O processo dos cinquenta, uma grande viragem histórica

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"O Processo dos Cinquenta. Tempo e Memoria (1940- 1962). Considerações Históricas", da autoria de Fernando Hedviges Chasse, que acaba de ser impresso e editado em Lisboa demonstra que o ato do julgamento dos nacionalistas angolanos envolvidos na luta clandestina nos anos 50 constituiu uma grande viragem na História de Angola.

Com 374 páginas, esta publicação estrutura-se numa dezena de articulações, com uma significativa ilustração da capa, réplica de uma pintura a óleo sobre tela intitulada "Viúva de Luanda", do inconfundível Neves e Sousa.

Vários quadros do pintor luandense, dos anos 50 e 60, foram inseridos, bem a propósito, neste bloco memorial, tais como, os que evocam as conversas das discretas quitandeiras, as concertações de inquietude nos quintais dos musseques, os mercados, as farras e o Carnaval dos Indígenas, locais de contactos conspirativos, por excelência.

Sensível à força imortalizadora das tiradas poéticas, o cronista inseriu nesta retrospetiva vários textos tais como os de Noémia de Sousa de 1952, Viriato da Cruz, Antero de Abreu e Jorge Eduardo dos Santos Monteiro, com o poema "O Tarrafal do Processo".

Esta galeria pictural é reforçada pelo um rico conjunto iconográfico ­ de impressão gráfica, infelizmente média ­ constituído de reproduções de dezenas de retratos fotográficos de personalidades, sítios, atividades, publicações, relatórios, panfletos, códigos de cifra e decifração das organizações clandestinas, mapas, manuscritos, notas dactilografadas com ou sem cifra, etc.

ACÓRDÃOS

Reencontra-se aí, igualmente, autos de perguntas, acórdãos do famoso Tribunal Militar Territorial de Angola, despachos de pronúncia, atas de audiências do julgamento, libelos de acusação, registos de presos, boletins biográficos de encarcerados e outros documentos.

O pesquisador consultou, na evidência, fontes privilegiadas tais como as do Arquivo Histórico Militar de Portugal, diferentes classificações dos arquivos da PIDE/DGS e o livro da respeitável e corajosa advogada Maria do Carmo Medina, "Angola. Processos

Políticos da Luta pela Independência", publicada em 2003.

Na dinâmica do reforço da base historiográfica do "Processo", inclui-se os depoimentos de uma dezena de sobreviventes tais como Amadeu Amorim e José Diogo Ventura.

Na substância das suas análises, o antigo aluno do Liceu Salvador Correia releva as características da evolução politica, social e religiosa de "Angola Portuguesa", influenciadas pelas consequências das duas Grandes Guerras, e que se cristalizaram, nomeadamente, numa notável dinâmica de efervescência nacionalista, de esquerda, bem percetível, os escaninhos nas fileiras das Igrejas cristãs, neocristãs ou sincréticas, o reforço das malhas da implacável Polícia Internacional de Defesa do Estado ­ PIDE.

Segue-se uma abordagem bastante detalhada do insistente e devastador movimento panfletário, as inevitáveis interpelações iniciadas em Março de 1959, os subsequentes julgamentos, as duras condenações e os indeclináveis caminhos das prisões, in loco, ou de desterro, em direção à Casa da Reclusão Militar de Luanda, à Cadeia do Aljube e ao Depósito de Presos de Cascais, em Portugal, e no Campo do Chão Bom, no saheliano Cabo Verde.

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