Sara Maldoror e a génese do cinema angolano anti-colonial

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Os filmes Monangambé (1971), e Sambizanga (1972), de Sarah Maldoror, cujos roteiros se escoam das obras de Luandino Vieira, marcaram a génese do cinema anticolonial de grande envergadura, e constituíram uma forma de denúncia e de resistência pela imagem, legitimamente inscrita na História da Libertação de Angola.

Fotografia: Sara Maldoror

"Naquela altura, foi muito importante que as pessoas do mundo inteiro tivessem ficado a saber que havia uma resistência e uma repressão em Angola.

Em Monangambé eu mostro a tortura. O filme passou no mundo inteiro. Teve muito sucesso", diz-me Sara Maldoror, sentada no sofá grade da sala da casa da filha, Annouchka Pinto de Andrade, em Paris, onde fui recebido, com um chá de tília e uma grande empatia pelo rumor quase invisível da Cultura que se transforma em sinfonia universal no palco da História.

Domingos Oliveira e Elisa de Andrade foram os atores principais deste filme rodado na Argélia. Elisa era muito bela. Foi muito contestada na Suécia, quando alguém disse a Sara: "o seu filme tem um defeito. A actriz é bela demais, para um personagem pobre que vive nos musseques de Luanda na era colonial...", explica a realizadora de Monangambé.

Eu respondi-lhes, vocês sabem, é o meu primeiro filme, deverá haver com certeza muitos defeitos. Qual é, segundo a vossa opinião, o maior defeito?", diz-me Sara, naquele seu tom de voz condescendente e firme, voz de mulher-semente, mulher-filósofa do Imaginário. "O facto é que Elisa sabia desempenhar o papel, tinha muita presença.

O actor principal tem de conhecer a arte de representar. Eu não fiz um documentário, fiz uma ficção. Depois, não houve um único actor profissional neste filme. Selecionámos pessoas ao acaso", explica Sara.

"Sambizanga foi rodado no Congo Brazzaville. À época, os angolanos estavam no Congo", vai contando a minha interlocutora, deixando escorrer a feliz nostalgia de ter ganho, logo no ano de estreia, a Palma de Ouro do Festival de Cinema de Cartago.

E outras imagens da sua lenda pessoal ela deixa passar para o meu caderno de apontamentos, como as razões que a levaram a Angola, por duas vezes: a primeira, por altura do enterro daquele que foi o seu companheiro d toda uma vida, o nacionalista angolano Mário Pinto de Andrade e mais tarde, para proceder a entrega de documentos históricos ao MPLA.

A grande paixão

Foi em Paris, na década de sessenta, que Sara Maldoror (Sarah Ducados, nascida em 1939, de mãe francesa e de pai natural de Guadalupe, Antilhas Francesas e que mais tarde adotaria o apelido a partir da obra "Os Cantos de Maldoror" de Lautréamont) reuniu para sempre o seu destino às torrentes sempiternas de África dos seus ancestrais, através da amizade profunda e muito íntima que nasceu do encontro vital com Mário Pinto de Andrade.

Tudo aconteceu na mais famosa editora Africana na Europa, a Présence Africaine, do imortal Alioune Diop, do Senegal, cuja obra é hoje mantida de pé, com muita tenacidade, pela viúva Yandé Christiane Diop. "Havia reuniões, Senghor e outros estavam sempre presentes, era no começo ainda, e eu ia também, nos anos 60.

O Mário estava em Paris, era estudante e trabalhava na Présence Africaine", recorda Sara, que acrescenta, "o que mais me impressionou em Mário Pinto de Andrade foi a sua honestidade intelectual e o seu amor à poesia." Do relacionamento com o poeta angolano nasceram duas filhas, a Henda e a Annouchka, em cuja casa eu fiquei por mais de uma hora, repetindo a deliciosa infusão de tília e uns biscoitos secos.

Mas dessa relação muito íntima nasceu também um património cultural tangível que hoje constitui um legado histórico para as novas gerações.

O futuro de uma artista

Sara Maldoror não esconde a sua grande emoção por estar histórica e culturalmente ligada Angola, à luta do seu povo: "guardo quadros de Ndunduma, o Costa Andrade, na minha casa. São quadros pintados em Marrocos.Também tenho alguns do Viteix..."

O seu mais recente projeto fílmico é um documentário sobre pintura, que pretende reviver um dos primeiros mercados de quadros, na ilha de Reunião, e que fez descobrir os grandes nomes, ainda não reconhecidos à época, tais quais Matisse, Renoir, etc.

E também gostaria de deixar no seu currículo um grande filme sobre um coronel de Guadalupe que dirigiu o exército. Sara me conta: "Naquela altura, os soldados eram analfabetos. E esse coronel dizia, Um exército cujos soldados não sabem ler nem escrever é um exército derrotado. Não sabe lutar. Então, ele impõe a alfabetização a todos os soldados.

Todos deviam saber ler e escrever." "Era um coronel violinista", acrescenta Annouchka, que ia a passar na sala e ouviu o nosso diálogo. "Era um mestiço chamado Delgrès", finaliza a mãe Sara, que faz, através de mim, um apelo ao governo angolano: "Gostaria muito que Angola pudesse financiar este filme.

Os franceses deram-nos dinheiro para realizar Sambizanga, porque Angola não era uma colónia francesa. Hoje, quando peço dinheiro para realizar um filme sobre um nacionalista guadalupenho, Delgrès, que se bateu contra os franceses, não me dão nem um centavo. Apelo, por isso, aos angolanos que me concedam alguns recursos..."

Falar com Sara é falar com a Vida.

"Terei sempre vinte anos", diz-me essa grande realizadora que tem no seu currículo 25 documentários e 5 filmes espraiados por 39 anos de carreira. Essa "mulher de todos os combates", como a designa Abdourahman Waberi: "a sua cabeleira leonina ­ um sinal distintivo que ela partilha com a sua amiga Ângela Davis e com o combativo Wole Soyinka ­ e o seu percurso impõem respeito.

Ao mesmo tempo guadelupenha, francesa, africana, antilhana e angolana, Sara Maldoror faz parte desses espíritos rebeldes e criadores que jamais encontraram em França o vento necessário para a grandeza do seu potencial artístico e politico." Daí, talvez, o tardio reconhecimento, pela mão de Frédéric Mitterrand, ministro da Cultura e da comunicação que lhe conferiu as insígnias de Cavaleiro da Ordem Nacional de Mérito.

E Waberi explica que no seu discurso "Mitterrand apresentou-se pedagógico, caloroso e inspirado como de hábito: mas o mais espantoso foi a resposta da realizadora. Sara segurou o microfone, não para responder "EU" como se faz geralmente neste tipo de cerimónias de entrega de Óscares e prémios Grammy, mas para dizer "NÓS".

Um "NÓS" concludente e coletivo, solidário e dinâmico. E isso foi uma grande lição de humanismo nestes tempos marcados pelo reinado do individualismo e pelas derivações do egoísmo sem fronteiras. Honra e respeito, querida Sara Maldoror!"

"Gostaria muito que Angola pudesse financiar este filme. Os franceses deram-nos dinheiro para realizar Sambizanga, porque Angola não era uma colónia francesa. Hoje, quando peço dinheiro para realizar um filme sobre um nacionalista guadalupenho, Delgrès, que se bateu contra os franceses, não me dão nem um centavo. Apelo, por isso, aos angolanos que me concedam alguns recursos..."



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