Um Jornalismo de Combate pela Liberdade ­­e Autonomia

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O livro História e Evolução da Imprensa Brasileira (Rio de Janeiro, 1940), de Licurgo Costa e Barros Vidal, afirma na sua página 15 que no século XVIII existia um prelo mecânico em Luanda e outro em S. Salvador do Congo (Mbanza Kongo).

Um Jornalismo de Combate pela Liberdade e Autonomia
Alfredo Troni

Vários estudiosos na matéria, entre eles Júlio de Castro Lopo, apesar de terem investigado a veracidade desta informação, nunca conseguiram encontrar provas documentais que a sustentassem. Mais recentemente, em 1982, Laurence Hallewell publicou em Londres uma obra sobre a História da Imprensa onde afirma que no final do século XVI, chegaram as primeiras máquinas impressoras a África, pela mão dos missionários portugueses, que as instalaram nos seus colégios da Ordem dos Jesuítas, em Luanda e S. Salvador do Congo (Mbanza Congo). Mas não se conhece nenhum documento impresso desse tempo.
O que sabemos de fonte segura é que o primeiro órgão de Informação em Angola foi o Boletim do Governo-Geral da Província de Angola e que começou a circular no dia 13 de Setembro de 1845, era governador Pedro Alexandrino da Cunha, um oficial da Marinha de Guerra, que deixou obra na então colónia de Angola. A população de Luanda, agradecida, mandou erigir-lhe uma estátua em bronze, no largo fronteiro ao Palácio dos Correios.
A imprensa oficial começou a ser montada em 1836, ano em que o ministro das Colónias decretou que todas as “possessões ultramarinas” tivessem a sua folha oficial para publicação de despachos, decretos e outros documentos da Administração Pública. O prelo foi despachado de Lisboa, ficou guardado num qualquer armazém do almoxerifado durante mais de sete anos e só quando Pedro Alexandrino da Cunha desembarcou em Luanda, o Boletim do Governo chegou ao público. Angola foi a primeira colónia a ter uma folha oficial. No dia 13 de Setembro, um sábado cheio de luz e sol, a Imprensa nasceu em Angola. Era ainda a chamada “Imprensa Oficial”. Poucos anos mais tarde, um punhado de intelectuais, animados pela ideia libertária e socialista, criaram os alicerces da “Imprensa Livre” em oposição à folha emanada do quartel-general do governador.
Pedro Alexandrino da Cunha tomou posse em 6 de Setembro de 1845 e no dia 13 do mesmo mês, era publicado o primeiro exemplar de um jornal em Angola. É evidente que o novo governador, que substituíra Lourenço Possolo, trazia ordens rigorosas para dar cumprimento ao despacho do ministro das Colónias. Mas em Luanda existia um prelo muito mais moderno, com tipos de excelente qualidade, servido por oficiais tipógrafos, com o armazém cheio de papel do melhor e tintas de fino pigmento, tudo importado de Londres, na época o centro mundial da Imprensa, onde se destacava o circunspecto Times. Essa tipografia particular estava nas mãos erradas de um libertário madeirense, deportado para Luanda “por crime revolucionário”. Era ele Arsénio Pompílio Pompeu de Carpo.
O deportado era um intelectual e homem de cultura. Assim que foi libertado das celas da fortaleza de S. Miguel logo dinamizou um grupo de teatro amador onde era actor principal. Ele acrescentou ao seu nome verdadeiro, Pompeu de Carpo, mais os nomes de Arsénio e Pompílio, nomes de personagens que ele havia representado como actor amador. A comunidade europeia, na época, era muito pequena e maioritariamente analfabeta. Até os oficiais das tropas de ocupação eram analfabetos, porque nas leis de então, só o sargento-mor era obrigado a saber ler e escrever. Os oficiais, muitos deles oriundos de famílias nobres, não precisavam de se submeter à aprendizagem da leitura e da escrita. Deportado mas longe da cela do presídio, Pompeu do Carpo começou a trabalhar e em tempo de árvore das patacas fez fortuna rapidamente. Dominava perfeitamente o inglês e essa particularidade permitiu-lhe iniciar uma bem-sucedida carreira de agente comercial, representando as melhores casas de Londres. Foi esta relação que lhe permitiu adquirir um moderno prelo mecânico e excelentes tipos. De Portugal importou os mestres tipógrafos.
O prelo da Imprensa Nacional era de má qualidade e os tipos ainda piores. O Boletim Oficial ressentia-se dessa debilidade técnica. Pompeu do Carpo viu aí uma forma de adquirir a liberdade plena. E ofereceu a Pedro Alexandrino da Cunha a sua oficina completa e trespassou para o Governo-Geral os mestres e sabedores tipógrafos. Pedro Alexandrino da Cunha pagou-lhe, levantando a pena de degredo que impendia sobre o libertário madeirense. Para mostrar o seu patriotismo ao representante do rei de Portugal na terra, Pompeu do Carpo fez-se coronel de segunda linha e chegou a comandar as guarnições do Bailundo e do Bié. O Governo do Reino fez dele comendador. Mais livre para os negócios, Pompeu do Carpo em breve era um dos homens mais ricos de Luanda. E enquanto a sua maquinaria gráfica imprimia a folha oficial, ele já congeminava com outros libertários a importação de mais prelos mecânicos.
O governador mandou prender Pompeu do Carpo e o revolucionário fez o percurso inverso, seguiu a ferros para a Metrópole e chegado a Lisboa foi encarcerado no castelo de S. Jorge. O libertário estava de novo a conspirar e desta vez criando na sombra uma indústria gráfica para imprimir jornais que proclamavam a liberdade de Imprensa e a autonomia de Angola. Pompeu do Carpo tinha muito dinheiro e em breve comprou a sua liberdade. Em 1848, já estava em Londres a negociar com os seus parceiros ingleses a construção de uma via-férrea entre Luanda e Kalumbo. O comboio era na época um transporte moderno e revolucionário. No coração da sociedade industrial, Pompeu do Carpo também comprou máquinas a vapor para uma serração de madeiras, a instalar nas matas do rio Kwanza. E encomendou aos engenheiros ingleses um projecto arrojado para canalizar a água do Kwanza até Luanda. Os seus sonhos foram atirados por terra pelo poder instituído, que lhe moveu uma perseguição impiedosa até conseguir aniquilá-lo social e economicamente. Em 1854, a Junta de Justiça de Luanda dava Pompeu do Carpo como indigente. Mas enquanto não sucumbiu, ele escreveu e pôs a circular na cidade de Luanda panfletos ácidos, textos de fino recorte literário que demoliam o poder, o governador e a sua corte corrupta e analfabeta. Pompeu do Carpo foi, nesta época, o mais temido dos panfletários. Mas todos os intelectuais do seu tempo, europeus ou africanos, eram terríveis polemistas e panfletários. Foi assim que nasceu a Imprensa Angolana. Num clima panfletário e libertário.
O Boletim do Governo seguia os seus passos, distintamente impresso na tipografia oferecida por Pompeu do Carpo. Em 1845, a folha oficial dava uma notícia social. A Assembleia de Luanda, onde se juntava a alta burguesia europeia e africana, ia dar um baile em homenagem ao governador Pedro Alexandrino da Cunha. Mais tarde, publicava um anúncio comercial. O comerciante Valentim José Pereira dava nota pública de que era comprador de todas as folhas de tabaco que lhe aparecessem. Em 1846, o Boletim Oficial (em 13 de Setembro de 1845, mudou de nome) dava a sua primeira notícia cultural. O Teatro Providência, ali na Rua dos Mercadores, levava à cena a peça “O Fugitivo da Bastilha”. Desde então, o Boletim Oficial passou a ser um verdadeiro jornal mas controlado pelo Governo-Geral. Por isso, os intelectuais da época, decidiram criar a Imprensa Livre, em oposição à Imprensa Oficial. E não demorou muito tempo.

OS PIONEIROS
DA IMPRENSA LIVRE

Em 1852, surgiu em Luanda o anuário Almanak Statistico da Província d’Angola e suas Dependências. Nunca mais saiu qualquer outro exemplar. Por esta publicação ficámos a saber que em Luanda, nesse ano, existiam “74 negociantes e lojistas”. Nesta lista, sobressaía o nome de uma senhora: Dona Ana Joaquina, de seu nome completo Ana Joaquina dos Santos e que mais tarde, pelo casamento, ganhou o sobrenome de Silva. Em 1856, nasceu o “jornal literário e de entretenimento” A Aurora mas teve uma vida efémera. No dia 6 de Dezembro de 1866 nasceu em Luanda o primeiro jornal privado, com consistência e continuidade, que teve como fundadores os advogados António Urbano Monteiro de Castro e Alfredo Júlio Cortês Mântua. O título era A Civilização da África Portuguesa e o subtítulo Semanário dedicado a tratar dos interesses administrativos, económicos, agrícolas e industriais de Angola e S. Tomé. Além dos dois advogados, o jornal teve ainda como fundadores João Feliciano Pederneira, comerciante de Pungo Andongo, Feliciano da Silva Oliveira, comerciante de Cambambe e Francisco António Pinheiro Bayão, funcionário público de Luanda.
O jornal entrou a matar e o governador-geral pediu autorização ao ministro das Colónias para proceder ao seu encerramento. Urbano de Castro e Mântua defendiam e apoiavam abertamente a guerra dos Dembos contra a coroa portuguesa. Os feitos de Kazuangongo eram glorificados. No fundo, os dois polemistas eram porta-vozes dos comerciantes de Luanda, que exigiam do governo o fim das guerras de kwata-kwata, porque estavam a causar sérios prejuízos ao comércio local e à permuta dos pombeiros. A poderosa Associação Comercial de Luanda também pressionava o governo no sentido de acabar com a guerra. Os comerciantes aceitavam de bom grado pagar portagem aos Dembos na passagem para o reino do Congo. O que eles queriam era negócio e nos Dembos existiam minas de ouro! Ou pelo menos era essa a crença dos comerciantes.
O governador-geral desesperava com a falta de resposta da Metrópole e Urbano de Castro destroçava o governador e os seus mais próximos colaboradores. O governador mandou uma última carta para Lisboa implorando ao ministro que o autorizasse a encerrar o jornal – “uma folha facciosa e turbulenta”, segundo o governador - porque “publica artigos subversivos da ordem pública” e provoca um “clima de anarquia total”. Um ano depois da sua fundação, finalmente chegou a ordem de encerramento do jornal. A polícia irrompeu pela Redacção e prendeu Urbano de Castro e Alfredo Mântua. O prelo foi apreendido.
Luanda era nesta época território de aventureiros de todas as origens, militares ociosos, chusmas de brasileiros, visionários, clérigos venais, missionários sem missões e umas escassas dezenas de comerciantes. A comunidade europeia nem sequer conseguia povoar o litoral. Para além de Luanda, os outros centros importantes eram Benguela e Moçâmedes (Namibe), de resto os únicos centros urbanos que tinham Poder Judicial instituído. Luanda e Benguela eram cidades com uma percentagem muito elevada de mestiços. Entre eles despontavam alguns dos que viriam a ser os grandes jornalistas do último quartel do século XIX.
Urbano de Castro e Mântua não se renderam ao poder instituído e com outros intelectuais da época partiram para outros projectos da Imprensa Livre. Em 9 de Julho de 1870, nasceu O Mercantil, um jornal com grande qualidade gráfica e com seis páginas! Na época, o usual eram jornais com a primeira, a última e as páginas centrais. De vez em quando era encartada uma quinta folha. E só excepcionalmente os jornais eram compostos de oito páginas. Este periódico possuía prelo próprio, nas suas oficinas da Rua Direita do Bungo.
O Mercantil fez época em Luanda. Urbano de Castro esteve ligado a este jornal. O director e proprietário era José Pinto da Silva Rocha, jornalista e publicista de grande mérito. O jornal já tinha uma estrutura profissional, apesar do estilo panfletário e contestatário do poder instituído. Neste jornal colaboraram figuras como Henrique de Carvalho (o general que deu o nome a Saurimo) ou Lopes de Mendonça, um oficial da Marinha de Guerra que no advento da República em Portugal foi autor da letra do hino nacional português. O jornal tinha correspondentes em Lisboa, Paris e na Baía, Brasil.
Silva Rocha fez, indubitavelmente, o melhor jornal da época da Imprensa Livre. Mas as suas posições contestatárias despertaram a fúria do governador que mandou o comandante da polícia de Luanda encerrar o jornal e apreender o prelo mecânico. O Mercantil tinha o apoio da Associação Comercial de Luanda e numa longa exposição ao ministro das Colónias, foi pedido o levantamento da interdição do jornal. O ministro Andrade Corvo, em 12 de Abril de 1873, ordenou o levantamento da interdição e O Mercantil voltou de novo ao convívio dos leitores. Mas durante o tempo de suspensão, Silva Rocha usou de um expediente notável. Lançou o jornal Notícias de Loanda, com o subtítulo Á Sahida do Bengo (sic) exactamente igual ao jornal O Mercantil. E quando a suspensão foi levantada, o director do jornal editou uma revista “para compensar os assinantes”. A publicação tinha 60 páginas, com uma paginação arrojada para a época, obra do próprio Silva Rocha.
O governador-geral perseguiu pessoalmente Silva Rocha e só largou a preza quando ele já estava depauperado economicamente e crivado de dívidas. Para o escândalo não ser grande, o governo ofereceu-lhe o cargo de administrador numa aldeia perto do Lobito, Jixitu, hoje conhecida como Egito e lá morreu sozinho e amargurado.
Em 18 de Setembro de 1867 nasceu o jornal semanário O Commercio de Loanda, também com tipografia própria. Urbano de Castro e seu companheiro Alfredo Mântua foram atacados violentamente neste jornal, propriedade de José Mendes Affonso, presidente do Tribunal da Relação de Luanda e que, por força do seu cargo oficial não podia dar a cara. O magistrado era apontado pelos dois polemistas como venal e corrupto. Em 1872, surgiu mais um anuário, o Almanach Popular só saiu o primeiro número. Em 1873, nasceu o semanário Cruzeiro do Sul. Este jornal, onde pontificava o padre Castanheira Neves e o inevitável Urbano de Castro, já teve como fundadores jornalistas africanos. Em 1882, nasceu o semanário A União Africo-Portuguesa, ainda sob o génio e a influência de Urbano de Castro.
Quem era este jornalista? Foi escrivão de Direito e advogado. Mas destacou-se como jornalista, panfletário e polemista. A sua pena era letal. Chegou a ser vereador da Câmara de Luanda, pese embora as suas opções políticas libertárias. Traduziu textos do alemão e do inglês para português. Os comerciantes do Dondo, detentores da companhia de vapores do Kwanza, ofereceram-lhe uma pena de ouro cravejada de brilhantes, por relevantes serviços prestados à causa do comércio. Os grandes jornalistas, escritores e políticos Pinheiro Chagas e Oliveira Martins renderam-lhe as suas homenagens. Nada mais se pode dizer de um jornalista brilhante, pioneiro da Imprensa Livre em Angola.
Alfredo Troni foi um excelente seguidor dos combates de Urbano de Castro e Alfredo Mântua, os dois pioneiros da Imprensa Livre. Advogado, jornalista e cronista brilhante, veio de Coimbra para Luanda servir o Poder Judicial. Mas em breve se rebelou contra o poder personificado no governador e sua corte. Alfredo Troni, em 7 de Julho de 1878, fundou o Jornal de Loanda, com tipografia própria e sede na Rua Diogo Cão. O governador-geral foi vítima da sua pena brilhante. E quando Troni, pelos seus afazeres de advogado, teve de se ausentar da trincheira do jornal, contratou um jornalista de primeira água, Ladislau Batalha, na época um dos mais brilhantes arautos do socialismo. Batalha, que tinha um espírito aventureiro, estava em S. Tomé a tirar notas para um romance quando recebeu o convite de Alfredo Troni. Ele embarcou de imediato na célebre barca a vapor Flor de Loanda e desembarcou em Angola mais morto que vivo. Troni alojou-o numa pensão de luxo e no dia seguinte Ladislau Batalha começou a zurzir no governador e em todos os que se opunham às ideias socialistas de Alfredo Troni ou aos seus numerosos negócios. Um dia Ladislau Batalha desapareceu. Perdeu-se de amores por uma senhora negra e foi com ela algures para o Norte de Angola. Apareceu anos mais tarde em Lisboa e escreveu em livro as suas memórias e aventuras africanas. Um livro delicioso!
Alfredo Troni perdeu o seu Jornal de Loanda mas não cruzou os braços. Em 1888, da sua tipografia privada saía o celebérrimo jornal Mukuarimi (o maldizente?). As oficinas gráficas do Bungo passaram a chamar-se Typographia do Mukuarimi. O jornal seguiu o seu caminho sem Ladislau Batalha e Troni teve que puxar das pistolas de ouro e mostrar quanto valia como jornalista e cronista. Esta série é a que melhor revela o talento e a arte daquele que foi um dos maiores cronistas de sempre da Imprensa Angolana e um dos mais notáveis de língua portuguesa.
No ano de 1872, a Maçonaria instalou-se em Angola, primeiro em Luanda e logo a seguir na vila da Catumbela. Pouco tempo depois esta loja maçónica transferiu-se para Benguela onde fez obra de grande vulto. A Maçonaria também teve os seus jornais de combate. O mais importante de todos foi A Defeza de Angola (1903), um bi-semanário, servido por jornalistas profissionais que se deslocaram de Portugal para Luanda. O jornal tinha tipografia própria de grande qualidade, comprada por subscrição pública. O comerciante Farinha Leitão foi um dos que mais se destacou na criação de condições para o apetrechamento gráfico do jornal.

A LISTA DOS PERIÓDICOS

Em Luanda: Boletim do Governo-Geral da Província de Angola (1845), Almanak Statistico da Província d’Angola e suas Dependências (1852), A Aurora (1856), A Civilização da África Portuguesa (1866), O Commercio de Loanda (1867), O Mercantil (1870), Almanach Popular (1872), O Cruzeiro do Sul (1873), O Meteoro (1873), Correspondência de Angola (1875), Jornal de Loanda (1878), Noticiário de Angola (1880), Boletim da Sociedade Propagadora de Conhecimentos Geographico-africanos de Loanda (1881), Gazeta de Angola (1881), O Echo de Angola (1881), A Verdade (1882), O Futuro d’Angola (1882), A União Africo-Portugueza (1882), O Ultramar (1882), O Pharol do Povo (1883), O Raio (1884), O Bisnagas (1884), O Arauto dos Concelhos (1886), A Tesourinha (1886), O Serão (1886), O Rei Guilherme (1886), O Progresso d’Angola (1887), O Exército Ultramarino (1887), O Imparcial (1888), O Foguete (1888), Mukuarimi (1888), Arauto Africano (1889), Nuen’exi (1889), O Desastre (1889), Correio de Loanda (1890), O Chicote (1890), O Polícia Africano (1890), Os Concelhos de Leste (1891), Notícias de Angola (1891), Commercio d’Angola, 1892, A Província (1893), O Imparcial (1894), o Independente (1894), Bofetadas (1894), Propaganda Colonial (1896), O Santelmo (1896), Revista de Loanda (1896), Propaganda Angolense (1897), A Folha de Loanda (1899).
Em Benguela: O Progresso (1870) e A Semana (1893).
Em Moçâmedes (Namibe): Jornal de Mossamedes (1881), Almanach de Mossamedes (1884), O Sul d’Angola (1892), A Tesoura (1892), A Tesourinha (1892) e A Bofetada (1893).
Na Catumbela: A Ventosa (1886).
No Ambriz: A Africana (1893).
Angola, no século XIX tinha 59 jornais. Em Luanda foram editados 49, seis em Moçâmedes (Namibe), dois em Benguela e um no Ambriz.

JORNALISTAS AFRICANOS

Em todos os jornais da época existiam jornalistas africanos, até porque os filhos da burguesia negra caprichavam no domínio da língua portuguesa e quase todos tinham estudos primários e secundários quando não universitários. Entre os jornalistas africanos negros do século XIX merecem destaque alguns nomes, porque eles foram os melhores do seu tempo, os primeiros entre os seus pares, fossem africanos ou de origem europeia. Foram eles João da Ressurreição Arantes Braga, cuja família deu origem ao famoso muceque Braga, lugar de infância de Luandino Vieira e que ficava onde é hoje o bairro do Café e tinha como fronteira a Norte o local onde é hoje a igreja Sagrada Família; José de Fontes Pereira, Pedro da Paixão Franco, Sant’Anna Palma e Augusto Bastos.
O jornal Echo de Angola (12 Novembro de 1881) foi o primeiro jornal exclusivamente propriedade de angolanos e cuja Redacção era composta também por jornalistas africanos negros. Entre os seus redactores estava José de Fontes Pereira, justamente considerado um mestre do jornalismo luandense do último quartel do século XIX. Quando faleceu, era o decano dos jornalistas angolanos e Sant’Anna Palma, outro jornalista negro, no seu elogio fúnebre, considerou-o o melhor entre os melhores. José de Fontes Pereira recusou o clima panfletário da época, as polémicas e fez um jornalismo inteligente e sóbrio. Colaborou em várias publicações de Urbano de Castro, mas deu sempre uma nota de sobriedade, rigor e grande profissionalismo. Também foi um dos mais valiosos colaboradores do jornal O Mercantil, considerado unanimemente como o melhor jornal da fase da Imprensa Livre.
Como advogado defendeu os direitos fundamentais de africanos e europeus. Desencadeou na Imprensa campanhas contra o alcoolismo. Foi um defensor fervoroso dos bons costumes e da cultura. Quando faleceu em Luanda, a 3 de Maio de 1891 (foi sepultado a 4 de Maio no Cemitério do Alto das Cruzes) o jornal O Desastre, concorrente e adversário do Echo de Angola dedicou um suplemento de duas páginas (num total de quatro páginas que tinha o jornal) a José de Fontes Pereira. Num artigo assinado pelo jornalista negro Mamede de Sant’Anna e Palma, director e proprietário do jornal, o decano dos jornalistas angolanos foi considerado um “verdadeiro mestre”.
Uma notícia da época dizia que “o enterro teve lugar no dia 4, às cinco horas da tarde tendo saído o préstito da Rua D. Miguel de Mello (casas do capitão Pedro de Sousa) para a igreja do Carmo, onde foi encomendado o cadáver”.
Arantes Braga, um angolano também negro, é fundador do jornal Pharol do Povo, subtítulo Folha Republicana. Foi o primeiro jornal de Angola que em plena monarquia, numa fase de tremenda repressão, se declarou defensor dos ideais republicanos. É considerado o mais arguto jornalista africano na produção de jornalismo político.
Pedro da Paixão Franco foi o mais mediático de todos os jornalistas africanos negros do século XIX. Além de jornalista, foi escritor de mérito, deixando a obra em dois volumes, História de uma Traição. Colaborou em praticamente todos os grandes jornais portugueses da época, assinando artigos despachados de Luanda, muito apreciados pelo público leitor. Além de jornalista e escritor, Pedro da Paixão Franco foi funcionário dos Caminhos-de-Ferro de Malange. A sua certidão de óbito diz que morreu de pneumonia. Mas Pedro da Paixão Franco terá sido envenenado por uma bela senhora africana que o seduziu e chamou para uma armadilha. Antes de morrer ainda teve tempo de revelar com quem esteve e o que comeu e bebeu em casa dessa senhora.
O livro História de uma Traição era muito crítico de algumas famílias tradicionais negras. Mas Pedro Paixão Franco era também oriundo de famílias da burguesia negra. Sua mãe era Maria Francisca de Assis e seu pai Pedro da Paixão Franco. Ambos pertenciam à alta burguesia da época. Ao escrever o livro assinou a sua sentença de morte. A obra, em dois volumes, foi despachada do Porto (onde foi composta e impressa) para Luanda. Quando o caixote com os volumes estava na Alfândega, desapareceu e ao que se sabe, foi queimado. Sobraram alguns exemplares que Pedro da Paixão Franco recebera na mala do correio. Nos anos 50 do século XX o povo ainda cantava canções em kimbundu de homenagem a Pedro da Paixão Franco.
Este jornalista é fundador do Semanário Angolense (1907).
A história do jornalismo Angolano do século XIX encerra com duas figuras ímpares: Augusto Bastos, de Benguela e Júlio Lobato, um angolano de origem europeia. Augusto Bastos era filho de uma negra e de um comerciante português. Os seus dotes de inteligência levaram o pai a enviá-lo para Portugal, onde fez estudos secundários. Quando se matriculou na Faculdade de Medicina de Lisboa o pai faleceu e ele ficou sem recursos financeiros para continuar em Portugal. Nos últimos anos do século XIX já era um dos jovens talentos do jornalismo angolano.
Júlio Lobato era igualmente um jovem e talentoso jornalista que começou a sua carreira profissional na Imprensa Livre do último quartel do século XIX. Explodiu nos primeiros anos do século XX e em 1908 fundou o jornal A Voz de Angola que tinha como legenda: Libertando pela Paz; Igualando pela Justiça; Progredindo pela Autonomia. Este jornal tinha um contrato com a agência Reuter e publicava todas as semanas noticiário de Londres. Pela primeira vez um jornal de Angola assumia em subtítulo que era defensor da autonomia de Angola. A repressão caiu sobre Lobato e o seu jornal, mas a semente ficou, germinou e os frutos estão à vista no Jornal de Angola e no Jornal de Desportos.
ARTUR QUEIROZ

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