O último sonho de Samuel Aço A prática sócio- cultural da transumância e a fixação das populações do Sudoeste de Angola

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Morreu Samuel Aço, antropólogo e investigador social que tinha as suas preocupações intelectuais voltadas para estudo da região do Namibe, sem prejuízo das províncias circunvizinhas, nomeadamente da Huíla e Cunene.

O último sonho de Samuel Aço A prática sócio- cultural da transumância e a fixação das populações do Sudoeste de Angola
O último sonho de Samuel Aço Fotografia: Paulino Damião

O defunto foi professor associado do Departamento de Antropologia da Faculdade de Ciências Sociais da Universidade “Agostinho Neto” (FCS/UAN) e do Centro de Estudos Africanos, coordenador do Centro de Estudos do Deserto(CE.DO), uma instituição de pesquisa por si animada e que contou também com o concurso do igualmente já finado escritor e antropólogo angolano Rui Duarte de Carvalho.
Com efeito, com a morte de Samuel Aço morre também o centro de pesquisa que procurava animar no Namibe, como o próprio nome indica,- Centro de Estudos do Deserto- mobilizando o interesse e atenção de jovens pesquisadores locais, que provavelmente não terão pernas para levar adiante um projecto da envergadura do género, bem como morre sobretudo o seu sonho de criação de um Observatório da Transumância- migrações de pessoas e gado no Sudoeste de Angola, uma questão actual e actuante, já que na última estação da seca que nos últimos meses(entre Outubro/Abril) 14 províncias do país, com o epicentro nas províncias agro-pastoris do Cunene, Huíla, Namibe e parte de Benguela, incluindo uma vasta região afectada do Sudeste, no Kwando Kubango.
O projecto do Observatório da Transumância que englobaria as regiões da Huíla,Namibe e Cunene visa(va) não só atender aquela prática cultural e social das populações- alvo, como as crises cíclicas da seca e cheias que volta e meia atinge aquela vasta região do Sudoeste de Angola e cercanias.
Nesta senda, segundo Samuel Aço “um dos principiais objectivos deste projecto, numa área de alta vulnerabilidade climática à qual está associada uma intensa transumância associada à criação do gado, é identificar estes movimentos, caracterizá-los nas suas causas e consequências, contribuindo para a disponibilização de dados pertinentes para o desenvolvimento e melhoria das condições de vida das populações locais”, sendo a “a pesquisa simultaneamente qualitativa e quantitativa, apostando fortemente na disseminação dos seus resultados junto de actores chave e demais partes implicadas nas dinâmicas do desenvolvimento do Sudoestes”. Num tal cenário – queremos crer – tais actores sociais poderão ser localizados entre instituições do Governo( ministérios da Agricultura, da Família e do Desenvolvimento Rural, das Águas, do Ambiente e governos locais) Sociedade Civil (ongs nacionais, associações, igrejas, imprensa, etc.) e eventuais parceiros internacionais, como as agencias especializadas da ONU e ONGS mundiais vocacionadas em programas assistência social e mesmo de desenvolvimento.
Para uma empreitada desta envergadura que Samuel Aço projectava para uma extensa região do Sudoeste de Angola faltava a capacidade material, financeira e de recursos humanos, pelo que não poderia ir avante senão com uma um forte apoio institucional e um exigente capacidade técnica e local.
Nestes termos entendia que o observatório deveria ter a sua focagem num universo de 100.000 mil kms2. “Estes dez municípios compreendem ainda comunas, bairros e sectores, os quais são também administrados localmente por autoridades tradicionais.”
Reportando-se concretamente à transumância, encarando-a como “fenómeno global (facto social total)” transversal”, referia: “Apesar de existirem vários estudos sobre o gado e a transumância, nomeadamente o realizado por Castanheira Diniz em 1989, são estudos eminentemente técnicos, visando a fixação e concentração do gado, com pouca incidência sobre a componente humana”, acrescentando que “Desconhece-se igualmente se foram realizadas experiências para a estabulação do gado e fixação da população e os resultados obtidos”. Ele enfatizava que “as intervenções realizadas nestes últimos anos ficam muito aquém das preconizadas no estudo referido e o que sucede ás pessoas e aos grupos domésticos a que pertencem, envolvidos na criação e pastorícia do gado na região tem sido absolutamente ignorado, tanto pelas autoridades como pela sociedade em geral.”
Na verdade, a questão levantada pelo investigador ora finado acaba por entregar na discutidíssima problemática do impacto cultural, ambienta dos projectos desencadeados, sem que tenham em atenção a realidades locais, suas implicações operatórias no plano sociológico e antropológico profusamente discutidas no Simpósio e nas distintas conferencias, colóquios e palestras que o precederam, quando do FENACULT em 1989, e que alguns dos intervenientes haviam chamado a tenção para o facto das suas análises e recomendações serem tidas em conta pelos decisores a quem são chamados a responsabilidade da execução das políticas públicas junto das populações e respectivo impacto da sua aplicação prática, sujeita à apreciação dos analistas sociais presentes nos diverso fóruns que tiveram lugar na época e que desembocaram no certame realizado no Palácio dos Congressos, onde foram repisados os argumentos de peso já aludidos – conforme pudemos testemunhar.
Para o público-alvo deste seu objecto de pesquisa, Samuel Aço constatava o seguinte:
“ Na verdade, as populações potencialmente compreendidas neste fenómeno sobre o qual se pretende fazer uma observação e recolha científicas, deslocam-se e entrecruzam-se em territórios que antes estavam marcadamente identificados como espaços de uma única comunidade étnica”, sublinhando que “ actualmente certas áreas constituem uma amálgama de populações e culturas, não deixando no entanto, de se sentir a predominância de uma comunidade que lhe confere a identidade e mantém as suas estruturas próprias através das instituições do poder tradicional.”
O antropólogo constata também que “apesar da transumância percorrer circuitos de há muito estabelecidos e aceites pelas comunidades, existem cada vez mais circulações que dizem respeito às actividades comerciais e ainda outras, que são recomposições daquelas produzidas pelos efeitos da guerra”, frisando que para disso a outros aspectos que reputa de grande importância, exemplificando com “um tipo de movimentação cíclica observada, ocasionada pelas secas que de tempos a tempos assolam algumas áreas da região forçando à deslocação de pessoas e gado para outros locais, mais favoráveis à sobrevivência”.
O observador social deixando escapar, curiosa e ironicamente, uma dúvida que ocorre no eventual local de destino: “ a forma como obtém hospitalidade e guarida junto dos habitantes de outras regiões, também elas carentes e quase sempre nos limites da disponibilidade da disponibilidade de recursos.”
Num tal contexto de carências alguns exemplos em África similares são geradores de guerras campais pela posse de víveres e água por algumas comunidades contíguas. A similitude entre os sub-grupos étnico –linguísticos em presença, as eventuais relações de parentesco entre si serão um amortecedor social para potencias disputas entre si!? E quando tal similitude cultural ou afinidade sanguínea não ocorrer, não potenciará eventuais conflitos futuros?!
O último sonho de Samuel Aço deve ,por isso mesmo, ser acarinhado pelas autoridades, sociedade civil e parceiros internacionais e populações sofredoras do Sudoeste de Angola, que volta e meia são atingidas duramente pelo dilema dramático das secas ou das cheias.
Enfim, quem é “pega tenso” num trabalho de pesquisa que o Observatório deveria/deverá cumprir, sendo a última homenagem a ser tributada ao ousado antropólogo que lançou as sementes à terra, em torno de um projecto académico de tal envergadura: integrado e integrador.
Sonhar não é proibido- lá reza o ditado.
Mais: para que tal desiderato fosse possível o finado tinha montado, premonitoriamente o seu esquema conceptual em artigo publicado na revista Mulemba(nº 1/Maio de 2011), localizando a execução do gigantesco projecto nos diversos municípios do Namibe, Huíla e Cunene, compreendendo um total de 2 530 000 bovinos e 700 000 caprinos/ovinos ( sendo a Huíla com 1 300 000 bovinos e 510 caprinos/ovinos; Cunene com 900 000 bovinos e 120 000 caprinos/ovinos; e Namibe 330 mil bovinos e 700 mil caprinos/ovinos”. O investigador chamava ainda atenção para o contexto sócio-geográfico: “a escassez da água (que) é nota dominante”, enfatizando que “toda a organização económica e social , a ocupação do solo e as relações de produção que se estabelecem, baseiam-se principalmente na criação de gado (…), por não existirem condições para a prática de uma agricultura que por si só , garanta a sobrevivência das famílias.”
Entretanto, para levar a cabo o seu observatório, Samuel Aço não situava como foco principal, como não poderia deixar de ser, os recursos humanos, que deveriam dar corpo ao projecto por si idealizado, desdobrando-se em diversas missões preliminares de avaliação e consequentemente de pesquisa: 1 coordenador, 2 coordenador, 2 coordenadores adjuntos, consultores vários, na área da Veterinária, Hidráulica, Geografia, Demografia, estatística, saúde, etc, 1 informático, , 1 auxiliar administrativo, 1 motorista e auxiliar de serviços gerais, 1 guia local, 1 coordenador, 2 assistentes de investigação, mais um motoristas e auxiliar de serviços gerais, acrescido de mais um guia local. Estes 4 últimos iriam funcionar “com três equipas de trabalho, apenas no períodos de recolha local de dados, que irão incluir cada um delas.”
Assim estava idealizado a consecução do sonho do Observatório da Transumância no Sudoeste de Angola do antropólogo Samuel Aço, que nos abandonou nos últimos dias. Que outras mãos se mobilizem para tamanha empreitada.

Paz à sua alma!

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