Reconciliação e memória para a unidade nacional

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"É uma necessidade para a reconciliação, unidade e coesão nacionais". É assim que a ministra da Cultura, Carolina Cerqueira, justifica a atribuição do prémio Nacional de Cultura e Artes, na disciplina de Literatura, a Viriato da Cruz, a título póstumo, numa cerimónia marcada pela reconciliação com a memória.



"É uma necessidade para a reconciliação, unidade e coesão nacionais". É assim que a ministra da Cultura, Carolina Cerqueira, justifica a atribuição do prémio Nacional de Cultura e Artes, na disciplina de Literatura, a Viriato da Cruz, a título póstumo, numa cerimónia marcada pela reconciliação com a memória. O júri justifica a decisão por considerar que o poeta, falecido em Pequim, a 13 de Junho de 1973, é um "digno representante da cultura nacional, que exalta, com profundidade, a identidade e os valores da angolanidade".
Além de reconhecer o valor literário de Viriato da Cruz, o presidente do júri, Vatomene Kukanda, que anunciou os galardoados na última quarta-feira, 31, revelou igualmente a Menção Honrosa, também a título póstumo, ao professor e historiador Almerindo Jaka Jamba, deputado e dirigente histórico da UNITA, falecido em Abril deste ano, distinguindo-o pelos "feitos a nível da formação do novo cidadão angolano, agregando ao conhecimento o sentido de alteridade, o respeito e a valorização dos angolanos e angolanas, enquanto base do desenvolvimento humano e sustentável."
Carolina Cerqueira fez questão de frisar que a escolha de Almerindo Jaka Jamba, que em vida foi membro da Academia Angolana das Letras, político, escritor, diplomata e pedagogo, simboliza o exemplo unificador da Cultura, que rompe as fronteiras das ideias para se concentrar na unidade de valores que enobrecem a Nação Angolana, no seu todo.
Em cinema e audiovisuais foi distinguido, a título póstumo, o antigo realizador da TPA Misael Filipe de Almeida, um profissional que se destacou no género documentário pelo conjunto da sua obra, em que se revelam as "gravuras e pinturas de Tchitudu Hulo", Efico (ritual da puberdade da mulher mumuila), moluscos do Mussulo, entre outros trabalhos.
Na investigação em ciências sociais e humanas, o júri atribuiu o prémio ao historiador Fidel Raul Carmo Reis, pela obra intitulada "Era uma vez. O campo político angolano (1950-1965)", que se contextualiza a nível regional e internacional, além de concorrer para situar o processo de emergência, formação e dinâmica do universo político angolano. Enquanto produto da tese de doutoramento em História Moderna e Contemporânea, apresenta, "características de uma obra inovadora, devido ao acréscimo de conteúdos temáticos sobre a reconfiguração do espaço nacionalista angolano, pontuado por duas organizações político-partidárias: o MPLA - UPA/FNLA/GRAE". Na sua essência, a obra procura compreender, no que concerne ao estudo das relações raciais na sociedade angolana, as razões que concorrem para que determinadas classificações assentes na noção de raça tenham sido um recurso fundamental nas lutas políticas, nomeadamente, em processos de inclusão e exclusão.
No teatro foi distinguido o grupo Ngwizane txikane pela obra "Cassinda não volta atrás", uma das peças mais conhecidas do reportório do grupo, que narra a história de um pai que tem uma linda filha de nome Tchifole, muito cobiçada na aldeia de Lunge. É que, segundo o júri, a obra, além da sua qualidade técnica e artística, retrata a forma original, os valores culturais e morais da vida social do município do Bailundo (Huambo). Entretanto, o director artístico do grupo, Agostinho Kassoma, tem reiterado que "a obra é produto da dinâmica do teatro em Luanda, em que as estórias eram apenas baseadas na realidade local, daí ter surgido "a necessidade de apostar em obras de intervenção social e de promoção dos valores e costumes culturais do povo angolano".
A Sakaneno João de Deus coube o prémio na categoria de dança, valorizando assim a trajectória de um professor que começou a ensinar dança aos 10 anos, na aldeia em que nasceu, no Uíge. Em 1978, trocou a calma dessa mesma aldeia pela agitação de Luanda. De acordo com o júri, Sakaneno João de Deus, que já foi director da Academia de Dança em 1989, 1990, 2000, 2001, 2002 e 2003, tem levado com alma, dedicação, humildade, sacrifício e competência o processo de profissionalização da arte da dança angolana. Sakaneno João de Deus é uma referência incontornável quando se fala de dança em Angola. Grande parte dos bailarinos, hoje conhecidos, já passou pelas suas mãos.
Considerado "o mentor e mestre do grande movimento da classe dos gravuristas", António Feliciano “Kidá” conquistou o galardão nacional na modalidade de artes visuais e plásticas. Kidá, que nasceu no Bengo em 1961 e iniciou a sua formação e a carreira artística em 1980, foi o pilar da exposição colectiva do Fenacult 2014 que, segundo o júri, tem inspirado a criatividade da juventude angolana nas artes de gravar e imprimir.
Na modalidade de festividades culturais populares, o prémio foi atribuído aos Bakamas de Cabinda, uma instituição secular, apontada como um dos grandes baluartes da defesa e preservação da afrocacia e angolanidade do povo de Cabinda. "Os Bakamas têm conseguido ao longo dos anos manter o seu carácter originário, desde as danças, os instrumentos e indumentarias, bem como as canções folclóricas, mostrando às novas gerações a necessidade de preservação da cultura", refere o júri.
Já na modalidade de Jornalismo Cultural, o prémio foi atribuído ao programa televisivo da Huíla "Tudo e Mais", que ao longo de 10 anos de transmissão insere e destaca elementos tradicionais e contemporâneos da cultura huilana. "O programa eleva a espiritualidade do povo da Huíla em todas as suas matrizes, cuja informação se caracteriza como sendo de interesse público", refere o júri.
O prémio na categoria de música foi atribuído ao músico e compositor Waldemar dos Santos Alonso de Almeida Bastos, cujo nome e obras individuais e colectivas diversificadas editadas têm vindo a destacar-se no país e na diáspora, tendo as suas composições e interpretações incidido sobre a música revolucionária, popular urbana e clássica de dimensão nacional e internacional, tendo-lhe sido outorgado um prémio internacional em segundo lugar no International Song Writing Competition. E a reacção do artista não se fez esperar. Numa rede social, Waldemar Bastos, que se encontra nos EUA em espectáculos, revelou a sua gratidão pelo prémio, agradecendo a todos. "Com amor e gratidão recebo esta distinção que é de todos angolanos e de todas as pessoas amantes da música e da cultura dos povos", escreveu, revelando que em breve estará em Luanda, Benguela e Lubango a cantar o seu tema "MunguEno", bastante apreciado no último espectáculo que deu nos EUA.

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