O século XXI e a idade Selfie

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O papel das TICs na transformação das mentalidades e a sua repercussão no universo das Artes angolanas

O século XXI e a idade Selfie
O PCA das Edições Novembro, José Ribeiro, ao centro, ladeado pelo director deste jornal, à esquerda, e do Administrador Editorial, Victor Carvalhio, à direita Fotografia: Paulino Damião

O Jornal Cultura organizou no passado dia 8 de Abril uma tertúlia comemorativa do seu quarto aniversário, com a participação dos colaboradores e alguns leitores assíduos do mesmo.
O tema do debate foi:
"O século XXI e a idade selfie. O papel da tecnologia digital na transformação das mentalidades e a sua repercussão no universo das Artes angolanas."
Com este tipo de eventos, pretendemos fazer do jornal Cultura um catalisador ou dinamizador de debates em torno de temáticas culturais actuais e relacionadas com o meio social angolano. A ideia é ganhar experiência e tradição nesta área, fazer dos debates um processo regular (mensal) de captação de ideias sobre temáticas culturais para preencher o jornal e melhor servir os leitores.
Nesta secção, apresentamos as três comunicações que serviram de motivo inspirador para que o público presente acendesse o lume da conversa.

DO SELFIE AO HOMO MEDIATICUS

Na década de 60, Marshall McLuhan faz uma descoberta interessante. Segundo ele, todo o médium é uma extensão do homem e isso causa uma profunda e duradoura mudança nele e transforma o seu ambiente. Sendo a extensão “uma intensificação ou amplificação de um órgão, sentido ou função, o sistema nervoso central institui uma protecção, entorpecendo a área afectada, isolando e anestesiando essa consciência do que está acontecendo. McLuhan chama a isso auto-hipnose.”

SELFIE
Em 2013, os responsáveis pelos dicionários da Oxford escolheram “selfie” como a palavra do ano. Um dos motivos para esta escolha foi o fato da busca por esta palavra ter crescido 17000% em 2013, o que confirma o seu estatuto de uma das palavras mais procuradas em um ano. Selfie é um neologismo com origem no termo self-portrait, que significa auto-retrato, e é uma foto tirada e compartilhada na internet.
No final de 2013, o selfie criou polémica, quando Barack Obama, Presidente dos Estados Unidos, tirou uma foto, no dia 10 de Dezembro daquele ano durante o velório do ex-presidente da África do Sul, Nelson Mandela, um auto-retrato tendo ao lado os primeiros-ministros do Reino Unido, David Cameron, e da Dinamarca, Helle Thorning Schmidt.
Que o selfie é uma mania mundial, não existem dúvidas.
Por isso, nós consideramos o século XXI a idade selfie (símbolo da câmara invasiva). A sociedade em que vivemos é uma sociedade selfie. Cultivamos o narcisismo e o culto da personalidade. Todo o mundo filma e se filma. Nas igrejas, nos espaços e espectáculos públicos, em casa, nos transportes, nos locais de trabalho, na praia, ninguém está a salvo de ser captado indiscretamente pela câmara de um telemóvel estranho. O telemóvel android tornou-nos robots mecânicos viciados no clic perpétuo da gravação de imagens. Do próximo e de si próprio. Daí a criação do pau do selfie, extensão oblíqua do braço capaz de produzir com maior perfeição a auto-imagem.
Este culto da imagem criou o Homo Mediaticus, que ofusca o trabalho, a criação pela simples aparição nos média, principalmente a Televisão. A Televisão virou hoje em dia o Altar Familiar da era contemporânea. Um fenómeno por mim constatado é que, para grandes franjas da sociedade angolana, principalmente a juventude que pouco lê, eu sou poeta porque a Televisão me mostra como poeta, não porque tenham lido os meus poemas. Desde que a Televisão diga que um cidadão angolano é escritor, ele passa automaticamente a sê-lo.

APARTAMENTO GLOBAL
Com a expansão das TICs, hoje, no século XXI,  o Mundo deixou de ser uma Aldeia Global (numa aldeia, há espaços largos de mobilidade) para se tornar um Apartamento Global, onde a privacidade perde as fronteiras e tudo se sabe sobre todos (Big Brother global). Veja-se o famigerado “Caso Jindungo”.
Existe uma crença muito antiga que diz que muita foto desgasta a alma da pessoa fotografada. Estamos, pois, a ficar todos sem alma. Este é um milénio desalmado.
Se a imediata universalização das tendências da Arte Universal, nos domínios da Literatura, da Música, da Pintura, do Cinema, do Teatro, da Dança, etc., constitui um factor positivo a ter em conta no uso generalizado das TICs, há um aspecto negativo que consiste no facto de que a Globalização, com o apoio das TICs, criou a miragem de que a uniformidade artística pelo padrão ocidental significa modernização. Portanto, há uma desconsideração do fenómeno da Diversidade a favor de uma Polarização universal. O que está a maravilhar a juventude angolana – pelo tal efeito McLuhaniano da auto-hipnose – é o fenómeno da AMERICANIZAÇÃO CULTURAL DO MUNDO.
Este fenómeno degenerou no epifenómeno da banalização da Arte e da música, com o uso e repetição de clichés, pollockização da pintura, numa autêntica alienação estética, em contraponto à verdadeira originalidade dos grandes criadores que ainda existem e que teimam em se firmar com um contributo original para a diversidade cultural, perante os desafios da globalização cultural (ou imperialismo cultural) que teima em estabelecer a unipolarização do seu modelo artístico (nihilismo, rap, pop, rnb), como se a Rússia, a China ou o Japão não produzissem Arte (porque esta outra Arte não passa nas canais que nos servem).
Alguém que esteja a ler-nos agora, sabe dizer o nome de um romancista zambiano? E de um dramaturgo zimbabweano? Mas eu penso que a maioria dos leitores conhece a Rihanna, não?

VAMOS DESCOBRIR ANGOLA
Perante esta realidade, é possível, ainda, fomentar a criação artística e do intercâmbio cultural africano e a preservação do nosso património intangível?
Hoje, a Cultura Angolana apresenta uma diversidade de manifestações muito ricas nos domínios das Artes e das Letras, manifestações essas que representam a síntese estética dos sentimentos e emoções colectivos de todo o Povo, da Alma de uma Nação.
A sombra protectora e libertária da nossa bandeira confere-nos a mais lídima oportunidade para recuperamos esse rico e inextinguível legado que as gerações dos nacionalistas não puderam concretizar, dada a incontornável repressão colonial.
O slogan “Vamos Descobrir Angola” lançado em Luanda, em 1948, era já um prelúdio nacionalista do Renascimento Africano promulgado em 2013, pela União Africana, por ocasião do seu Jubileu de Ouro.
Como se pode ler na Carta do Renascimento Cultural Africano, no seu Artigo 21º “Os Estados africanos deverão: a) assegurar que as tecnologias de informação e comunicação são utilizadas para promover a cultura africana.”
É hora de retomarmos os postulados teóricos culturais do movimento "Vamos descobrir Angola” no sentido de, entre outros, “combater o respeito exagerado pelos valores culturais do Ocidente (muitos dos quais caducos)” e “privilegiar a expressão da autêntica natureza africana, com base no senso estético, na inteligência, na vontade e na razão africanas”.

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