UNESCO reconhece desde o início valor excepcional de Mbanza Kongo

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Dossier alvo de especulações sem nexo

Unesco reconhece desde o início valor excepcional de Mbanza Kongo
Vestígios descobertos na antiga Igreja Kulumbimbi

Após a entrega do dossier de candidatura da cidade histórica de Mbanza Kongo a Património Mundial da Humanidade, a UNESCO enviou ao governo angolano uma recomendação, no sentido de aperfeiçoar a Carta Cadastral do sítio arqueológico. Angola já produziu uma nova Carta Cadastral, com o recurso a peritos e técnica avançada de uma contraparte no projecto “Mbanza Kongo, cidade a desenterrar para preservar”. Portanto, aquela recomendação da UNESCO não significa reprovação do dossier, como esclareceu no passado dia 1 de Março, em Luanda, a directora do Património Nacional, Maria Piedade. Na verdade, o que existe é “alguma especulação” por parte de certa imprensa estrangeira, diria mais adiante o director da Biblioteca Nacional de Angola, João Lourenço, outro dos participantes na conferência de imprensa que teve lugar no CEFOJOR no passado dia 1 de Abril e foi presidida pelo Secretário de Estado da Cultura, Cornélio Caley.
Segundo Cornélio Caley, a conferência de imprensa serviu essencialmente para explicar a forma como é elaborado o dossier, as etapas que foram percorridas. A candidatura, disse aquela autoridade da Cultura, foi bem ponderada, pois a equipa técnica desenvolveu contactos de troca de experiências com outros países que também submeteram candidaturas ao Centro do Património Mundial, como a Espanha, o Vaticano, Cabo Verde e o próprio Fundo do Património Africano. Mbanza Kongo teve uma expansão de ordem mundial, desde a sua fundação. Hoje, Angola está a resgatar os resíduos espalhados no território e que possuem um valor simbólico-cultural.
Na verdade, tudo o que vai para o Património Mundial é algo excepcional, explicou, de seguida, a directora do Património Nacional, Maria Piedade. Desde o início, o grupo de peritos da UNESCO que participou na mesa redonda internacional aquando da preparação do projecto em 2007, confirmou que havia os requisitos para pesquisar sobre o valor histórico da região.
No terreno estão arqueólogos, arquitectos, antropólogos, kinguistas, geólogos, cartógrafos e geógrafos. Há uma empresa contratada, a GEO SURVEY, que procede à análise geofísica do terreno. Há também peritos internacionais em matéria de conservação. Todo este esforço, explicou João Lourenço, o empenho dos técnicos e investimento de recursos deve-se ao facto de Mbanza Kongo ser um espaço detentor de três elementos determinantes do ponto de vista histórico:
1. Foi daquela cidade que saiu o primeiro bispo da África Subsariana, D. Henrique, nomeado em 1518;
2. Foi o primeiro espaço político da África Equatorial que albergou uma catedral, confirmada em 1596, por uma Bula do Papa clemente VIII. Mesmo não tendo aquela imponência conhecida das catedrais europeias, a de Mbanza Kongo possui um valor histórico-simbólico reconhecido;
3. Foi de Mbanza Kongo que saiu o primeiro embaixador de um Estado da África Ocidental, D. Manuel Nvunda, que está enterrado em Roma.
Com as migrações do Tráfico Negreiro, emigraram também palavras bantu que desabrocharam novas palavras nos EUA, na América Latina, por exemplo ‘Congo Square’, na gastronomia e nas práticas rituais. Outro dado que foi fornecido na conferência é que o primeiro catecismo em língua kikongo foi feito em Mbanza Kongo. “Foi por isso, que o Governo de Angola assumiu esse compromisso de elevar Mbanza Kongo à categoria de Património Cultural da Humanidade”, concluiu João Lourenço.
Conforme adiantou Sónia Domingos, coordenadora científica do projecto "Mbanza Congo, Cidade a Desenterrar para Preservar", as escavações arqueológicas permitiram recolher diverso material que, através das análises com o composto Carbono 14, provam que Mbanza Kongo já existia muito antes da chegada dos portugueses e muitas construções em pedra já existiam muito antes” da chegada de Diogo Cão. Foram descobertos cadáveres seculares de uma criança e de uma mulher com diversas pérolas e tecido de ráfia. Vestígios da presença portuguesa consistem em espadas, colares, um anel devidamente tratados e datados como sendo dos séculos XVI/XVII.
Também há luvas em ferro, loiça de prata que foi oferecida pelo Rei de Portugal ao Rei do Congo (eles tratavam-se por irmãos), capacetes e insígnias do poder. Um popular disse ter encontrado uma espada na sua lavra e um sinete. A população está entusiasmada com o projecto e deu o seu aval para a candidatura, “eles também são guardiões destas relíquias”, disse Sónia Domingos. Por último, Alexandra Aparício, directora do Arquivo Histórico Nacional, confirmou que no Arquivo e na Biblioteca Nacional de Angola há um acervo notável de documentos sobre o Reino do Congo, um dos primeiros a ter contacto com o exterior, com entidades portuguesas, espanholas e italianas.

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