de exigências que os diferencia, o cenário é genericamente o mesmo: um depósito de peças cranianas cronologicamente organizadas e encravadas em túneis, geralmente montanhosas, inacessíveis e distanciadas dos pontos habitacionais, que à primeira vista lembrariam uma vala comum. O acesso ao local, inteiramente interdito a mulheres, crianças, incircuncisos, estrangeiros, Olosoma Vyakokoto e seus consanguíneos (Arjago, 41 ­ 62:1999), só acontece uma vez por ano, sendo em Setembro, de preferência dias antes da primeira chuva.

Uma lista de donativos exigidos, onde se incluem animais machos de cor para sacrifícios, bebidas, alimentação, tecidos brancos, óleo de palma e pacotilha vária, aparentemente menos importante, serviram de passe para o aceso. Para atingir o local sagrado (M. Eliade, 38 e 43:s/d), rústico e totalmente abandonado, realizam-se rituais coordenadas por uma serie de orações, e preces, solicitando permissão (E. dos Santos, 22 ­ 24: 1962), segurança e tudo o que a comunidade espera dos antepassados. Para haver certeza de que o movimento no local é seguro aí se lançam nele galos vivos e aguarda-se por reações estranhas.

Alguns animais são sacrificados (Graf, 29 ­ 33:1984) e o sangue é untado nas pesas cranianas depois de mergulhadas nas bebidas, e o resto, depois de preparado, serve de pitéu para os presentes. O encerramento é feito segundo um programa de culto religioso que antecede a campanha de limpeza e reordenamento do património. De regresso ao Elombe o préstito comprometido com ulonga, por apresentar à comunidade no momento, é recebido em ambiente festivo que se prolonga até dia seguinte.

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