Poema de Jorge Macedo

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TENHO DÓ

de ser
de carne e osso
e não ser
um ser
de pedra e insensibilidade.

Tenho dó de ter
estes olhos
de lágrima e comoção.
Antes fosse mar no olhar
e com tanta lágrima
pudesse chorar
por tudo quanto dói a tanta gente
a sofrer tanto
que não tenho olhos para chorar
nem sequer por duas orfãzinhas
tão pequenas e tão tristes.

Oh! quão triste
eu sou
com a dor de ter
estes dois olhos mais pequenos
que uma frincha de janela

quando a dor de tanta gente
me pede que chore tanto
não tenho lágrima

e são pequenos meus olhos
quais palhas secas
sobre milho debulhado

In “O Livro das Batalhas” (1992)

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