Património Mundial Africano: Tchitundu-Hulu na lista das prioridades da UNESCO

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Terminou no passado dia 26 de Outubro em Mbale, República do Uganda, um workshop organizado pelo Fundo para o Património Mundial Africano (AWHF) em parceria com Centro de Desenvolvimento do Património Africano (CHDA) visando o aumento quantitativo e qualitativo de dossiers de candidatura de bens dos Estados Partes africanos da `Convenção do Património Mundial Cultural e Natural' à `Lista do Património Mundial'.

O workshop teve duração de duas semanas e resulta do facto de que, apesar do seu património muito rico, o continente africano continua a ter uma fraca representatividade naquela lista. Dos 962 bens ou sítios aceites e inscritos na lista, somente 86 representam o continente, correspondendo nada mais que 9% da mesma.

Daí que o principal objetivo desse workshop tenha sido a construção de competências e capacidades aos profissionais africanos do património cultural.

Trata-se na realidade da implementação de uma terceira fase de formação coordenada por instituições de formação regionais em África como estratégia aos desafios quanto ao aperfeiçoamento da qualidade dos dossiers de candidatura dos seus países ao serem submetidos ao `Comité do Património Mundial' e por via de consequência dilatar em número e diversidade, os bens africanos inscritos na referida lista.

A realização desse tipo de formação, tem permitido, por outro lado, reforçar a rede de profissionais do património africanos que trabalham em bens do Património Mundial facilitando o progresso na tarefa de tornar o continente melhor representado naquela conceituada lista. Participaram do workshop profissionais de Angola, África do Sul, Eritreia, Ghana, Quénia, Serra Leoa, Uganda e Zimbabwe.

Tchitundu-Hulu na mira da UNESCO

Desde os anos 50 do século passado que é reconhecida a importância histórica, cultural e científica das pinturas e gravuras rupestres de Tchitundu-Hulu, (Virei, província do Namibe).

Com o fundamento de que a Estação de arte rupestre de Tchitundu-Hulu representa um testemunho material e imaterial da vida social, económica e espiritual das antigas comunidades que se terão fixado naquele espaço e autores das pinturas e das gravuras, entendeu o ministério da Cultura atribuir-lhe classificação como `Património Histórico-Cultural' (Despacho Ministerial nº 116, publicado no Diário da República nº 38, de 6 de Setembro de 1996).

Actualmente, a Estação de arte rupestre de Tchitundu-Hulu, faz parte do conjunto de bens da "Lista Indicativa" da República de Angola para a Património Mundial, cujo dossier de candidatura deverá ser desenvolvido, em conformidade com os requisitos estabelecidos para divisar esse `galardão' internacional.

Um dos primeiros passos foi a realização de um `workshop internacional sobre o Plano de Gestão da Estação de arte rupestre de Tchitundu-Hulu' , no Virei, de 17 a 23 de Março de 2011, pelo ministério da Cultura com o concurso do AWHF.

A questão da sua possível candidatura à Património Mundial, foi levada à discussão e avaliação naquele workshop, onde, diga-se de passagem, foi reconhecida a sua dimensão simbólica, artística e cultural, que é, por sinal, uma riqueza acumulada por gerações passadas que deve ser valorizada e transmitida para as gerações futuras.

É importante referir que independentemente de toda uma faina à escala nacional para o seu reconhecimento internacional, a Estação de arte Rupestre de Tchitundo-Hulu, faz parte, no entanto, de uma Lista dos bens africanos com possíveis prioridades para inscrição na ‘Lista do Património Mundial’.
Referimo-nos à brochura publicada pela UNESCO (African Cultural Heritage – Possible Priorities for the World Heritage List).

Sítio de sacralidade Tchitundu-Hulu, foi no seu passado e continua a ser nos dias de hoje um local sagrado e reverenciado pela comunidade local. O sítio é permanentemente lembrado como centro dos rituais das comunidades que habitam o espaço circundante,nomeadamente os caçadores e recolectores que, actualmente, designadas Kwisi, servindo para a divinação do clima e da fertilidade. Consideradas na sua essência, essas tradições históricas associadas às evidências arqueológicas constituem elementos significativos para a compreensão da sua importância e carga simbolica do sítio tanto para as antigas populações como para as actuais.

Uma jóia preciosa da `Arte Rupestre Africana

' A estação de arte rupestre de Tchitundu-Hulu conserva ainda uma das maiores concentrações de arte rupestre que se conhece: contam-se mais de 2000 gravuras e 250 pinturas. Ela distingue -se das demais, justamente, por ser um dos únicos sítios no continente africano onde se podem contemplar pinturas e gravuras no mesmo sítio, destacando-se representações animalistas e geométricas perfeitamente combinadas.

A arte rupestre de Tchitundu-Hulu demonstra evidências de interação entre as comunidades de caçadores e recolectores e agricultores, ilustrando as múltiplas fases da pré-história angolana. A sua importância do ponto de vista da pré-história angolana está intimamente associada às evidências de que o sudoeste Angolano constitui o lugar por onde as primeiras comunidades de agricultores se fixaram. De igual modo, acredita-se que a região seja o ponto de origem dos grupos Khoikhoi que se moveram mais a sul da sub-região há cerca de 2000 anos.

Tchitundu-Hulu tem, portanto, um potencial arqueológico para elucidar sobre as origens e processo de movimentação destes importantes grupos populacionais em África. Tchitundu-Hulu tem, de facto, um potencial para ser inscrito na `Lista do Património Mundial', já que é assente a justificação de que é dos sítios mais esplêndidos de arte rupestre em África e cuja localização, no coração de um meio rural relativamente homogéneo (remoto), perto de um centro de endemismo, confere-lhe o potencial para tornar-se numa importante fonte para o reforço da identidade dos povos ao nível local, nacional e até internacional.

 Aquele workshop contou com a presença de conceituados estudiosos em matéria de arte rupestre africana (Dra Janette Deacon), do Património Mundial Africano (Souayibou Varissou, Dja Malan, Pascall Taruvinga, Hoseah Wan-Wanderi e Linda Kanyemba) e do Comité do Património Mundial (Dra Brigitta Ring-Beck e Alessandro Balsamo).

A Constatação de que a tradição da arte rupestre do Sahara, no norte de África e da arte rupestre San, na África Subsaariana, estão atualmente bem representadas na Lista do Património Mundial da UNESCO e que, contudo, a zona de arte rupestre geométrica da África Central, excecionalmente representada pela arte rupestre de Tchitundu-Hulu, continua pouco conhecida e mal representada naquela lista, remete-lhe imediatamente a uma vantagem, podendo este servir de mais um argumento relevante na avaliação da justificação do seu ‘Valor Universal Excecional’ pelo ‘Comité do Património Mundial’.

Recorda-se que o Fundo para o Património Mundial Africano (AWHF) foi lançado em 2006 para apoiar os Estados Partes africanos na implementação da Convenção da UNESCO de 1972 sobre a Proteção do Património Mundial Cultural e Natural e que Angola é Estado Parte da mesma desde 1992.

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