Sem Bangão o Semba perdeu a banga

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Bernardo Correia Jorge guardou, dos tempos da infância, a alcunha de Bangão, que perenizou nas lides do semba. Tinha muita banga no palco: fato de alto corte e chapéu da mesma cor do tecido. Ficará na história da Música Angolana por essa marca de bem vestir. Mas o seu reino foi muito além da banga no vestir. O seu reino tocou a Arte de bem cantar o semba. O semba vernáculo. Aquele que vem da alma. Que nasce do chão da terra, de vivê-la e de comer este barro cultural com sabor a África. Neste domínio, Bangão foi mestre de bangar o semba. De afirmar a perenidade deste estilo saído do musseque, de onde ele se (in)surgiu a desmentir a falácia radialista que já nos vinha doendo desde a década de 80 de que o semba era música “dos anos 60”. Agora que desceu a cantar para os antepassados, dói-nos outra dor: o semba perdeu a banga.

Sem Bangão o Semba perdeu a banga
Bangão

Pomos a tocar no computador um álbum que nos veio parar às mãos no dia 21 de Maio, quase que por um acaso do destino. É uma edição da ENDIPU, sem data, intitulada Sembele. Na capa, vemos um Bangão muito jovem. No interior, uma palavra sobre o cantor: “O músico Bernardo Jorge M. Correia, vulgo Bangão, começou a cantar em 1977 com o agrupamento Tradição, que era composto por Kintino, o actual viola-ritmo dos Jovens do Prenda, Zé Abílio, que foi viola-ritmo dos Gingas e Pedrito, que foi baterista do Musangola. Passou pelo África Nzoji e depois foi consagrar-se no agrupamento Os Gingas, onde militou até à véspera do ataque ao Dondo, em 19 de Maio de 1989, onde morreram dois colegas: Toni, solista, e Quito, viola-ritmo. Daí em diante, colaborou com o 1 de Janeiro, o 10 de Julho e o Zimbo, numa carreira a solo, vindo a tocar no mercado a sua primeira e única cassete, em 28 de Agosto de 1994, no largo 4 de Fevereiro, em presença de Sua Excelência, o Senhor Presidente da República e a Primeira Dama. Militou no Musangola, vencendo depois o concurso 5 de Outubro da RNA na edição de 1997 e mais recentemente o prémio Semba d ‘Ouro.”
Deste disco da ENDIPU é a faixa 12 que mais nos prende o ouvido e a alma. KIBUIKILA. Conta a história de Dino que um dia foi procurar feitiço de ficar rico. “Dino uaia kutambula wanga/ mwene waia ku tambula wanga wa kitadi”. Enquanto a música rola, deslumbra-nos o coro de vozes femininas (pena que o álbum não contenha informação adicional sobre os elementos que acompanharam Bangão). O coro contamina os sentidos e o raciocínio: “Manhi zé ngongo uolobua/ manhi zé kibuikila.” Esta canção não é só a história de Dino. É também a história recente de Angola, pois fala de Lusaka, de Gbadolite, fala da escravidão (Ubika abua kiakulu), da independência(Dipanda tuaitambula ukulué).
O autor dos álbuns “Cuidado” e “Estou de volta” nasceu há 53 anos, no Sambizanga, e disse adeus à música e à comunhão dos vivos no dia 17 de Maio de 2015. A Garina do Sweegue (símbolo da beleza feminina de Angola) não passou despercebida nas esquinas do Sambila. Bangão captou o passo da garina, a sensualidade que ilumina o beco do musseque e, como todos os outros assuntos que fazem o dia-a-dia do povo, imortalizou-a na Arte de Cantar.
Uma análise histórica, ainda que perfunctória, da Música Popular Angolana, permite-nos afirmar que, com Adriano Francisco João “Day Doy”, falecido em 2009, Bangão formava a última dupla dos cultores do semba genuíno. E agora, quem nos pode trazer a esperança de não deixar o Semba morrer?

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