Um texto Premonitório encontrado em Luanda

Envie este artigo por email

Estávamos em 2002. Chovia em Luanda. Era uma chuva voraz de Abril cujas águas arrastavam tudo o que encontrassem no seu caminho.

E numa quinta-feira de manhã, dia onze, quando desci para verificar os níveis de água e óleo do meu calhambeque, nome que nas conversas com a minha mulher eu dava ao meu carro comprado em segunda mão, vi amarrado com uma corda um envelope grande e lá dentro, já a desfazerem-se, quase uma centena de folhas tingidas por tinta de caneta e compactadas pela água da chuva. Um dos miúdos que lavavam os carros dos moradores do prédio disse-me que tinha sido um kota que parecia maluco e que na noite do dia anterior tinha colocado ali as folhas.

Preso por um clip estava um envelope pequeno contendo uma mensagem. Ao recolher o original e advertido pelo miúdo, enchi-me de curiosidade. Desisti da ideia de sair de casa e subi as escadas dos dez andares do prédio. No silêncio do apartamento, já que àquela hora ficava habitualmente sozinho, queria satisfazer a avidez de descobrir algum fragmento legível daquele calhamaço. Não quis abandonar esse achado, atirando-o para o lixo como algo trivial. Desbravei o maço e lamentavelmente o único excerto que se podia ler bem é o que a seguir transcrevo.

Dois factos principais entre tantos ocorrerão em Angola no início de século. Em primeiro lugar, a consagração de uma geração de escritores, militares e políticos que entra na casa dos 40 e 50 anos de idade ­ dispostos a nunca mais repetir o que parecia ser o destino de um sofrimento infinito ­ e que está marcada pela experiência da guerra naquilo que são os seus efeitos, a subdividir em dois momentos: a) aquele que remete para a luta armada contra o colonialismo português; b) aquele que se verifica no pós-independência.

A linha de demarcação situa-se em 1975. Em qualquer um dos momentos, a mencionada geração sofre os efeitos mais horríveis, tendo em atenção a fase de desenvolvimento da personalidade por que passaram os seus membros. Foram as muletas do maniqueísmo ocidental que opunha as ideologias ou eufemismos da chamada guerra fria. No pós-independência foram actores no cumprimento do dever em nome de uma legitimidade histórica.

Em segundo lugar, neste início de século, o conceito de paz vai sofrer mudanças semânticas e a paz tornar-se-á efectivamente um direito com consagração constitucional...(falta aqui um pedacinho de papel).
Mas já agora não custa nada acrescentar um terceiro acaso que dará origem a processos de curta e longa duração em que destaco a construção de uma nova identidade angolana neste início de século.

No meu recanto da Psiquiatria de Luanda, neste início de século, tenho lido muitos livros dos que alguns escritores angolanos recomendam, quando abordam os processos identitários. Portanto, as minhas ideias são também tributárias ou devedoras de autores como Edward Said, Amin Maalouf, V.Y. Mudimbe.

Reli o fragmento mais de dez vezes. Reflecti longamente sobre as ideias-chave.
Na verdade, tudo indicava estar diante da escrita de um indivíduo culto cuja idade rondava provavelmente os 45 e 50 anos de idade. E não dava para ter dúvidas quanto ao facto de se tratar de alguém com grandes preocupações filosóficas.
Extrai as três ideias centrais: a formação de uma geração de escritores, militares e políticos; a semântica do conceito de paz e a inserção do direito à paz na gramática constitucional. Além disso, a recorrência da expressão início de século e a alusão aos três autores da chamada filosofia pós-colonial.

A minha perplexidade começou a tomar outros contornos, ao aperceber-me que esse autor anónimo vivia na Psiquiatria de Luanda. Não seria a referência a esse lugar uma estratégia que visava a surpresa? Resolvi escrever algumas linhas como resposta aos desafios que a alusão à psiquiatria e aquelas ideias representam hoje para qualquer Angolano. Mas quando me detive a pensar, apercebi-me que o texto trazia em letra miudinha uma data inscrita no canto esquerdo: 10. 10. 2000. Para já, há aqui uma coincidência nos números. A quinta-feira é de onze de Abril e a data em que presumi ter sido escrito o texto é dez de Outubro. A coincidência era deliberada. Até a quinta-feira em que encontrei o maço dos papeis, tinham passado sete dias sobre a data da assinatura pelas Forças Armadas Angolanas e representantes militares da UNITA e do já célebre Memorando de Entendimento do Luena.

Portanto, no que diz respeito aos números cujo simbolismo não é inocente, temos: 2,4, 7, 10, 11.
O 2, que representa o espaço de tempo que decorre entre 2000 e 2002, simboliza a reflexão dialéctica, exprime o triunfo da unidade sobre a oposição de elementos conflituantes. O 4 pode simbolizar as quatro portas de acesso ao conhecimento do mundo ( ar, fogo, água e terra), ou ainda as quatro virtudes cardeais, designadamente, prudência, temperança, justiça e força. O 7, número de dias entre a assinatura do acordo para o fim da guerra e a quinta-feira em que o texto me chegou às mãos, simboliza a perfeição e o todo humano feito de mulheres e homens. O 10 sendo a soma dos quatro primeiros números (1+2+3+4), pode simbolizar a restauração da unidade, o princípio de tudo. O 11, dia em que o encontrei o texto, simboliza o encontro para a fecundação, o transbordar das águas do rio para as margens, o nascimento do filho da mãe que tem onze aberturas.

O autor que então eu não conhecia tinha pensado em tudo isso. Só que o enigma não estava apenas no sentido premonitório dos números e das ideias, mas igualmente na alusão a determinados acasos do início de século. Fui entendendo que o autor anónimo pretendia ver-me transformado em disseminador das suas ideias. Ele sabia que a minha leitura desse texto poderia ser motivo para conversa com outras pessoas como estou agora a fazer.

Antes de prosseguir, interroguei-me sobre o sentido daquela constatação segundo a qual no pós-independência observa-se em Angola a formação de uma geração de escritores, militares e políticos. Esse autor que eu o ainda não conhecia, tinha razão ao sugerir aquela associação. Senti que a referência à Psiquiatria de Luanda levantava o problema dos efeitos desestruturadores da guerra sobre a psicologia do indivíduo. Emergia aí, do meu ponto de vista, a problemática da identidade individual, encontrando-se sempre no horizonte a dimensão colectiva dos processos identitários.

Paz, gerações e identidade, neste contexto, são termos que revelam a existência de uma certa memória partilhada e de um sentimento de pertença a um espaço físico e social que se chama Angola. Há uma identidade colectiva decorrente da experiência vivida pelos membros dessa geração e que no apogeu da sua vida activa assumirão inevitavelmente o ónus dos processos que conduzirão à construção de uma identidade nacional, que é a forma mais abrangente da identidade colectiva. Tudo isso numa perspectiva em que o critério e a medida de todos esses processos seja o Angolano de carne, sangue e osso, com as suas especificidades. E é aqui chamada a visão da universalidade dos valores, como diz Amin Maalouf. Mas uma universalidade que inspire a «luta contra a uniformização empobrecedora, contra a hegemonia ideológica, política, económica ou mediática, contra a unanimidade estupidificadora, contra tudo o que nivela as múltiplas expressões linguísticas, artísticas, intelectuais.»

A geração de escritores, militares e políticos de que fala o amigo anónimo e que vive na Psiquiatria de Luanda, há-de evidentemente desempenhar (e de certo modo já desempenha) o papel de elite, representando por isso o que de melhor existe em termos de capital humano na sociedade angolana, enquanto comunidade que partilha memórias, a história, a cultura e o destino.
Como observação final, detenho-me sobre o facto de o autor do fragmento em apreço ter referido que vivia na Psiquiatria de Luanda.

O sentido premonitório das suas ideias pareciam lançar luz sobre uma lucidez plena a respeito da realidade do país a que pertencemos. Se por um lado o internamento num hospital psiquiátrico é sinal de que se padece de uma doença mental, já o fragmento de texto dá uma ideia totalmente diferente. Quem escreve tem a perfeita consciência da sua segurança ontológica.
Fico apenas com a presunção de que ele seja louco ou doente mental. Como ele há certamente muitos Angolanos, ficando assim provado que ninguém pode reivindicar o direito de ser aprioristicamente o melhor, quando se tratar de responder às interpelações impostas em nome do destino comum.



Comentários

Newsletter


Colabore com o Jornal Cultura - Envie-nos os artigos da sua autoria.

Colaboradores Ver todos