Uma arte funerária rara em África

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Os quimbares eram africanos aportuguesados que vestiam panos da cintura para baixo, os homens vestiam calças e camisa e, por outro lado, as mulheres vestiam pequenas blusas cobrindo o busto, andavam descalços e viviam quer em Moçâmedes (Namibe), quer espalhados pelas várias povoações pesqueiras e agrícolas da colónia, entre Benguela e a Baía dos Tigres e entre Moçâmedes e o Lubango, Humpata e Chibia.

Uma arte funerária rara em África
Arte funerária mbali Fotografia: Ruy Correia de Freitas

Nos finais do século XIX, princípios do século XX, Moçâmedes não passava de uma pequena cidade onde vivia uma comunidade pouco numerosa, constituída por descendentes de colonos oriundos de Pernambuco que, por volta de 1850, deram origem à colonização do então distrito, dedicando-se, especialmente à agricultura, comércio e serviços, e, por volta de 1862, fixada junto às praias, uma outra colónia de gente oriunda especialmente de Olhão que se dedicava à pesca e às fainas do mar.
A par desta população de origem brasileira e portuguesa, existiauma população minoritária, os mbalis, também designados quimbares, do grupo etnolinguístico Herero que faziam parte da população negra permanente. Este grupo populacional era, maioritariamente composto por ex-escravos libertados de navios negreiros apresados, em consequência da abolição do tráfico de escravos para o Brasil e Américas, decretada em 1836, que passaram a prestar serviços nas diversas actividades económicas em formação, nomedamente na agricultura e pescarias, e também por elementos negros, recrutados, em meados do século XX, a partir de Luanda cujo objectivoprincipal, com base numa nova política colonial, o povoamento e desenvolvimento do território, pelo contacto com os brancos, usos e costumes europeus.
Este grupo integrava, ainda, ex-escravos ou livres que nos anos 1849 e 1850 tinham desembarcado em Moçâmedes na companhia de seus patrões, vindos de Pernambuco, para dar início ao povoamento branco da região.
Diferentes dos libertados em Angola, os oriundos do Brasil, possuiam uma cultura própria, ainda africana, mas já cristianizada, tocada profundmente por hábitos brasileiros adquiridos no contacto com os seus patrões nas relações de trabalho, o que é comprovado pelo facto de, na língua cuanhama, os termos bali, lwimbali ou vimbali, significarem "aqueles que andam com os brancos".

QUEM ERAM OS QUIMBARES?
Estava assim criado o núcleo populacional africano designado por "quimbar", saído da miscigenação entre povos de várias etnias e de diferentes proveniências, que, deslocados do seu meio, sem radicação étnica nem uma língua única, passaram a adoptar a cultura "quimbar", que era já uma mistura de costumes afro-europeus.
Os quimbares eram, pois, africanos aportuguesados que vestiam panos da cintura para baixo. Os homens vestiam calças e camisa e, por outro lado, as mulheres vestiam pequenas blusas cobrindo o busto. Andavam descalços e viviam quer em Moçâmedes (Namibe), quer espalhados pelas várias povoações pesqueiras e agrícolas da província, entre Benguela e a Baía dos Tigres e entre Moçâmedes e o Lubango, Humpata e Chibia.
Não andavam nus ou semi-nus, aocontrário de outros povos que deambulavam pelo deserto do Namibe, levando uma vida nómada ou semi-nómada, dedicando-se à caça, ao gado e ao pastoreio, ou vivendo nas margens dos rios Bero, Giraúl e Coroca, e que, praticamente, salvo raras excepções, nunca se deixou assimilar, não obstante os contactos e a proximidade que passaram a ter com os recém-chegados.

O CEMITÉRIO DE SÃO NICOLAU
Para se poder entender o que hoje se considera Arte Funerária Mbali, torna-se necessário recuar alguns anos para se poder localizar, com mais pormenor, o local onde se situa o mais conhecido e característico cemitério mbali de Angola, o Centro Prisional do Bentiaba, vulgo Cadeia de São Nicolau.
A cadeia de São Nicolau, no Bentiaba, localizada numa área entre montanhas e o rio Bentiaba, terá surgido em 1824 tendo sido oficializada como centro prisional em 1974, através do decreto 68/74 de 29 de Agosto e publicado no Boletim Oficial nº 201, primeira série, ocupando uma extensão territorial de quarenta e cinco mil hectares.
No tempo colonial serviu de prisão e lugar de tortura para muitos nacionalistas angolanos de entre os quais a família Chipenda, o pastor Baltazar Diogo,pai de Bornito de Sousa, o velho Mateus, pai do jornalista Ismael Mateus e Guilherme Tonet, pai do jornalista William Tonet.
Alguns destes nacionalistas angolanos, capturados pela tropa colonial na quarta região político-militar, permaneceram encarcerados em São Nicolau - entre 1968 e 1974 - com os respectivos filhos, acima referenciados.
É pois, nas imediações deste verdadeiro campo de concentração de má memória, e intimamente ligado à fazenda de S. João do Norte,que se encontra o Cemitério de São Nicolau, conhecido pelas campas que ostentam peças de arte funerária de origem mbali, a par das que podem, também, ser vistas no então denominado Cemitério Indígena de Moçâmedes.
Permitimo-nos aqui, socorrer de um artigo intitulado “Escultura Tradicional angolana e seu ensino ns escolas formais de Arte”, assinado por Francisco Van-Dúnem onde se refere «que, de acordo com Redinha, a Arte Mbali dedicou-se principalmente a desenvolver uma arte funerária expressa em campas e outro tipo de arte acessória como monumentos fúnebres. Ainda o mesmo autor refere que não obstante este tipo de arte ter tomado uma particular autonomia artística, ela provém de um processo de aculturação (interpenetração de culturas), devido ao facto de que esta arte é de costume e de inspiração europeia, trazida à Angola por um indivíduo que aprendeu o ofício em Portugal e ao voltar a Angola bantuizou-a. De acordo com Oliveira, a Arte Mbali surgiu apenas em meados do séc. XIX, tendo sido forjada entre elementos de várias etnias locais e por outras etnias vizinhas da província do Namibe, que assimilaram a cultura dos seus patrões de raça branca e aceitaram viver segundo um padrão moral em que os traços da cultura europeia se misturaram com certo êxito às contribuições da mentalidade dos autóctones. O mesmo autor acrescenta que a arte Mbali é essencialmente funerária representada por estelas de pedra, madeira ou cimento, sendo algumas estelas feitas em baixo relevo alusivos à pessoa morta e quase sempre encimadas por uma cruz de nítida inspiração europeia».

A ARTE FUNERÁRIA MBALI
O cemitério de São Nicolau, é um dos locais mais interessantes para o estudo da arte funerária Mbali e, sobretudo, da obra de um dos mais afamados canteiros negros, Victor Jamba.
Já se fez aqui referência que a arte Mbali se deve ao contacto cultural que se estabeleceu após a ocupação efectiva do então distrito de Moçâmedes, entre os europeus e a mão-de-obra negra. Trata-se de uma arte funerária que se caracteriza por cruzetas de pedra, especialmente talhadas na chamada pedra ferro, madeira ou cimento armado, mais ou menos trabalhadas, colocadas nas sepulturas, um ano após a morte dos indivíduos e por ocasião da festa da cruzeta. A elas é atribuída tríplice função, a identificação do morto, a sua veneração ea propiciação do espírito do morto que consiste no sacrifício ou oferta a uma divindade para lhe aplacar a cólera ou para a agradar. Assim era hábito dos canteiros inserirem nas cruzetas os utensílios profissionais dos falecidoscomo barcos, anzóis, tesouras, animais, espingardas e plantas oude outros símbolos identificadorescomo,por exemplo,a mão cortada para indicar os manetas, o cachimbo de cangonha dos fumadores, o leão dos caçadores, a bola do futebolista, o chicote, a palmatória e o cajado do capitão, a cobra do que foi mordido por um ofídio e muitos outros símbolos.
Ao canteiro Victor Jamba, escravo de Duarte de Almeida, especializado em Lisboa em estelas funerárias se deve uma boa parte das esculturas conhecidas no cemitério Mabli de São Nicolau e no de Moçâmedes. Daí a característica dos seus trabalhos apresentarem uma acentuada europeização das feições, cabelos e trajos.
Há pois que ter em linha conta que este tipo de arte funerária, rara em África, fruto de um convívio entre descendentes de escravos africanos e patrões europeus e brasileiros, que deixou marcas importantes, de inegável valor quer espiritual quer histórico na arte funerária angolana, tem de ser respeitada e conservada.

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