Prémio Nacional de Cultura e Artes distingue excelência e diversidade

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O rugido cavo da Pwita, instrumento musical exaltado pela 13ª gala do Prémio Nacional de Cultura e Artes, alongou nas almas dos convivas recordações bucólicas e assinalou a primeira aparição oficial em ato de massas, no dia 8 de Novembro, do Vice-Presidente da República, Manuel Vicente, para, de mão solidária e sorriso ameno, proceder à entrega dos troféus aos justos vencedores deste ano.

Da esquerda para a direita: Óscar Gil (vencedor da edição 2003), Arlindo Barbeitos, Alberto Botelho, Kiluanji Kia Henda, José Fernandes (Henrique Artes), Eduardo Paim, Tchicusso Pedro (Ombembwa) e José Mena Abrantes. Fotografia: Fotos de Santos Pedro

O Cine Tropical foi pequeno para albergar todos os convivas e homens e mulheres de cultura que ali convergiram para participar na cerimónia que contou, a abrir, com o concerto de quatro Pwitas, o saxofone irreverente de Sanguito e o recital apaixonado do poeta Manuel Rui, intercalado pelo som do piano.

Todavia, a nota mais doce do espetáculo foi construída pelos três ngomas e uma banheira metálica das quatro tocadores e seis dançarinas do grupo Kissama (um apêndice do grupo carnavalesco União 54), ao interpretarem Nga Mutudi (Viúva).

A genialidade da dança, criatividade, expressividade da indumentária e dos gestos e o domínio dos instrumento produziu nos presentes emoções diversas, e demonstrou que as mulheres angolanas são ignoradas pelos júris do Prémio Nacional de Cultura e Artes, maioritariamente entregue a criadores do sexo masculino.

O grupo musical Geração Nova, do Huambo, Lina Alexandra, Matias Damásio e outros exímios artistas subiram ao palco do Cine Tropical em mais uma noite que ficará registada na História da Cultura Angolana, pela justiça feita a alguns premiados, casos do escritor Mena Abrantes e do cantor Eduardo Paim, como referiu no dia 31 de Outubro, no ato de divulgação dos premiados, a titular do pelouro, Rosa Cruz Silva e o caso particular do cineasta Óscar Gil, laureado do ano de 2003, cuja formalização esteve suspensa devido a um litígio judicial.

Incentivo à criatividade

Desde o ano de 2000 que os agentes culturais angolanos são incentivados à criatividade, à produção dos bens culturais, ao conhecimento e à compreensão da diversidade das manifestações linguísticas e culturais do povo Angolano, através da atribuição Prémio Nacional de Cultura e Artes, um dos instrumentos que contribui para o reforço da “unidade do Estado e da Nação”. A Ministra da Cultura, Rosa Cruz e Silva, reiterou, na abertura da edição deste ano, a “excelência” e o carácter nacional do prémio, que determinaram o critério da qualidade das obras e criadores laureados. Presidido por Zavoni Ntondo, o júri do Prémio Nacional de Cultura e Artes, edição de 2012, foi integrado pelos seguintes membros, nas suas respetivas  subcomissões:

Disciplina de Literatura:
António Fernandes da Costa e Manuel Muanza.

Disciplinade Investigação Científica em Ciências Humanas e sociais:
Zavoni
Ntondo e Victor Hugo Guilherme

Disciplina de Artes Plásticas:
António
Luís Jorge Gumbe e Lukulu Zola Ndonga

Disciplina de teatro:
Avelino d’Almeida Tavares Neto e João Cristóvão Benza

Disciplina de Cinema e Audio visuais:
Alberto Adão Sebastião e Augusto Manuel dos Santos (Nguxi dos Santos)

Disciplina de Música:
Belmiro António Carlos e Gaspar Agostinho Neto

Disciplina de dança:
Cristóvão Mário Kajibanga e Nelson João Pereira Augusto

O grupo de jurados iniciou a sua atividade no dia 2 de Fevereiro de 2012 e realizou deslocações às províncias de Cunene (duas visitas), Huíla e Bié e o acompanhamento das atividades culturais desenvolvidas nas cidade de Luanda, Huambo, Lwena, Benguela, Malanje, Ndalatando, Dondo, Sumbe e Caxito.

Nesta sua décima terceira edição, o Prémio Nacional de Cultura e Artes, contemplou os seguintes artistas e escritores:

LITERATURA

José Mena Abrantes.

Dedicou parte da vida a produzir textos dramáticos, modalidade literária raramente cultivada em Angola e pouco conhecida enquanto tal. Destinando-se o texto literário dramático à representação, é inegável a importância desta vertente estética da obra de José Mena Abrantes, numa altura em que o teatro anima cada vez mais o público e floresce em palco.

Além de escrever peças de teatro e de se dedicar à direção do grupo Elinga-Teatro, desde 1988, o autor produziu romances, poesia e ensaios. O conjunto da obra de José Mena Abrantes é consubstanciado por uma profunda carga existencial.

Trata-se, pois, de uma produção literária que preserva factos históricos ocorridos no período colonial, no espaço que hoje chamamos Angola, e que se afirma como crítica e reflexão sobre a realidade social e moral da época.

Natural de Malange (1945). Licenciado em Filosofia Germânica em Lisboa (1969). Co-fundador em 1975 da Agencia Angola-Press (ANGOP), da qual foi Diretor-Geral (1981-83).

Trabalhou igualmente na Cinemateca Nacional (1985-87). Foi assistente de informação  o (1987-93) e exerceu as funções de assessor de imprensa do Presidente da Republica desde Fevereiro de 1993.

Jornalista, escritor, dramaturgo, produtor e encenador de teatro. Dirige, desde a sua criac ao  em 1988, o grupo Elinga-Teatro.

Publicou 12 pecas de teatro, três livros de ficção em prosa, dois livros de poesia e vários estudos sobre o cinema e o teatro em Angola.

Vencedor do premio Sonangol de Literatura de 1986, 1990 e 1994.

Vencedor do 1.° Premio "ex-aequo" de poesia dos jogos florais do Caxinde (1997) e do 2.° lugar do Premio PALOP 99 do Livro em Língua Portuguesa (2000).

Recebeu em 2006 o Diploma de Me rito do Ministério da Cultura de Angola pela sua "significativa contribuição o ao desenvolvimento da dramaturgia em Angola".

INVESTIGAÇÃO CIENTIFICA EM CIÊNCIAS HUMANAS E SOCIAIS

Arlindo do Carmo Pires Barbeitos,

pela sua obra Angola-Portugal, Representações de si e de outrem ou jogo equívoco das identidades, considerando a relevância, a pertinência, a cientificidade e o interesse deste trabalho.

Este facto demonstra que a compartimentação dos angolanos e de outrem em categorias identitárias rígidas e hierarquizadas, com base nos conceitos modernos como raça, etnia ou nação que viriam a estabelecer as noções de eu e de outro, constitui um pressuposto das guerras civis em Angola.

Este estudo, fruto de um trabalho aturado de investigação, vai enriquecer a bibliografia angolana com mais um documento que retrata um fragmento da história de Angola e contribui, por um lado, para a apreensão dos motivos íntimos e conhecidos no final da época histórica em análise e, por outro, para a compreensão dos equívocos do fenómeno de assimilação.

A metodologia aplicada pode constituir um incentivo e um modelo para o alargamento da reflexão e estudo da temática.

Nasceu a 24 de Dezembro de 1940, em Ikolo e Bengo. Seguiu, em 1958, para Portugal para ingressar na Universidade. Cedo se converteu em membro da antiga Casa dos Estudantes do Império (C.E.I.) e ali se tornou militante do Movimento Anticolonialista (M.A.C.).

Em 1961, escapou para Paris, de onde, ainda em Setembro de 1961, partiu para Frankfurt/Main, na Rep. Federal da Alemanha. De 1961 a 1963, trabalhou como operário braçal naquele grande centro económico e financeiro alemão, europeu e mundial.

Em 1964, na J. Wolfgang Goethe Universitaet, iniciou o estudo de Sociologia, onde permaneceu até o Vordiplom (bachelerato) - 1968. Então, nesse mesmo ano, encetou uma formação em Antropologia.

Em 1971, regressou ao país e foi colocado como quadro do C.I.R (Centro de Instrução Revolucionária) nas zonas libertadas do Moxico. No princípio de 1973, volta à Alemanha, agora em Berlim Ocidental, para o tratamento de uma tuberculose e de outras sequelas de ferimentos adquiridos em combate em que participou na luta contra o colonialismo português. Interrompeu, em Setembro de 1975, a formação e a atividade docente em Berlim e veio para Luanda; integrado no Protocolo da Presidência da República Popular de Angola, trabalhou, por dois anos, como intérprete de alemão do Dr. Agostinho Neto;

A 10 de Dezembro de 1975, tornou-se um dos escritores-fundadores da União dos Escritores Angolanos (U.E.A.). De imediato, publicou-se em Luanda, o livro de poemas Angola, Angolê, Angolema.

Em 1979, veio a público N'Zoji, 1991, chegou a vez de Fiapos de Sonho, por fim em 1998, em Lisboa foi editado Na Leveza do Luar Crescente. Em 1985, divulga, através do U.E.A., as estórias curtas de, O Rio - Estórias do Regresso.

Em 2005, 2007, respetivamente em Lisboa e em Luanda, aparece o ensaio de filosofia política, A Sociedade Civil, Estado, Cidadão, Identidade em Angola. Numerosos poemas seus surgiram em diversas antologias, angolanas, portuguesas, brasileiras espanholas, italianas, francesas, alemãs, etc.

A sua dissertação doutural veio à luz, em versão original, em francês, em 2008 em Paris. Esta tese resultou de uma longa e complexa investigação, que demorou mais de 6 anos, principiada em Luanda e prosseguida em arquivos portugueses.

A tradução para o português foi publicada em Luanda, 2012, pela Editora Kilombe-Lombe, sob o título "ANGOLA­PORTUGAL, Representações de si e de outrem ou o jogo equívoco das identidades"

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