Trajectória da Nação Angolana

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Contribuição sintética para o 40º aniversário da independência

Trajectória da Nação Angolana
Rainha Ginga

I – DAS COMUNIDADES PROTO-HISTÓRICAS AO POVOAMENTO BANTU

Consideramos povoamento pré-colonial o processo de reassentamento, essencialmente, dos povos da fala Bantu dos séc. XVI a XVIII, dentre Bayaka ou Imbangala, Ovimbundu, Cokwe, etc., cujo processo se atrelou às dinâmicas mercantilistas ocidentais com consequências que proporcionaram a evolução socio-política simultânea, por um lado ocidental ao longo do litoral, nomeadamente, Luanda, Benguela, Namibe e por outro tradicional endógena dando azo a africanistas como N. Gonzaga ao afirmar que teria acontecido “[…] não apenas ligeiramente ulterior […] ao desembarque […] de Diogo Cão, mas, algo posteriormente à radicação dum sem número de núcleos portugueses colonizadores” (s/d:35).

Povoamento Cokwe

O povoamento em causa aparece no contexto de reassentamento como corrente dissidente Lunda dos Tumbungu (SÁ, 1996), também conhecida por Nganda de povos de Kazembe cuja fragmentação das estruturas e sistemas de parentesco do séc. XVII permitiu a consolidação das instituições socio-políticas do Viye e desta evolução, o reordenamento sociocultural de Angola actual conheceu considerável progressão com a emersão de entidades políticas em detrimento de outras.
A narrativa começa com a decepção de Cinguli, título político-militar perpétuo (MILLER, 1995) Lunda, tal como ficou a Musumba, com a novidade da intromissão de Cimbinda1  Ilunga de origem Luba, no sistema político esposando Lueji na condição de herdeira do lukano, o símbolo do poder Lunda (SÁ, 1996). Revoltado Cinguli (MILLER, 1995), em função de irmão primogénito daquela, instabilizou a governação de sua irmã kasule abandonando o país com inúmeros seguidores. A decepção foi abrangente aos irmãos uterinos. Assim, Mbumba Cinyama2  errou pelo sul liderando a chefatura que terminou com a criação de um povo que ficou com o etnónimo de Cokwe. Na mesma perspectiva e em condições similares, Ndumba wa Tembwe, atravessou os rios Cikapa3 , Kwangu, Kwandu, etc. (SÁ 1996), emergindo as correntes socioculturais Ngangela, Lwena do Alto Zambeze, Lucaze4 , Mbunda, Mwela, Mpengo, Katolo, etc.
Por seu turno, enquanto caçador-guerreiro, Cinguli atravessou rios e rios: Lwi, Kasay, Lonyi, Kwanza, Kamweji, Luhembe5 , Kaximo, Lwanda, Cihumbo, Sombo, Lwaximu, fazendo emergir as estruturas políticas de Kasanji mas, foi no Viye onde municiou o seu comando através da adopção de ovilombo, singular de ocilombo, o mesmo que kilombo (MILLER, 1995) na língua kimbundu, designação de quartéis, acampamentos militares na língua umbundu, que a partir do séc. XVII, os portugueses rotularam de “Jagas”, aos ovilombola, o mesmo que soldados-comandos dos ovilombo com os quais, interrompendo Kulembe, influenciou a evolução dos poderes políticos da Matamba, Pende, Khongo, Mona Kimbundu de Itengo, Songo, Kisama, Ndembu, Kalandula, Kabuku ka Ndonga, Holo, Mwa Ndonji, Kibala, Sele, Wambu, planalto de Benguela, Matamã, Kakonda, etc., (SÁ 1996) dando nova paisagem civilizacional do que viria ser Angola.

Povoamento Mbangala

Acusados de antropófagos (PARREIRA, 1998) os “Jagas”, corruptela ocidental de Yaka, plural de Bayaka, do verbo okuyaka que em línguas umbundu e kikhongo significa combater, guerrear, conflituar, pelo que a aplicação de tal etnónimo foi para os portugueses um factor mais ideológico que de identidade (VANSINA, 1966), sendo um problema depreciativo nas más relações com africanos que os combatiam, enquanto organizações nómadas de índole socio-político militar, vocacionaram-se a guerrilhas com técnicas de rapinas, razias e saques (VANSINA, 2007). Partícipes activos dos êxitos de Njinga6  a Mbande da Matamba (séc. XVII), chamaram-lhes assim a partir da segunda metade do séc. XVI (apud Andrew Battell) pois o seu protagonismo inicialmente desprovido de lutas pelo poder, teve influências políticas sem precedentes mas os portugueses lidaram-se com eles como inimigos (MILLER, 1973) e aliados na guerra contra Ambundu e parceiros ao mesmo tempo no mercado de escravos e como intermediários não obstante à imprevisibilidade que lhes era característico.
Vindos do leste como afirma J. Vansina (1966:651-653) ao invadir o Khongo de Mpangu-a-Nimi Lukeni Lwa Mvemba (1568-1574), o facto ajuda a identificar o nó da encruzilhada entre a realidade Lunda/Luba e o litoral Atlântico (MILLER, 1995), a designação Bayaka, Yaka ou “Jaga” Cadornega (1972), evoluiu a etnónimo que identificava os africanos pré-coloniais de origens diversas (CARVALHO, 1898) com características diferenciadas, organizados em torno de objectivos socio-económicos concretos fazendo guerras.
Foram as descrições de Andrew Battell do séc. XVI (CARVALHO, 1898), que permitiram fazer ligações identitárias entre os “Jagas” e os Imbangala originários do Leste em pleno séc. XIX. No entanto os “Jagas” das civilizações do séc. XIX do baixo Kasanji ao longo do vale do Kwangu eram referenciados como Imbangala (HEINTZE, 2007), portanto, o mesmo falar de correntes Cinguli das Lunda que chegaram no Khongo pela travessia do rio Kwanza através de Kulembe7  e não do Kwangu como seria de esperar (MILLER, 1995). Em suma a extinção dos ditos “Jagas” quer em termos de dinâmicas, quer do ponto de vista da organização dos ovilombo, fez-se coincidir com a consolidação das entidades socio-políticas do planalto de Angola (cfr., op. cit.).

Povoamento Umbundu8

A tradição Kulembe, designação de um país segundo Miller (1995:149-173), toponímia derivada do verbo okulembeleka, o mesmo que consolar em umbundu, de acordo com Niane (2010:645) estava “localizado ao Sul de Libolo, que talvez tenha sido uma das primeiras organizações estaduais Ovimbundu”, cuja realidade sociopolítica destes povos se tenha configurado no reassentamento de cinco países com estados característicos e consequentes satélites do planalto nomeadamente Mbalundu, Ekovongo do Viye, Wambu, Ndulu e Ngalangi. Estes resultaram do desenvolvimento das forças produtivas tributárias e do impacto da colisão mercantil entre europeus e Bayaka da corrente Cinguli, dos quais emergiram os povos da fala umbundu (MALUMBU, 2005). Autonomizaram-se em consequência do declínio de Kulembe ora fragmentado segundo Miller (1995:167) “em muitos pequenos chefados guerreiros liderados por chefes de kilombo” cujas origens explicadas são de lideranças de chefatura com títulos políticos “Jagas”, patriarcas caçador-guerreiro, detentor de meios metalúrgicos (NIANE, 2010). Entre outros actores, se conhecem as correstes do título perpétuo Cinguli, Wambu Kalunga, Katekulu Mengu (V/A, 1963), etc., pois na óptica de Miller (1995:42), o reassentamento de falantes da língua umbundu baseou-se no “princípio de considerar a descendência e herança através de mulheres e o facto de deixar a maior parte das formas de autoridade nas mãos dos homens através de celebrações de alianças”. Este princípio caracterizou o assentamento Bantu9 , razão das migrações Cinguli10  mas, os planálticos Ovimbundu precisaram de instituições uterinas songo e patrilineares nkhumbi, no caso do Viye e patrilineares Ambundu e Bayaka, no caso de Ngalangi11  e Kakonda enquanto todos cruzavam com os valores ocidentais para a criação de entidades politicamente consolidadas.

O país Mbalundu12
Da emersão das instituições socio-políticas consta que Mbalundu (SANJUKILA, 1997), topónimo evoluído a etnónimo de elundu, singular de alundu, valundu significando montanhas, foi da fundação de um patriarca Kulembe de chefaturas Kibala, dado por Kajinga (MILLHER, 1995) [a] Mbulu (SANJUKILA, 1997) da sociocultura mbundu de Ambundu (COELHO, 2010). Dissidente de guerras de resistência à penetração europeia do século XVII (V/A, 1963) ocorridas ao longo do médio Kwanza (DUARTE, 1975) foi contemporânea de Ngola a Kilwanji kya Samba. A figura em si tem sido sonegada pela tradição e substituída por título de Katyavala a quem se atribui o mérito da emersão socio-política de Halavala (SANJUKILA, 1997), tido por berço do Bailundo. Entretanto, tal como descreve Miller (1995:98) Kajinga a Mbulu e Katyavala, um depois do outro, lideraram chefaturas com descendência mbundu da margem direita do médio Kwanza e do baixo de Kasanji.

O país Viye13 do Ekovongo
O reordenamento das estruturas sociopolíticas do Viye, capitalizado na Ombala Ekovongo, tinha a ver com o desenvolvimento das forças produtivas tributárias do povo nkhumbi cujas consequências provocaram cisões políticas, à semelhança de Mbalundu, Civava14  Ndalu (MALUMBU, 2005), patriarca conhecido por Vingolombada, liderou o êxodo de uma franja populacional ao encontro de outras motivações.
Para a sua hegemonia institucional adoptou os valores patriarcais ngangela e lwimbi fazendo emergir o Ekovongo que para efeitos, implicou por alianças as socioculturas periféricas songo e cokwe, adstrita aos Ambundu, (REDINHA, 1970) tal como caracteriza B. Duarte (1975:60). Apesar de ter sido de origem nkhumbi há narrativas que lhe atribuem a identidade Lunda e noutras, admitem que seja parte da civilização Zumbi.
Na prática, ao contrário do que tem sido em história, em que a transição de mera chefatura ao estado bem estruturado obedece a celebração de alianças entre linhagens matrilineares e patrilineares (MILLER, 1995) como forma de aquisição de reforços, o progresso sociopolítico do Viye exigiu aliança entre sistemas patriarcais sem ter produzido danos institucionais. Tratou-se da presença de correntes Cinguli de origem Lunda que trouxeram ao Ekovongo um conjunto de valores socio-religiosos relativos a sociedades secretas segundo E. Santos (1973:7-27) e J. Miller (1995:51) adoptados por entidades Bayaka que fundaram o estado do baixo Kasanji.
Não obstante ao grau de influência do Viye no contexto de reassentamento de Angola pré-colonial por lhe caber maior abertura às mudanças, permitindo a criação de uma área socioeconómica intermédia privilegiada com características agro-pecuárias resultantes do cruzamento entre pastores do sul, agricultores do norte e artesãos do leste, paradoxalmente à sua envergadura traduzida no domínio socioeconómico, predomínio demográfico, experiência de guerras de razia e saque, prestígio diplomático e boas relações internacionais, a opção ao mercado sertanejo internacional dos séc. XVII, XVIII e XIX, permitiu a penetração concorrencial de árabes, norte-americanos, escoceses, canadenses, húngaros, brasileiros constituintes de núcleos familiares ao ponto de alterar a paisagem demográfica e racial do planalto.
Tal como os Imbangala, que E. Santos (MCMLXVI: 30) garante serem “um povo amalgamado com gentes de Bungos (Lundas) do Libolo e da «Jinga»” (VANSINA, 1966), referindo-se aos Ambundu, segundo Heintze (2004:46), paralelamente ao Mbalundu e Wambu, sem perder de vista a posição estratégica na geopolítica internacional de Pungu a Ndongo, Ambaka e Kambambe (cfr., VANCINA, 2007), o Viye foi o centro de difusão estratégica do mercado sertanejo pré-colonial bem posicionado servindo de entreposto comercial internacional como elucida Heintze (Íd:66) ao interligar as rotas caravaneiras euro-planáltico-árabes do Atlântico, Grandes Lagos, Índico e vice-versa (Íd:67).
Além de Imbangala, Songo, Cokwe, Lwimbi, Ngangela, Lunda, Nkhumbi, Luba, o reassentamento do planalto conheceu a presença de entidades de origem Zulu, Matembele, Árabo-swahili do Zanzibar, Zimbi, escravo e libertos centro-africanos, etc. Outrossim, não se pode falar do processo migracional de Mbalundu e Viye sem as dinâmicas do mercado do séc. XVII a XIX, da mesma maneira que não se pode falar dos Estados planálticos sem que, pela mesma razão, se fale da colónia presidiária de Benguela e dos entrepostos da Catumbela e baixo de Kasanji15  dos Imbangala.
Na perspectiva de Heintze (2004:261-297), para a aquisição de escravos, marfim, cera e látex, em troca de pacotilha vária como descreve Yambo (1997:11), aderiram à região planáltica pombeiros de toda ordem e raça que no final do séc. XVIII, “até 1798 mais de duzentos sertanejos [estrangeiros, autóctones e adoptivos] estavam dispersos pela região do Ekovongo (Yambo, 1997:12) e no início do séc. XIX a cifra tinha se triplicado.

O país Wambu16
O reassentamento do Wambu tem a ver com o patriarca Wambu Kalunga descendente mbangala de Kasanji (VANSINA, 1963), originário de entidades políticas sele emergidas de Kulembe. A sua trajectória é reafirmada por E. Santos, (MCMLXVI:30) ao afirmar que liderou chefatura “de um numeroso grupo de gentes que mais tarde receberam o nome de Jingas” falantes da língua kimbundu do planalto da Matamba. Na sua progressão institucional apoderou-se de uma localidade que em tempos idos, chamou-se ovambo, plural de ymbo, o mesmo que aldeias. Por esta razão a tradição justifica que Wambu tenha evoluído de antropónimo a etnónimo por corrupção o topónimo Wambu como descrito por V. Coelho (2010:248).
Noutras narrativas Wambu Kalunga é caracterizado como sendo um “Jaga” temido de origem Lunda da corrente difusionista Cinguli (HEINTZE, 2007), vindo do vale do rio Kuvu que acampando no planalto por dissidência, fundou Mbola, entre pedras conhecidas por Nganda la Kawe, a 7 km ao norte da Kahala17  mas, é Samisasa a 18 km ao norte do Huambo onde se encontra a jazida dos Akokoto da sua dinastia, razão porque se considera Ombala do Wambu. Independentemente das versões, sele ou cimbangala para a formação política do Wambu, o importante é dizer o mesmo por palavras diferentes pois Sele está ligado a Kibala, Kulembe, Libolo, Matamba e mbangala aos Lunda, Viye, Bayaka, Matamba, Kasanji sem distâncias das entidades políticas Ambundu (REDINHA, 1975).

O país Ngalangi18
Uma tradição bastante popular recolhida por L. Keiling (1934) evidencia melhor a perspectiva do parentesco das entidades socio-políticas do planalto partindo de (CHILD, 1964) Ngalangi que se tornou entidade política umbundu com a génese da chefatura interpretada na perspectiva cósmica do fórum etnolinguístico Bantu.
Trata-se da figura cósmica de Feti que foi pai de três filhos; Ngola, então primogénito de Coya19 , Ngalangi e Viye, dos três casamentos poligínicos com progenitora Coya, Civim20  e Tembo. A narrativa diz que a relação com Coya resultou de uma tentativa de caça de hipopótamos para o consumo que Feti efectuara junto à nascente do Kunene [área correspondente com as localidades de Kalukembe, Cipindu21 , Kahala, Galange22 , Kakonda Cipindu] e assistiu emergir dela a mulher que chamou de Coya, do verbo okwoya, na língua umbundu designando enfeite, ornato, perfeição. Como solução encontrada das desavenças entre o primogénito e a sua madrasta Cinvim, Feti partiu com ele pela mata afora tendo se acomodado ao longo da margem esquerda do médio Kwanza, o mesmo que Kwanja do verbo okuliyanja, distender em umbundu, e lá fundou a nação (a)mbundu.
Os demais descendentes não ficaram por terem errado pelo planalto ao leste onde fundaram as nações (ovi)mbundu (MALUMBU, 2005). O segundogénito dado por Ngalangi tornou-se pai de caçadores-guerreiros do sul e a kasule conhecida por Viye, do verbo okwya, o mesmo que vir, tornou-se mãe dos planálticos ágro-pastores (CHILD, 1964).
Na narrativa depreende-se haver uma relação na descendência dos falantes de línguas (u)mbundu e (ki)mbundu, correspondendo com a análise de Miller (cfr., op. cit.), deixando explícita a ideia de que o médio Kwanza serviu de elo de (des)construção triangulada de nações ovi(a)mbundu, pois diz Miller (1995:81) que de acordo com os anciãos do reino da Kibala, no planalto dos Ovimbundu para lá do rio Longa, os quais são descendentes de alguns dos portadores de títulos Ngola que mais longe foram nesta diáspora, vários títulos teriam atravessado o Kwanza quase ao mesmo tempo.
Dos filhos de Feti, a narrativa estabelece alianças do mesmo sistema que é o patriarcato, justificando a relação entre falantes de línguas kimbundu e umbundu particularmente. Por exemplo, diz o autor citado (cfr. op. cit.) que “alguns títulos isolados, descendentes do Ngola a Kilwanji podem ter penetrado mais para o sul, chegando aos Hanya [referindo-se ao planalto de Benguela] que viviam nas montanhas acima do que foi depois a cidade portuguesa de Benguela”. Esta região, confinada entre as áreas adjacentes ao litoral e faixa montanhosa das províncias de Benguela e Kwanza-sul, caracteriza-se por constante nevoeiro, cujo fenómeno em umbundu se designa por «mbundu», o mesmo que nevoeiro, plural de ambundu, ovimbundu, olombundu.
As dinâmicas mais conhecidas fluíram da faixa direita à esquerda do médio Kwanza (MILLER, 1995) mas garante Silva (1997:14) queo kilombo (instituição política e militar) sendo corrente entre Ovimbundu nas terras do planalto central, da Angola actual, chegou ao Ndongo23  (reino fixado entre as margens do Kwanza, Dande e Bengo e ao tempo sob o comando Ngola) pela mão dos Imbangala, em pleno século XVII, e ai se instalou.
Há um incontestável movimento de reassentamento pré-colonial do norte ao sul do vale do Kwanza e vice-versa encruzilhando-se pelo planalto com título cósmico de Feti, encarnado na figura patriarcal, anagrama resultante do verbo da língua umbundu “okufetika” o mesmo que começar ou efetikilo, significando génese [da humanidade ntu]. Aparece na tradição para a interpretação literal da travessia do kilombo em kimbundu, o mesmo que ocilombo em umbundu, descrito por Miller (cfr. op. cit.) e Silva (cfr. op. cit.). Na relação poligínica com Coya, Civim e Tembo, há uma perspectiva trinominal da expansão dos povos de Angola sustentada pelo bem, o mal e o tempo depreendendo-se os nós das relações entre: os binómios tempo/espaço; conflitos/migração; os trinómios norte/centro/sul; terra/fertilidade/água. Ngalangi é Feti, de onde tudo começou e os demais conheceram trajectórias para emergir dispersando os valores de tudo que hoje é paisagem sociocultural da República de Angola tal como descreve Naine (2010:645) à semelhança dos sistemas de parentesco, político consuetudinário, religioso e socio-económico.

O país Ndulu24
Na génese do estado do Ndulu, referencia-se o título «Jaga» de Katekulu Mengu um cimbangala, contemporâneo de Njinga a Mbande, desgastado das correntes Cingulu sendo incursionista militar contra os ibéricos ao longo do corredor médio Kwanza (PELISSIER, 1997) e no Khongo. O certo é que o estado Ndulu passou a designar-se assim memorizando o sexto patriarca que do golpe consumado por ele resultou o reassentamento faseado de chefaturas ambundu de Mpungu a Ndongo (COELHO, 2010). Entretanto, a tradição da expansão do povo Ndulu faz menção a uma aristocracia Libolo liderada por Ngonge25 , errante das margens do rio Kutatu, pela rota de Kibala, Waku-kungu, Mungu e seguindo até Civaulo26 .
Em suma, Libolo aparece na tradição Ndulu, tal como apareceu mbangala, dando crédito do reassentamento pré-colonial de raiz ntu de emersão de entidades políticas ovimbundu erguidas no espaço sociocultural songo por chefaturas ambundu de origem Kulembe com influência cokwe, nkhumbi27 , lwimbi e demais entidades ngangela.
Ainda sobre o assunto, J. C. Miller, (1995:90) esclarece que “os antigos mbundu provavelmente usavam o nome Libolo apenas para as regiões ao sul do Kwanza onde os reis hango tinham as suas capitais”, fazendo-se coincidir com a região geográfica da emersão triangulada por instituições de índole mbundu, compreendendo o médio Kwanza, as nascentes de Longa, Kunynga, Kutatu e o vale do Keve, áreas hodiernas de Calulu, Quienha, Quibala, Waku-kungu, Andulo, Mungo, Mussende, Nharêa.
E, por fim, relativamente à encruzilhada socio-política do planalto, o referenciado autor enfatiza (Íd.:91) que Libolo “foi um dos mais antigos dos grandes estados que surgiram entre povos de língua kimbundu. De igual interpretação, Mpungu a Ndongo fazia parte de uma região que J. Miller (Íd.:199) classificou como terras “rodeadas por um anel de novos estados mbundu, fundados em meados do século dezassete por titulares Lunda que chefiavam bandos de Imbangala”. O autor em epigrafe caracteriza os estados satélites mbundu na sua natureza ambígua não separando os ovi(a)mbundu que nesta fase fundamentavam-se em pé de igualdade.
Não obstante serem entidades das variadas “origens”, as igrejas protestantes capitalizadas no meio rural com o centro no Dôndi (1974-1915), protagonizaram a uniformização da língua umbundu, criando um colégio de intérpretes para a unificação do texto formal. O mesmo não aconteceu com os falantes da variante hanya por causa da tardia evangelização desta região limitada pelos municípios de Bocóio, Cubal, Caimbambo, Chongoroi, actual província de Benguela.

Povoamento Mbali
A terminologia «mbali» apareceu no cenário etnolinguístico angolano por volta de 1850, designando uma comunidade que servia as actividades coloniais de toda espécie incluindo assalariadas ao mesmo tempo que era utilizada para o fomento povoacional da região que compreende as províncias do Namibe, Huíla e Benguela (GOMES, 1995), enquanto reserva de mão-de-obra barata ao mesmo tempo que era utilizada como ponta de lança para abrir novas rotas territoriais de índole comercial. Nas circunstâncias em que é descrita, a terminologia refere-se a qualificação sociocultural (CARDOSO, 1963), tendo em conta as suas especificidades, pois a fixação desta comunidade contribuiu para a edificação de um novo modelo no painel demográfico da região; - os Kimbali, Ovimbali, Quimbaris (GOMES, 1995), plural de mbali, ocimbali28 .
Formalmente, este povoamento teve início com a publicação da Portaria de 5 de Novembro de 1839, com as medidas de protecção à colonização que Portugal havia tomado (CASTELO, 1998 & NASCIMENTO, 1910), concedendo passagens gratuitas aos pobres camponeses católicos que quisessem emigrar à Angola sendo possível a partir de 1840 (TORRES, 1950) com contingentes esclavagistas portugueses expulsos do Brasil (s/a, 1974) para a baia do Namibe (1848/1850). Além de escravos do Brasil, parte do contingente acima descrito, comunidades adicionais desembarcaram de Algarve em 1861.
Àquelas comunidades adicionou-se a primeira mão-de-obra barata de origem nativa, na condição de escravos e libertos Bakhongo de Luanda, Soyo e Cabinda que aderiu o Namibe particularmente entre 1836 e 1839, a fim de sustentar a actividade relativa ao exercício do mar (CARDOSO, 1963) tal como aconteceu na Catumbela. Em consequência destas e doutras originalidades africanas, com maior incidência aos Ovimbundu, escravos regressados do Brasil e libertos, a partir de 1839 emergiu uma comunidade que passou a chamar-se mbali (GOMES, 1995), querendo dizer em muitas línguas nacionais, dois, dúbio, crioulo, ambíguo, não identificado. Caracteriza a sociocultura de miscigenação afro-africana. A hegemonia dos Ovimbundu nos elementos da composição mbali justificou-se pela característica capacidade de adaptação e a afeição pela agricultura que dispunham.
Enquanto socioculturas atípicas constituindo-se a partir do cruzamento de valores endógenos e exógenos, no contexto de reassentamento de Angola, a questão das particularidades do povoamento mbali do Namibe (CARDOSO, 1963), ovimbali do Dombe-Grande e de Catumbela (GOMES, 1995) é abordada de forma acautelada pois há tempo que formaram comunidades quase homogéneas com os seus sistemas socio-económicos, dialectos, hábitos, usos e costumes: em breve, duas culturas ‘autónomas’ em locais geográficas distintas com os mesmos etnónimos que as particularizavam.
À semelhança do Dombe-Grande e Catumbela, (NETO, 1994) os “Mbali (Quimbares) mais antigos de Moçâmedes eram descendentes dos antigos escravos e libertos do século XIX e também de negros livres aí estabelecidos”. Em função do movimento abolicionista internacional da época (183671856), Portugal forçou-se a tomar medidas, segundo M. Torres, (1950:443) “ditas moderadas até que no decurso abrangido pelos anos de 1860 a 1870 a Lei de 29 de Abril e o regulamento de Dezembro do mesmo ano extinguiram [...] a condição servil e regularam os contratos para a prestação de trabalho” e paulatinamente os escravos foram obtendo a liberdade dos seus patrões e das autoridades coloniais passando ao regime simulado de contratos.
No início da colonização efectiva ocorrida na segunda década do séc. XX (CASTELO, 1998 & NASCIMENTO, 1910), a composição na importância da miscigenação mbali partindo de registos estatísticos funerários (CARDOSO, 1963), distribuída ao logo do caminho ferroviário do Namibe e na faixa litorânea centro e sul de Angola, incluía cerca de 40% dos valores Ambundu, 29% de Ovimbundu, enquanto 13% cabiam aos Vanyaneka e Nkhumbi, 4% aos Ovambo, 4% dos Valwimbi, 3% aos Bakhongo, 1% aos Vahelelo, 0,5% aos Balunda e Cokwe, 0,1% aos grupos do extremo sudoeste de Angola.
Pelo seu carácter sociocultural dúbio, os Kimbali, Ovimbali, Quimbaris não resistiram o impacto da guerra civil pós-independência e das estratégias do I Congresso do MPLA de 1977, tendo se diluídos noutras socioculturas durante as décadas de 1980 e 1990.

Povoamento da Catumbela
Fundado por Decreto régio português de 1836, o reassentamento colonial de Catumbela foi feito por fases, inicialmente até 1846 (DELGADO, 1944), em sobreposição de povoações ndombe do grupo etnolinguístico Helelo assentados entre os vales do Kupololo e de Catumbela, à semelhança do que aconteceu com o presídio de Benguela, sobreposto na povoação de Cingongo29  (cfr., op. cit.) das mesmas comunidades. Respondeu às dinâmicas do mercado sertanejo imposto por mercadores Ovimbundu, Vangangela e seus aliados do interior de África (HEINTZE, 2004), por não terem conseguido atravessar o vale da Katombela com mercadorias forçando a clientela europeia de Benguela a acampar ao longo da margem esquerda devido a distância que não permitia o regresso no mesmo dia.
Desta maneira a localidade ressentiu com o aumento gradual da população, pelo menos, até 1856 com a aderência de Ovimbundu do planalto de Benguela; Vaciyaka30 , Vahanya31 , Vasele e Vacisanji32  (REDINHA, 1970), assim como os Vakhumbi do sul, Vandombe, assim como escravos e libertos de todas origens, Bakhongo originários de Luanda, Soyo e Cabinda, ex-esclavagistas brasileiros, etc.
Com a decadência gradual do mercado de coconote, azeite de palma, urzela, goma e couros secos, produtos característicos do mercado pós-esclavagista, entre 1874 e 1886 (SILVA, 1994) a população urbana da Catumbela passou a crescer devido à concorrência de marfim, cera e látex, sendo este do interior de África o mais procurado (HEINTZE, 2004) entre as permutas e exportações do séc. XIX (YAMBO, 1997 & HEINTZE, 2004).
O comércio crescente de látex (SILVA, 1994) engrandeceu o reassentamento africano do planalto ao litoral centro de Angola valendo à Catumbela (DELGADO, 1945) o progresso socio-económico e político de 1886 a 1900, pelo que sob Decreto de 5 de Junho de 1905, a povoação ascendeu à categoria de vila tendo promovido rivalidades com Benguela.

Povoamento da Huíla

Com os primeiros sinais de povoamento europeu conhecidos na região, por volta de 1880, pertencentes aos bóeres, o reassentamento colonial do Lubango, inaugurou-se com famílias madeirenses particularmente camponesas (CASTELO, 1998), pobres, católicas, com passagens subsidiadas pelo estado português. Os primeiros contingentes desembarcaram em 1884 no Namibe mas foi em 1885 que aconteceu de facto a fundação da colónia do Lubango com os barracões erguidos ao longo do rio Kakuluvale. O povoamento europeu foi crescendo de qualidade e quantidade com a chegada de mais contingentes (NASCIMENTO, 1910), com Nyaneka, Khôy-saan, Ovambo, Nkhumbi, Ovimbundu, Helelo, Ngangela à mistura e em 1901 foi elevada à categoria de vila mas foi em 1923 que ascendeu a cidade.
A opção pelo tipo de povoamento, tornou a Huíla uma excepção no projecto de criação de colónias portuguesas em Angola (CASTELO, 1998 & NASCIMENTO, 1910), por ter se beneficiado de famílias europeias em quantidade, comparando com as colónias litorâneas de Luanda, Catumbela, Benguela e Namibe (S/A, 1974 & DELGADO, 1955). Por esta razão ainda se considera a região como sendo europeia em Angola.

CONTINUA NA PRÓXIMA EDIÇÃO

1-  Ler Tchimbinda
 2- Ler Tchinhiama
 3-  Ler Tchikapa
  4- Ler Lutchaze
  5- O “h” é aspirado
 6-  Nzinga em kikhongo
  7- Com muito poucas referências formais, esta realidade sociopolítica tradicional endógena, adstrita aos Ovimbundu (cfr. Miller, op. cit.)
  8- Conjunto de realidades sociopolíticas unidas na cultura e línguas que compreendera o planalto de Angola
 9-  O mesmo que Vantu
 10-  Ler Tchinguli
  11- Ler Ngalangui
 12-  Realidade sociopolítica tradicional endógena que subentendera a região entre actuais províncias do Huambo, Benguela e Kwanza-sul
 13-  Realidade sociopolítica tradicional endógena que subentendera a região centro-sul da actual província do Bié.
 14-  Ler Tchivava
 15- Realidade sociopolítica tradicional endógena que subentendera a região entre as províncias de Malanje e Lunda Norte.
  16- Realidade sociopolítica tradicional endógena que subentendera a região planáltico-central do Huambo e Benguela.
 17-  O “h” é aspirado
 18-  Realidade sociopolítica tradicional endógena adstrita à região compreendida entre actuais províncias do Huambo, Benguela e Huíla.
  19- Ler Tchoia
  20- Ler Tchivim
  21- Ler Tchipindu
  22- Ler Ngalangue
  23- Realidade sociopolítica tradicional endógena adstrita à área correspondente com actuais províncias de Luanda, Bengo, Kwanza-norte ao longo do médio Kwanza.
  24- Realidade sociopolítica tradicional endógena adstrita à área correspondente com actual região norte da província do Bié.
 25-  Ler Ngongue
 26-  Ler tchivaulo
 27-  O “h” é aspirado
 28-  Ler otchimbali
  29- Ler tchingongo
  30- Ler Vatchiyaka
  31- O “h” é aspirado
 32-  Ler Vatchisanji

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