Trajectória da Nação Angolana

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Contribuição sintética para o 40º aniversário da independência

Trajectórioa da Nação Angolana
Desenho de Manuel Ribeiro de Paiva. Fotografia: Manuel Ribeiro de Paiva.

IDAS COMUNIDADES PROTO-HISTÓRICAS AO POVOAMENTO BANTU

INTRODUÇÃO
Contribuímos para a comemoração do 40º aniversário da independência de Angola nas fronteiras actuais (V/A, 1999), fruto do sistema colonial português de cerca de meio século (1920/1975), descrevendo a trajectória da (des)construção da nação, partindo da génese povoacional da proto-história à contemporaneidade.

Várias têm sido as tentativas de interpretação de Angola nas perspectivas históricas, antropológicas ou sociológicas a fim de expor a génese demográfica deste país e descrever as características mais gerais da sociocultura nacional mas a trajectória das etno-nações à nação angolana da pós-independência é, deveras, formalmente desconhecida.
Aparentemente simples de se abordar, os substratos da paisagem sociocultural de Angola, constituem verdadeiras premissas para a caracterização da origem etno-linguística que sustenta o seu mosaico. O que se pode apontar de antemão é que o nosso grau de parentesco e como nos qualificamos de angolanos constituem motivos suficientes da avaliação dos 40 anos da nossa independência.
Na elaboração deste texto o tradicional foi tido em metodologias aplicadas com base em versões das narrativas e epopeias orais apoiando-nos essencialmente em Mesquitela Lima (1995), Joseph Miller (1995), Jan Vansina (2001), David Birmingham (1974), Eduardo dos Santos (MCMLXVI), Henrique de Carvalho (1885), Djibril T. Niane (2010), et al. Deles e de tantos outros desvendamos mistérios, a fim de alienar o esforço africanista trazendo à luz a nossa história, pois em cerca de 500 anos de contactos escamotearam, adulteraram e camuflaram a realidade em seu próprio benefício.
Quem somos nós, como, quando, de onde, porque estamos no local circunfechado nas fronteiras da República de Angola e que transformações ocorreram para sustentar a génese da nação enquanto ganho supremo da independência de 11 de Novembro 1975? Outrossim, porque os problemas característicos da etno-história africana não afectam Angola? É nesta perspectiva que procuramos elucidar em seguida que, 40 anos depois da independência do jugo colonial português, somos capazes de fundamentar que o nosso ambiente etno-histórico resulta de um longo processo de (re)assentamentos de povos das mais remotas e diversas origens pelo que se pode compreender porque na génese do povoamento de Angola as estruturas políticas e os sistemas de parentesco são similares e como foi possível o elevado nível de consciência socio-política que nos caracteriza.

COMPREENSÃO E EXTENSÃO TOPONÍMICA
Sendo imprudente falar sobre a realidade angolana sem ter em conta a compreensão e extensão da sua toponímia (SANTOS, MCMLXVI) depreende-se que, ao longo da sua existência, Angola não teve a mesma dimensão histórica (NIANE, 2010). Compreende-se pelo facto da trajectória por que os principais povos (re)assentaram neste território e como organizaram as suas entidades socio-políticas (NETO, s/d.[a]), adicionando-se a forma do estabelecimento das relações com os europeus no decurso dos 493 anos (1482/1975).
Outrossim, Angola constitui a súmula de principais povos que fomentaram a sua paisagem etnolinguística (REDINHA, 1975), desde os tempos mais remotos, sem que conhecessem isolamentos nas relações de vizinhança (NETO, s/d.[a]), mas assentados os europeus, nos finais do séc. XV (NASCIMENTO, 1910) a sua extensão e a compreensão, enquanto topónimo, começou a ganhar contornos (DIAS, 1961) que configuraram o país de inúmeras etno-nações à nação que ganhamos há 40 anos.
Enquanto topónimo, Angola exprime o plural de «Ngola», terminologia originária da dinastia de povos Ambundu segundo caracterização de V. Coelho (2010:101-200), falantes da língua kimbundu, fundadores dos estados do Ndongo e da Matamba (SANTOS, 1969), fixados ao longo do médio Kwanza. A tradição admite ter havido um estadista do Ndongo e da Matamba que, sendo vassalo do Khongo, foi portador do título político, «Ngola» tornado extensivo aos Ambundu em função do parentesco sociocultural envolvente (MILLER, 1995), designação com que os portugueses caracterizaram o território onde nos encontraram. Tornado extensivo desde 1520, sendo legível nas principais línguas nacionais faladas em Angola actual, acredita-se que o título «Ngola», com o mesmo significado que Eduardo do Santos (1969:24) tenha descrito, teria chegado ao médio Kwanza do estado Lunda, bibliografado em 1532 (GONZAGA, 1963) antes do relacionamento formal da Coroa portuguesa e entidades Ambundu. Dentre estes, simboliza o poder político da autoridade tradicional endógena Ndongo: «Mwene Ngola» (COELHO, 2010), - detentor do poder político, autoridade máxima, chefe de estado, rei mbundu (cfr., COELHO, 2010), o Ngola. Até aos contactos com os portugueses em 1560, a monarquia acima reportada conheceu por ordem de sucessão, vários portadores do título de que se suportou a toponímia; Ngola Inene, Nzunda kya Ngola, Tumba kya Ngola, Ngola Kilwanji, Ndambi a Ngola, Ngola Kilwanji kya Ngola, Njinga Kilombo kya Kasende, Mbande Ngola Kilwanji kya Samba.
A extensão toponímica evoluiu fora da vontade dos portugueses que partindo da criação da colónia presidiária portuguesa de 1575 (LEMOS, 1929), baptizada por «Sebasti», isto é, «reino de Sebasti» em memória ao rei de Portugal, D. Sebastião (SANTOS, 1969), sem sustentabilidade, prevaleceu «o reino de Angola» (COELHO, 2010) em função do já existente «reino do Khongo».
Entretanto, só em 1926 (SANTOS, 1969[a]) se concretizou o domínio e a exploração geográfico-fronteiriça do território e consequente adaptação da designação de «província ultramarina de Angola», a um conjunto de entidades socioculturais predominantemente de origem etno-linguística Bantu cujo conceito de fronteiras territoriais (NETO, s/d.[a]) era-lhes alheio  pois, ao contrário, a extensão geográfico-fronteiriça para os europeus foi, deveras, uma questão cimeira na luta pela sobrevivência político-institucional dos poderes instituídos.

OS DONOS MAIS ANTIGOS
DE ANGOLA, OS NÃO-BANTU

Povoamento Khôy-saan.
O espaço restringido à República de Angola, esteve sempre povoado por comunidades proto-históricos (ERVEDOSA, 1980) cujos antepassados tenham pertencido a vários grupos, no caso de Khôy-saan (REDINHA, 1975), de cultura cruzada entre Khôy-khôy e Saan falantes de línguas monossilábicas (V/A, 1963:37) que, pela fraqueza do progresso da ciência, as suas origens (ERVEDOSA, 1980) por situar, quer do ponto de vista sincrónico, quer diacrónico, ainda não se divulgaram. Constituintes de culturas de menor envergadura há 40 anos atrás, confinaram-se geralmente nas zonas montanhosas e estepes meridionais de Angola entre as localidades de Mupa, no baixo Kunene e Rwakaná (ESTERMANN, 1961).
São Bosquímanes, por terem sido encontrados por europeus nas florestas de boskop e em florisbad, caracterizados pelo seu modus vivendi e pelo respectivo habitat em grutas, considerados não-Bantu pelos aspectos antropo-morfológicos, quer hematológicos (cfr., op. cit.), por apresentarem uma pigmentação acastanhada, quer em termos culturais, fundamentando a sua economia natural como a caça e colheita de tubérculos tratando-se de “um povo misterioso e esquecido de caçadores-colectores nómadas com uma História rica e variada”, segundo caracterização de M. Conceição Neto .
Confundido com os Kazama chamam-se Vàkwê, singular de ùkwê e Vàhúkwê, singular de ùhúkwê ou húkwê mas por manifestarem hábitos e costumes diferentes dos grupos etnolinguísticos Bantu, passaram a cognomes indecorosos tais como Vakwankwala, singular de ukwankwala, Vakamusekele, singular de kamusekele ou usekele, Vakakwengu ou Vakwengu, singular de kakwengu ou kwengu.

Povoamento Vátwâ
Uma outra etnia constituída por população um tanto quanto nómada, se conhece por Vátwâ ou Ovátwâ, disseminada pelo interior das províncias da Huíla, do Kunene, Kuando Kubango Namibe e Benguela (ESTERMANN, 1961), respectivamente, a si próprio designados por Vakwambundyu ou Vakwambundya (GOMES, 2007) mas conhecidos pelas vizinhanças por Vakwisi, singular de mukwisi e os Vakwepe (REDINHA, 1975), singular de mukwepe, conhecidos entre si por Kway-tsi, o mesmo que donos da terra, - vakwa si, tu vakwa si.
Vulgarmente conhecidos por Kurôkas em função da localização etno-geográfica em que estão inseridos, pelo menos, até meados do séc. XX, os Vakwepe pareciam terem se miscigenado nos Ovimbundu do planalto, em virtude de algumas similitudes encontradas nas características socioculturais de ambos. Kurôka, toponímia que da o etnónimo em causa, deriva do verbo okuloka, querendo dizer descer e designa um rio com a nascente em Chianje que atravessa o deserto do Namibe pelo sul ao litoral, desaguando ao norte do Tômbwa.
Quanto às características peculiares, constatam-se serem detentores de estruturas políticas com evolução determinante na história dos povos e no seu conjunto procuram afastar-se das socioculturas de maior envergadura ou, por simples contágio, destes adoptam a língua e demais valores importantes como é o caso de instituições (GOMES, 2007) a exemplo do que ocorre no Dombe-Grande.
No seu todo, do ponto de vista económico, as comunidades de origem etnolinguística não-Bantu contentam-se com os resultados da natureza que a eles se têm adaptado além da endogamia (GONZAGA, s/d:38) e o reduzido número de famílias que lhes são característicos, constituindo motivos suficientes da fraca densidade populacional.

PROCESSO
DO POVOAMENTO BANTU

A principal paisagem sociocultural de Angola é fundamentada por grupos etno-linguísticos Bantu que (LIMA, 1964), difundindo-se de Camarões, a partir do vale do Benué, afluente do Níger, expandiram-se em largos territórios adstritos ao Mar Vermelho, cujo processo migracional de 943 a.C. flectiu do Shabá  aderindo ao que é República de Angola, há mais de dois mil anos. Quanto ao assunto testa N. Gonzaga (s/d:38) que “Mas’Oudi que percorrera a Índia, o Ceilão, o Mar da China, o Índico, Madagáscar e a Pérsia, encontrou essa massa, certamente intercalada apenas entre Zanzibar e o Nilo”, dando respostas essenciais aos problemas ecológicos contribuíram na procura de outras realidades para a promoção de actividades agrícolas, caça e pastorícia.
O exercício do poder político para os africanos teve em conta, e continua tendo, o controle sobre as dinâmicas humanas e o consequente património cultural que espaços geográficos propriamente ditos (NIANE, 2010). No decurso do processo migracional da raiz ntu de muntu, o mesmo que pessoa humana, singular de Bantu, a religiosidade foi mais evidenciada que o território por se tratar de propriedade comunitária.
Na perspectiva de M. Conceição Neto (1999:13) “se compreende que ao longo da história destes povos (...) na busca de condições favoráveis ao seu desenvolvimento, tenha permitido recrear poderes, renovar espaços, enriquecer culturas num processo contínuo e dinâmico”, relevando a ausência de correspondência das fronteiras político-culturais, porém o factor sociocultural sempre teve um peso forte para o equilíbrio das nações africanas.
Resultantes de processos de desenvolvimento das forças produtivas tributárias, condicionadas ao progresso da exploração da metalurgia (DAVIDSON, 1981), a disseminação não linear dos povos da fala Bantu, pela África Central e Austral (NIANE, 2010), por importantes complexos socio-políticos do mesmo embrião incluiu Angola distribuída entre Bakhongo , plural de kikhongo; Ambundu (COELHO, 2010), plural de kimbundu; Ovimbundu, plural de ocimbundu ; Balunda, plural de cilunda ; Baluba, plural de ciluba ; Valwimbi (cfr., V/A, 2002), plural de lwimbi; Vacokwe , plural de cokwe ; Vanyaneka , plural de nyaneka; Vahelelo, plural de cihelelo ; Vankhumbi, plural de mukhumbi ; Ovambo, plural de ocivambo ; Vaxindonga, plural de xindonga, etc., correspondendo com mais de metade da população cuja influência determinou a paisagem sociocultural nacional (REDINHA, 1975).
Entretanto, os europeus tentaram justificar a sua presença, demonstrando em vão que os falantes da raiz ntu, o mesmo que alma, teriam chegado neste território em simultâneo com eles. Para consolidar esta tese eurocêntrica rematando em como o muntu (GONZAGA, s/d) “não possuía História e por isso agrafo” a antropologia cultural ocidental, “a uma outra distância, esforçava-se ver o africano à mesma luz obscura: como ser de camadas inferiores e a quem a civilização, se quisesse sobreviver, tinha que manter firmemente no seu lugar. Justificando os 500 anos em África, tudo fizeram pois, segundo B. Davidson (1981:26) os ocidentais tinham “tendência para pensar nos africanos não apenas como crianças incapazes de crescer, mas também como crianças agressivas e potencialmente perigosas”.
Lê-se de N. Gonzaga (op. cit. p.35), que o extravasamento de uma mole, mais ou menos considerável, atingindo zonas de Angola, é, não apenas ligeiramente ulterior, como historiadores aceitaram, ao desembarque, no Zaire, dos nautas de Diogo Cão, mas, algo posteriormente à radicação dum sem número de núcleos portugueses colonizadores.
Em história de Angola sobre o (re)assentamento etno-linguístico Bantu, os caçadores-guerreiros interpretam a fundação de estados unificando as nações, mas não eram produtores da metalurgia que usavam nas actividades que os caracterizavam; a guerra e a caça, razão de estabelecimento de alianças entre sistemas matrilineares, o mesmo que agricultores e patrilineares o mesmo que caçadores. Vagas de chefaturas uterinas sucessivas não lineares, assentaram este território vindos do Shabá (NIANE, 2010). Para tal atravessaram os vales Kasay, Kwangu (CARVALHO, 1997)  e projectaram-se pela margem direita do rio Longa ao Kwanza junto do planalto da Matamba  ao Khongo  (MILLER, 1995). Porém, existiram aqueles que continuaram pelo planalto ao litoral centro-sul (CARVALHO, 1997) enquanto as patrilineares flectiram ao longo da margem do Kunene ao norte fora. O processo migracional destes povos constitui o fundamento antropológico da emersão do ambiente natural (DIAS, 1961) de Angola pois, um aspecto fundamental no estudo das sociedades endógenas a tomar em consideração é o ambiente povoacional como elucida Jorge Dias (1961:57) dizendo que, se na ciência evaida (sic) de tendências finalistas, ou submetida a uma rígida concepção determinista, não resiste à crítica dos tempos modernos, também não é menos certo que a natureza desempenha um papel extremamente importante na maneira como se processa a adaptação de cada sociedade ao ambiente natural em que se fixou. Depois de tentativas de estudos arqueológicos de 1966 de Desmond Clark, citado por C. Ervedosa (1980:52), deixando patente a divisão da paisagem etnográfica de Angola em três regiões ecológicas correspondendo igualmente com três linhas fronteiriças de culturas líticas, mais ou menos distintas, em 1974 foi divulgado o mapa etnográfico (REDINHA, 1975) caracterizando a paisagem sociocultural de Angola adequada às fronteiras coloniais (SANTOS, 1969[a]) de 1926 (V/A, 1999) com cerca de 10 complexos distribuídos em cerca de 100 subgrupos etnolinguísticos (cfr. Redinha, 1970).

Armindo Jaime Gomes (Arjago)

CONTINUA NA PRÓXIMA EDIÇÃO

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