Repensar África e o Mundo

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A expressão latina, proferida pelo general gaulês Breno quando saqueou Roma no ano 390 a.C., permite, ainda hoje, aplicar-se também a todos os povos conquistados e explorados, circunstancialmente julgados inferiores, por outros que usaram o poder e o mando para subjugar umas vezes o próximo, outras o distante.

Obra de cerâmica do artista plástico António Ole

Na época não havia ainda o substrato moral que hoje representaríamos por um conceito alegadamente judaico-cristão – “não faças ao outro o que não farias a ti próprio” – e menos ainda a consciência tardia de um reconhecimento agora banal de que o notável autodidacta, etnógrafo, linguista e historiador angolano, Óscar Ribas, dava nota na introdução ao seu livro “Temas da vida angolana e suas incidências” (ed.Caxinde, Luanda, 2002):
“Confrontando os diversos níveis sociais da Humanidade, pacientemente escutando as vozes do passado, ardorosamente explorando suas fontes históricas, uma ilação se nos levanta peremptória: não há raças superiores nem raças inferiores, mas sim raças adiantadas e raças atrasadas. E só por esse desnível se distanciam.”
Como se depreende, Óscar Ribas não circunscrevia a sua reflexão (obviamente centrada em Angola) a uma questão racial, sabendo que os conflitos sociais da Humanidade podiam eclodir, dentro da mesma “raça”, por meras razões de poder e mando. Lembremo-nos das guerras de conquista entre povos da mesma cor, e com o mesmo grau de desenvolvimento, que ocorreram e ainda ocorrem em todo o mundo. Mas também, e não raro, por simples diferenças de representação étnica (tradição e língua), em que Angola é particularmente significativa das diferença no modusvivendientre grupos bantus e mesmo entre não-bantus, embora, quanto a grupos como o koisan, a sua aparência física (corpo e cor) e a língua (cliques) fossem tomadas pelas “raças superiores” do mesmo país como características de “não-gente”. Por esta diferença se tornaram escravos dos cuanhamas.
Este julgamento, onde ainda não há as balizas éticas e científicas que hoje enformam o Humanismo, só há muito pouco tempo entendido como um índice de Civilização, “justificou”, durante séculos, o domínio dos povos mais desenvolvidos sobre os povos mais atrasados, isto é, do senhor sobre o escravo, do vencedor sobre o vencido. Foi assim na Antiguidade, antes de Cristo e depois de Cristo, na Atenas de Péricles e na Roma de Nero, apenas se diferenciando segundo a moldura do poder dominante, assente na riqueza e na força de alguns grupos sociais.
O tempora! o mores! – dizia o filósofo romano Cícero (16-43 a.C.) , falando dos tempos seus conhecidos . Noutro tempo adiante, o filósofo Santo Agostinho (354-430), nascido no Norte de África e filho de pai pagão e mãe cristã, corroborava realisticamente: “O tempo é o espaço onde decorrem as coisas”. Mas já distinguindo que se a razão era moldada pelas práticas rotineiras do quotidiano, era a partir da fé que o crente moldava os julgamentos doutrinários ou normativos visando uma moral absoluta, difícil de atingir: não fazer aos outros o que não faria a si próprio.
Que esta Moral era torneada conforme as circunstâncias, temos até o exemplo dos povos que, em nome de Deus, escravizam o seu semelhante para, alegadamente, o “educar”, “civilizar” ou “converter” e assim lhe “salvar a alma”. Cometeram este “pecado” missionários impolutos, como o consagrado Padre António Vieira, que no Brasil pugnou pela libertação dos índios da escravidão imposta pelos senhores brancos, mas tolerou a escravatura dos negros caçados em África, designadamente nas possessões portuguesas, por serem imprescindíveis na exploração de minas e fazendas. Donde, ontem como hoje, o trabalho forçado e mal pago (quando ainda é pago) é sempre uma espécie de escravidão, seja imposto por um patrão, chefe ou Estado, nacional ou estrangeiro.
E para que não se julgue este arrazoado como uma contracorrente ou tentativa de desculpar os erros e os vícios dos povos brancos colonialistas, que não se ressarciam com confissões de mea culpa, sinceras ou hipócritas, trazemos à liça uma reflexão do reputado historiador e filósofo camaronêsAchilleMbembe, recolhida de uma entrevista publicada na revista inglesa “ThisisAfrica” e transcrita no “África 21” de Dezembro/Janeiro de 2017:
“Tal como a autoflagelação, que pretende compensar, a auto-exaltação não tem o menor interesse. África não é o reino da virtude nem o reino do vício. O que importa realmente é não nos enganarmos a nós próprios e não perder de vista as nossas potencialidades. O nosso futuro está nas nossas mãos, podemos mudá-lo e orientá-lo no sentido que desejamos. Para isto é preciso juntar as nossas inteligências, dar forma a maneiras diferentes de nos relacionarmos e cuidar de nós, da humanidade e de todos os seres vivos.”
E por agora concluiremos nós: respeitar e cuidar de todos, este será o princípio do caminho da verdadeira e pura globalização.Vaevictis!

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