Preservar no presente o futuro dos núcleos das: Cidades e Vilas!

Envie este artigo por email

«Quem não pode Lembrar o passado não pode Sonhar o futuro e, portanto, Não pode julgar o presente» (Walter Benjamin).


Preservar no presente o futuro dos núcleos das: Cidades e Vilas!
Igreja da Muxima Fotografia: Paulino Damião

Desde que o mundo é mundo – ou melhor, desde que os homens inventaram o conceito de cidade – houve sempre uma preocupação de um acondicionamento baseado em infra-estruturas ou equipamentos essenciais à sua sobrevivência.
As cidades e vilas são, contudo, locais por excelência, de concentração de actividades, de acumulação de poderes, e, são, por via de consequência, também, o cenário onde as transformações de vida se evidenciam mais rápida e dramaticamente.
Ora, os poderes e conveniências de ordem política e económica, tanto quanto entendemos, ao longo dos tempos, usaram e abusaram sempre mais ou menos, de certas teorias, para a mobilização de projectos de intervenções no espaço urbano.
Quantas e quantas vezes, para recorrer a exemplos do passado, se evocaram o «progresso» ou o «modernismo» para justificar e viabilizar intervenções mais que discutíveis?!
Hoje, é ainda, mais frequente o termo «renovação» ou «requalificação» (outros re…) para disfarçar as abundantes falsas pretensões de embelezamento citadino.
E não foi em nome desse mesmo progresso ou modernidade que, no caso concreto da cidade de Luanda, foram demolidas, sem vantagens visíveis, edificações seculares de alto valor arquitectónico ímpar?
Hoje, como sempre, em torno do problema desenvolveram-se teorias, acumularam-se normas, sedimentaram-se academismos e, teceram-se demagogias.
A reabilitação e construção de certas infra-estruturas nas cidades e vilas angolanas, vêm agora sob o título em letra grande, de «requalificação», enriquecendo a galeria das grandes promessas – ou dos grandes mitos? – da tecnologia contemporânea!
A verdade é que os planos ou programas de renovação ou de requalificação são, hoje, as mais das vezes, pelo menos em Luanda, rotineiros instrumentos burocráticos servindo amiúde – não obstante as boas intenções de quem os projecta ou promove – de simples cobertura demagógica a operações meramente especulativas e disfarçadas. E, também, não raramente de rótulo ambicioso a superficiais obras de «estética urbana».
A requalificação urbana é, portanto, uma das tais grandes palavras ou conceito de que se vem, muito frequentemente, abusando e, um «slogan» demagógico cada vez mais vazio de sentido, mas, cada vez mais popularizado como promessa técnica aos diversos e distintos problemas que afectam a rede urbana angolana.

E porque não praticarmos a recuperação do Património das Cidades e Vilas?

Partindo-se, do princípio de que o aproveitamento para possíveis novas utilidades de edificações antigas cuja função caducou, hoje é uma constante em várias partes do Mundo. E mesmo cá, entre nós, já podemos ter alguns poucos exemplos.
Trata-se, em nosso ver, de uma integração à vida contemporânea do património, longe dos objectivos específicos que estiveram à volta da sua construção, na sua época. Aliás, sob este ponto de vista, é aceitável, pelos menos em princípio, que cada época realiza e experimenta novas práticas e tendências, segundo o que lhe parece melhor ou conveniente.
Mas, a recuperação e a preservação do Património Arquitectónico e Histórico são assuntos hoje, também muito falados, muito na ordem do dia noutras paragens e, portanto, à volta dos quais se tece, também alguma demagogia…
A recuperação, renovação, ou se quisermos, requalificação dos centros históricos devia ser encarada pelas nossas autoridades, como um projecto de futuro, sobretudo no campo do turismo e, concorrer, de facto, para a diversificação da economia angolana.
Demarcar todos os espaços ou consentir programas ou iniciativas de carácter mais efémero e adventício, como «Shopping Centers» ou «Centros Comerciais» é uma opção em que o equívoco se tem verificado, por se pensar que estes equipamentos, por si só, são suficientes para atrair, ao nosso país, turistas ou visitantes!...
A recuperação das várias edificações de valor histórico e arquitectónico reafirmaria o significado real de algumas das nossas cidades ou vilas (Luanda, Dondo, Katumbela, Namibe, Benguela, Ambriz, Masangano, Kambambe, Mbanza Kongo, etc, nos podem servir de exemplos) e de acentuar a sua vocação de centros urbanos já com uma certa antiguidade, dotando-os hoje, de uma imagem forte e atraente, proporcionando-lhes melhores condições e melhorando o seu aproveitamento como elementos de atracção turística.
Queremos dizer que, a recuperação desse património – nomeadamente o arquitectónico – deve ser abordada na mesma perspectiva ou com a mesma vontade que outras de requalificação das cidades cuja tendência, ainda é a de se suprimir os vestígios do passado.
Pois, como íamos dizendo, o uso de «edifícios velhos» para actividades da vida contemporânea daria valores inestimáveis às nossas cidades e vilas histórica.
Esses espaços e edificações – dispersos, desaproveitados, ocultos e, até mesmo, esquecidos – poderiam, assim manter naturalmente, os seus significados particulares; pois, seriam espaços mais frequentemente visitados e melhor interpretados como marcos do passado.
A nossa ideia assenta sob o ponto de vista de que a integração do património nos programas de requalificação das cidades e vilas teria, implicitamente, a aceitação da cidade como local onde se acumulam e coexistem, respeitavelmente testemunhos edificados de muitas épocas históricas – dos mais espectaculares aos mais discretos ou modestos – ou seja, um cenário urbano genuíno de contextos diferentes e específicos da nossa história com outras variantes mais modernas: afinal, nada impede que o «velho» conviva com o «novo»!
Em conclusão, o Património Histórico e Arquitectónico pode contribuir, efectivamente, para o enriquecimento do dia-a-dia dos seus habitantes e também constituir um atractivo – um motivo de interesse e de afecto para os seus habitantes e visitantes.

Comentários

Newsletter


Colabore com o Jornal Cultura - Envie-nos os artigos da sua autoria.

Colaboradores Ver todos