RELENDO A HISTÓRIA DO KONGO

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O MBanzaKongo significa literalmente, cidade do Kongo.

Como já amplamente noticiado e divulgado, desde o passado dia 8 de Julho Mbanz’eKongo, a capital do antigo Reino do Kongo, passou a figurar da lista do património mundial da UNESCO.  Se tal se apresenta como um desafio quanto à exploração económica das oportunidades decorrentes da nova situação daquela cidade e impõe aosespecialistas angolanos em antropologia e história a contínua e aprofundada investigação destas matérias quanto ao Kongo, a nós suscita a possibilidade e necessidade de contar a história  a partir da nossa própria perspectiva, já que entendemos que muitas das fontes escritas e que têm servido de base à redacção dos livros de história estão eivadas de erros que importa corrigir, como de resto já tivemos a oportunidade de defender por várias vezes no programa Antologia, da RNA.

Em nosso entender, impõe-se cada vez mais o recursos às ciências auxiliares da história e particularmente à linguística e ao estudo da tradição oral estas que, de resto, tiveram uma importância decisiva no processo de classificação a que vimos aludindo já que, através das mesmas, foi possível “a delimitação do Centro Histórico de Mbanza Kongo, através das conhecidas 12 fontes de água que circundam a cidade e que estão ligadas ao momento da fundação do Reino do Kongo,” reino este que foi constiudo por”1 nove províncias e “três regiões (Ngoyo, Kakongo e Loango),”2 e cuja influência se estendia também aos estados limítrofes, do Ndongo, Matamba, Kassanje e Kissama.
MBanzaKongo significa literalmente, cidade do Kongo, pelo que na língua se pronuncia como Mbanz’eKongo, ou Mbanza a Kongo, mesmo que no português se veja grafado simplesmente como Mbanza Kongo, vendo-se eliminado o “a”, correspondente no português à contracção da preposição “de” com o artigo definido “o”.
Quanto à pronúncia Mbamz’eKongo, presente no kisolongo e outras variantes do kikongo que se estendem do litoral à linha imaginária que vai do Bembe a Kindeji, localidade esta conhecida também como Bessa Monteiro e que foi um dos mais temíveis bastiões da luta de libertação nacional e em que ressoou o nome do lendário Pedro Afamado, o som “e”, presente na designação Mbanz’eKongo, resulta da contracção do “a” final de Mbanza com a preposição “a”, correspondente no português à expressão “do”.

NTINU, NTOTELA, MANI?
A cidade de Mbanz’eKongo, ou Mbanza a Kongo, de acordo com a variante da língua que esteja a ser usada, teve administrativamente no período colonial o nome São Salvador do Congo, o que alude quer ao Reino do Kongo, quer, mais tarde, ao Congo Português, um dos três Congos em que, pelos colonizadores, foi retalhado parte do antigo Reino do Congo, dando origem ao Congo Leopoldeville, sob colonização belga, hoje Congo Democrático, com capital em Leopoldeville hoje Kinshasa, Congo Brazaville, sob colonização francesa e Congo Português, sob ocupação portuguesa, com capital em Maquela do Zombo e depois em Cabinda.
Importa dizer que o Distrito do Congo existiu desde 1887 em por força do parágrafo único do artigo 2º. do Decreto Orgânico do Distrito do Congo, de 31 de Maio de 1887, sendo que pela portaria nº. 867, de 10 de Julho de 1912 foram aprovados os limites provisórios do mesmo. Por outro lado, pelo Decreto nº. 3 365, de 15 de Setembro de 1917, foi transferida a sede do Governo do Distrito do Congo, de Cabinda para Maquela do Zombo e pela Portaria nº 150, de 21 de Junho de 1918, a província de Angola passa a dividir-se em dez distritos administrativos, continuando a sede do distrito do Congo em Maquela do Zombo. “Por Portaria nº. 50, de 28 de Fevereiro de 1919, os territórios que formavam o distrito do Congo foram desmembrados e passaram a constituir os distritos do Congo e Cabinda, ficando o primeiro com a região continental ao Sul do Zaire e o segundo com o enclave de Cabinda e as ilhas do Zaire. No entanto os serviços de fiscalização e polícia marítima e em geral os serviços de marinha e bem assim os problemas que decorrem da situação internacional especial do extinto distrito do Congo, ficam a cargo do Governador do distrito de Cabinda.” 3
De acordo com Adriano Melo, no seu artigo DESENTERRAR O TEMPO DOS REIS PARA O MUNDO, publicado no jornal Cultura, referente ao período de 18 a 31 de Julho de 2017, o reino do Congo foi fundado por Ntinu Wene no século XIII, sendo a região governada por um líder chamado Rei pelos Europeus e designado como Manicongo. Ora, é justamente esta informação que nos suscita este artigo em torno do Kongo, pois tal faz-nos recuar à questão da forma correcta de como designar os titulares dos poderes soberanos no contexto Kongo e que já havíamos levantado já em 1985 quando publicamos o livro “Sobre os Kikongos de Angola”, livro então tido por Henrique Abranches como “o primeiro ou um dos primeiros” (…) “ a tentar vencer a etnografia colonial, a informar de dentro para fora(…)”. 4
Quais são os títulos correctos dos titulares máximos do poder no contexto do Reino do Kongo? NTINU, NTOTELA, MANI? QUE OUTROS TÍTULOS HÁ OU TERIA HAVIDO?

MWA NE KONGO
Muitos cronistas antigos e mesmo modernos têm chamado Mani aos governantes das “províncias” do antigo reino do Kongo; porém, este termo nunca foi por nós encontrado, o que, pela importância de tais personalidades e por conseguinte do título que ostentariam, não tem justificação razoável – encontrámos apenas a partícula Ne e os termos Ntotela, Ntinu e Mfumu. Será a partícula Ne o resultado da evolução de um termo mais antigo e mais completo? E o termo Ntotela, que nos aparece com o significado de rei, não se terá constituído por derivação a partir do verbo Tota (Unir), significando inicialmente unidade ou unificador do Kongo? Acreditamos que assim tenha sido, e que o uso ao longo dos séculos veio dar um sentido novo ao termo, consagrando-o então como título real. E os termos Mfumu e Ntinu que ainda hoje subsistem para designar Chefe, nos seus diversos níveis, e Rei? Parecem-nos na verdade serem estes os nominativos correctos para designar os governantes de então.
Como hipótese, entendemos que o termo Mani, Mane, Muani e Muane, tidos como sinónimos entre si e que alguns cronistas procuraram generalizar aos demais reinos que existiram no actual território de Angola, resultam da cristalização de um erro decorrente do pouco conhecimento da língua Kikongo por parte de tais cronistas. Em Kikongo, a expressão MwaNe, significa no espaço físico e humano de (alguém), do Chefe da linhagem que possui como nome, o nome próprio daquele. Ora, quando se terá perguntado por alguém, por uma situação ou por um lugar a um natural falante de Kikongo, este terá respondido: MwaNeKongo, MwaneSoyo, e por aí adiante o que, dito em português significa “ no NeKongo, no NeSoyo …”, referindo-se ao espaço físico e humano de cada um desses titulares, daquele ntinu e deste nfumu. O cronista terá registado MuaniKongo, MuaniSoyo … Os processos linguísticos poderão explicar a transformação da palavra Muani em Mani com que na história se registou a designação dos titulares das então “Províncias” do Reino do Kongo, designação que alguns cronistas pretenderam estender aos demais reinos então existentes no actual território de Angola.
Finalmente, importa dizer que a expressão Ne const itui um distintivo de honorabilidade, notoriedade ou respeitabilidade atribuído a alguém e que antecede o nome deste, desde um mais-velho a um titular de cargo, sendo que na actualidade coexiste com a expressão Ndom, tendo o mesmo significado e equivalência.
Na actualidade verifica-se a coexistência ou substituição da designação Ne por Ndom, o que será uma corruptela de Dom, que parece-nos ser explicada a partir da obra “Angola, Cinco Séculos de Cristianismo”, de D. Manuel Nunes Gabriel que nos diz ter sido ao abrigo da Carta de Armas que o Congo passou a ter armas próprias, as suas províncias passaram a chamar-se principados, ducados, condados, etc., e os seus chefes príncipes, duques e o rei concedia o hábito de Cristo(...) aos vassalos que desejava premiar e o título Dom torna-se tão frequente no Congo. Escreve o padre Cavazzi que, quando os pais levassem os filhos ao baptismo, embora fossem miseráveis e mal tivessem um farrapo para cobrir a criança, ao perguntarem-lhes o nome, respondiam : “Dom Fulano, Dona Sicrana”.

 António Fonseca
(Jornalista na RNA)

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