Sea Islands: Um arquipélago “angolano”

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É a conclusão a que se chega após a leitura da última edição da preciosa obra “Africanisms in the Gullah Dialect”, do grande linguista negro, originário da antiga esclavagista Carolina do Norte, Lorenzo Dow Turner (1895-1972).

Mãe Menininha (ao centro, uma das informantes de Turner) e o seu grupo de Candomblé em salvador, Bahia, 1940-41_1 Fotografia: ANA COSTIA COMMUNITY MUSEUM ARCHIVES

A nossa submersão neste livro, fundador dos estudos sobre o famoso crioulo do sudoeste dos Estados Unidos de América, fez-se sob modalidades absolutamente particulares, sobretudo depois da nossa estadia nesta região, tendo beneficiado, meses atrás, de uma bolsa do International  Visitor Leader ship Program, do Departamento de Estado.

Esta reedição selada menos o prefácio e o preliminar contemporâneos, em 321páginas, empreendida sob a iniciativa da Universidade da gémea Carolina do Sul e realizada na capital deste Estado, Columbia, necessitou, naturalmente, de uma nova introdução.

Esta foi didaticamente redigida por Katherine Wyly Mille e Michael B. Montgomery, ambos especialistas da sociolinguística e do pidgin sea islandês.

A continuação da obra, cuja primeira edição foi publicada em Chicago, em1949, articula-se numa dezena de capítulos nos quais o autor, primeiro afro-americano, verdadeiro linguista profissional, aborda a evolução da instalação dos cativos africanos na Carolina do Sul e na Geórgia, os esforços de adaptação desses novos habitantes à língua inglesa, a influência dos falares de África ocidental e central no gullah, e, nomeadamente, os falares do Congo/Angola, quer dizer do kikongo, do kimbundu e do ovimbundu.

O «pioneiro» analisa, aí, igualmente, a perpetuação africana nos contos, cantos, nas rezas e récitas recolhidos no arquipélago, evocando a submissão esclavagista.

Turner, que foi o primeiro negro membro da Sociedade Americana de Linguística, apresenta, em seguida, uma análise de alto nível técnico e quase exaustiva do falar seaislandês, o único reconhecido na América do Norte, nas suas particularidades fonéticas, as suas modificações diacríticas, o seu sistema sintáxico e a sua dinâmica morfológica.

Dow Turner anexou, na última rubrica da sua obra, entre outros documentos, um mapa da área cultural gullah.

O originário do Low country confirma que a maioria dos cativos instalados nesta região vinha diretamente da contracosta atlântica, e nomeadamente, do atual território angolano.

Autêntico erudito e consciente da importância dos “Negro - Portugueses of Angola” no povoamento negro do arquipélago, L.D.T estudara na célebre School of Oriental and African Studies da Universidade de Londres, entre outras línguas e culturas africanas, as dos Ambundu.

Broken English

No seu exame das escolhas antroponímicas dos Gullah, o linguista citara as explicações de Wilfred D. Hambly sobre a imposição de nomes nos Planaltos centrais angolanos, na sua obra, tornada um clássico, «The Ovimbundu of Angola»,publicada em1934.

Abordando este sistema de atribuição antroponímica mas, igualmente, o conjunto lexical geeche, no quadro da sua larga análise técnica deste crioulo, Dow Turner produz, aí, um verdadeiro dicionário multilingue, numa culta e convincente metodologia comparativa implicando portanto o «broken English» e os idiomas da contracosta atlântica.

A metade do livro é, praticamente, consagrada a este exercício!

Este, dará, ao nível das línguas bantu, centenas de continuums lexicais gullah a exemplos de:

a’wulu, do kimbundu avulu,muito
malafee, do kikongo malavu, vinho de palma
dati, do umbundu ndati, como?

Explicando a dificuldade dos sulistas negros em pronunciar algumas palavras inglesas, o investigador pensa que «this is probably related to the fact that languages like kikongo, umbundu…».

Rigoroso, o perito norte carolinense, um dos contribuidores para um melhor conhecimento do US Non Standard English verificou os seus dados de terreno graças a trabalhos anteriores como as gramáticas e dicionários sobre o Kongo Language, a língua bunda, mbundu, umbundu, benguela ou angolense, e o respeitável ensaio do brasileiro Edison Carneiro « Negros Bantu », publicado no Rio de Janeiro, em1937.

Esses elementos linguísticos e antropológicos de carácter, visivelmente, bantu, vindos de África central, quer dizer, para o essencial, do Reino do Kongo e da Colónia de Angola, foram também apreciados por Elaine J. Engwall, que começou a falar o kikongo, desde a sua tenra infância no Congo da margem esquerda e Edwards Coles, filho de um fazendeiro norte- americano, instalado na região de Ngalangi, Samuel B. Coles.

Edwards nasceu aí e falou, muito cedo, o umbundu, a língua dos escravos benguelas.

O reexame do material lexical recolhido por Lorenzo D. Turner autorizara Fréderic  Cassidy a afirmar:  «Congo – Angola, elements strongest in the word-lists ».

Autêntico trabalho de investimento científico sobre o único crioulo atestado na América setentrional, o “Africanisms in the Gullah Dialect” suscitou, num « open wide door »dezenas de trabalhos e uma franca renascença do idioma e da cultura afro-inglesa do arquipélago.

Com efeito, numerosas iniciativas, de vária ordem, foram, desde então, tomadas nesta dinâmica: salvaguarda dos arquivos do proto linguista afroamericano, organização de encontros de carácter nacional e internacional, produção de festivais, concertos musicais e peças de teatro, publicação de suportes tais como glossários e manuais de gastronomia, edição em gullah de diversos suportes impressos e audiovisuais (bíblia e cantos gospel), realização de programas de rádio e televisão, etc.

Dois exemplos desta regeneração, que avivou, igualmente, por efeitos colaterais, o singular African  American Vernacular English (AAVE), são a produção do Gullah Festival, que é organizado no Memorial Day, quer dizer no dia 26 de Maio, de cada ano, e isto desde 1986, na marginal de Beaufort e a comemoração, na ilha de St. Helene, dos «Heritages Days», pelo Penn Center, venerável instituição museológica que chegamos a visitar.

Em suma, a obra de Lorenzo Dow Turner bem estabeleceu uma ponte transcultural entre os países dos Bantu e as regiões costeiras da Carolina do Sul e da Geórgia.

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