Viriato, o poeta que se expunha na Mutamba

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Uma fotografia tem sido bastante divulgada. Vê-se um Viriato magro, de óculos de aro grosso, de roupa simples. Mas o homem e o mito por trás dessa imagem é descoberto todos os dias

A livraria Lello não estava agitada como era hábito. A baixa de Luanda encontrava-se igualmente pouco movimentada. A relativa calma ajudava o jovem Viriato a folhear e a pôr os olhos concentradamente num livro de poesia. Com sinais de barba no rosto, o jovem, que nasceu em Porto Amboim a 25 de Março de 1928, revela já o seu gosto pela poesia. Viriato larga o livro quando o amigo Tomáz Jorge se aproxima lançando os braços para um caloroso abraço retribuído.
Com pouco mais de 18 anos, a voz do jovem já "afinava grossa, em mudança, e o cérebro mais apto e ágil às analises da vivência humana", contou mais tarde o amigo, o também poeta Tomáz Jorge. "O nosso encontro traduziu-se numa festa". E isso incluiu naturalmente ocupar uma mesa na Cervejaria Biker, beber dois copos de cerveja e trincar alguns tremoços. E ainda falar de poesia. "Naturalmente com alguns gaguejos de principiantes".
O jovem Viriato, que já revela os seus primeiros poemas, devora livros, vasculha tudo. Estava aí um autodidacta, ávido do saber, que de aprendiz passou a mestre, e não tardaria a ir expor-se na Mutamba quando, aos domingos, publicava algo nos jornais. Quando o amigo Tomáz Jorge o apanhava na Mutamba, era sempre a mesma resposta: "Dizia-me que estava ali para ouvir os ecos do povo". Com ar altivo e alegre sorriso, queria também "saber se o povo já sabia ler os poemas, os seus escritos".
Em 1952, e com os seus 24 anos, Viriato possuía já uma cultura marxista invulgar. O autor do belo poema "Namoro" não era afinal um jovem namoradeiro. Preferia ler e estudar a dedicar tempo ao namoro real. Preferia o prazer da leitura e da escrita ao prazer formal dos beijos. Não aparecia nas farras nocturnas.
Alguns dos seus contemporâneos apercebem da sua extraordinária capacidade intelectual exactamente nesta fase. "Apercebemo-nos do seu precoce nível cultural e político das cartas que escreve, em 29 de Novembro de 1952, à poetisa Noémia de Sousa", escreve Edmundo Rocha.
Noémia de Sousa só conhecia Viriato de nome. "E não esqueço da forte impressão e entusiasmo que me causou a descoberta da sua poesia", escreve Noémia de Sousa. Chegaram-lhe às mãos um exemplar da revista Mensagem, órgão da Associação dos Naturais de Angola, que incluía "Namoro", "Mamã Negra" e "Só Santo". Noémia só conhece pessoalmente Viriato em 1957, em Lisboa. Mas antes disso, em 1951, em Luanda, tentara encontrar-se com o jovem poeta com quem viria a trocar correspondência, onde revelava já "ideias bem definidas (...) sobre a literatura do seu país".
Noémia soube dos amigos que Viriato estava ausente de Luanda, em tratamento algures num sanatório. Por isso, o jovem Viriato não chegaria assim a concluir o Liceu, ficando hospitalizado durante três meses. Depois disso, foi viver para a casa da avó. E não viria a terminar os estudos. Mas isso não lhe impediria de fazer um percurso, cujo resultado seria, como reconhece Carolina Cerqueira,  uma " vasta e rica obra literária [que] deverá ser mais disseminada, para ser melhor conhecida e estudada pelas jovens gerações por fazer parte dos anais indeléveis  da Cultura Nacional e da História de Angola".
Um dos mentores do Movimento dos Novos Intelectuais de Angola (1948) e da revista Mensagem (1951-1952), Viriato foi ideólogo, membro-fundador e secretário-geral do MPLA, partido do qual viria a ser expulso em 1963 e exilar-se algum tempo depois na China, onde acabaria por falecer em Junho de 1973. Mas a transladação dos seus restos mortais e o funeral só se dariam em 27 de Dezembro de 1990, para o cemitério do Alto das Cruzes, em Luanda. Os seus restos mortais foram a enterrar na sepultura onde está o corpo da sua mãe, Clementina Clemente da Cruz, às 10h00. Estiveram perto de 200 pessoas amigas e dois representantes do Bureau Político do MPLA-Partido do Trabalho.
Viriato, que escreveu tão somente 12 poemas, embora de altíssima qualidade, conquista, com os vários estudos sobre a sua obra, cada vez o seu espaço, indiscutivelmente, dentro do cânone da nova poesia angolana, chegando mesmo a levar o professor Francisco Soares a revelar que "pode ser considerado o grande paradigma da literatura angolana e o seu máximo expoente poético", visão entretanto contrariada pelo brasileiro António de Pádua de Souza e Silva.
Viriato da Cruz, tendo colaborado com várias publicações, nomeadamente, Cultura, Mensagem, Diário de Luanda, entre outras, tem uma única obra editada, que, entretanto, tem servido de base para os trabalhos de pesquisa obre a sua obra. Ainda assim, o seu nome é referência em todas antologias nacionais e estrangeiras de poesia africana. Vários do seus poemas foram musicados e até hoje ecoam nos ouvidos do povo angolano, tendo como exemplos "Makézu" e "Namoro", musicados por Rui Mingas.
Entretanto, questionada sobre a reedição e organização da obra de Viriato da Cruz, a ministra da Cultura, Carolina Cerqueira, garantiu ao jornal Cultura que se trata de um prioridade e poderá constar do plano de acção do seu pelouro, deixando transparecer não só a reedição da sua única obra "Poemas" (1961), bem como a realização de um conjunto de actividades para valorizar dignamente o seu contributo na "Cultura Nacional e na História de Angola".
Já o antropólogo Carlos Serrano, autor de uma obra sobre a identidade nacional e do texto "Viriato da Cruz: Um Intelectual Angolano do Século XX. A Memória que se faz Necessária", revelou-se feliz com a notícia numa das redes sociais. "Hoje realmente estou feliz (...) Parece que estava adivinhando. Parabéns aos seus familiares!". Carlos Serrano estabeleceu contacto com Viriato em Argel, no final de 1963, ao começo de 1965, ano em que sai da Argélia e vai para a Suíça. Foram um ano e dez meses de convívio de perto com o Viriato, que viria a marcar a personalidade definitiva para a sua formação política. "(...)  Sou muito grato".
Enquanto isso, o antropólogo António Tomás, autor de "O Fazedor de Utopias: Uma Biografia de Amílcar Cabral", alerta na mesma rede social sobre os prémios a título póstumo. " Acho bem que Viriato da Cruz receba o prémio, mas espero que isso não se torne um precedente. Senão, antes de um escritor vivo voltar a receber o prémio teremos de premiar José da Silva Maia Ferreira, Alfredo Troni, António de Assis Júnior, Tomaz Vieira da Cruz e tantos outros".


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