YETU - Da música urbana às ancestrais raízes de Angola

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O PCA do Banco de Desenvolvimento de Angola, Manuel Neto da Costa, apresentou no passado domingo, dia 7 de Setembro, na sede da União dos Escritores Angolanos, o álbum áudio-visual do projecto YETU – Documentar a Música Angolana, na presença de Rosa Cruz e Silva, ministra da Cultura, e de Carmo Neto, secretário-geral da UEA.

YETU - Da música urbana às ancestrais raízes de Angola
YETU - Da música urbana às ancestrais raízes de Angola

Na ocasião, o homem forte do BDA explicou que o álbum, contendo três CDs e um DVD, representa a sistematização da música angolana, registando a criatividade musical dos angolanos em várias etapas, tendo o BDA participado no âmbito da sua responsabilidade social.
Por seu turno, a ministra da Cultura sentiu-se satisfeita por vir a público uma obra de iniciativa do BDA, e que é uma contribuição para a elevação e valorização da música angolana, que vem, cronológica e tematicamente, dar a conhecer à sociedade a evolução e trajectória desse género artístico de eleição. Na verdade, segundo a ministra, a “a música, expressão da nossa Cultura, tem valor excepcional muito particular, pois insere a raiz que nos diferencia dos outros povos.” A obra teve o apoio institucional do ministério da Cultura e o acto de lançamento “tem um simbolismo muito particular em vésperas dos preparativos do FENACULT eé agora integrado no festival.”
Como explica a produtora do projecto, Ulika da Paixão Franco, “Yetu - A Nossa Música, do Projecto Documentar a Música de Angola, tem como objectivo a produção e edição de uma obra documental de natureza fonográfica e videográfica, organizada de forma cronológica e historiográfica.
Assente em critérios de rigorosa pesquisa e documentação recolhida junto de todo o tipo de fontes – orais, escritas, sonoras – e com objectivos definidos de reunião, recuperação e colecção em plataforma física e digital dos mais relevantes clássicos da música de Angola.
Trata-se de uma edição de autor com assinatura do Banco de Desenvolvimento de Angola. Consta desta edição um DVD com registo documental, um triplo CD com colectânea de clássicos da música de Angola e um catálogo comentado ilustrativo da edição.
O triplo CD corresponde a três momentos: recolhas de música tradicional, música urbana pré-independência e música urbana pós-independência até ao virar do século XX. Este trabalho tem como objectivo dignificar a criação musical em Angola, procurando as raízes da música urbana e indo de encontro às ancestrais raízes da música de Angola. A equipa multidisciplinar envolvida no projecto produziu trabalho tanto ao nível da pesquisa documental como ao nível da reportagem no terreno, tendo realizado deslocações no território de Angola - com destaque para as províncias de Luanda, Malanje, Benguela, Namibe, Lunda Norte -, deslocações em Portugal - Lisboa, Porto, Coimbra, Leiria -, França - Paris - e Viena - Áustria - com o intuito de documentar e recolher testemunhos sobre a música de Angola.”

Madya Kandimba
Ulika desmitifica o pressuposto histórico de que “as primeiras gravações de música angolana em disco foram feitas em Portugal”, pois o Projecto Documentar a Música de Angola perseguiu afincadamente uma fonte que afirmava ter ouvido um vinil, gravado no início dos anos 40, por uma editora local angolana e prensado na Alemanha.
Tratava-se de uma versão de Madya Kandimba, uma das primeiras peças de coro de massemba recolhida por Óscar Ribas, composição que datará originalmente de 1875.
“Foi durante uma conversa, em Paris, na residência de Mário Rui Silva, que fui alertada por este reputado músico e pesquisador angolano da existência de um vinil que estaria na posse do escritor Luís Rosa Lopes e que seria, indubitavelmente, a primeira gravação em disco feita em Angola e por angolanos.
Numa segunda viagem a Angola, e certa de que a informação que me tinha sido passada só podia ser verdadeira, agendo de imediato uma entrevista com Luís Rosa Lopes e seu tio, Aureliano de Oliveira Neves, ou Voto Neves, como manda a tradição familiar. Ao almoço no Restaurante “O Veleiro” segue-se o momento aguardado: no Bairro Azul, na “sala de descobertas” de Rosa Lopes, eram já perto as dezasseis horas do dia um de Outubro de dois mil e três, ouviu-se o ritmo da resistência. Guilherme Assis e os seus filhos - Fernando e Mário Alberto – cantavam e tocavam um dos clássicos da época não deixando confundir, na passada frenética, as guitarras- ritmo presentes: “Madya Kandimba atrevida/ Wasingile bunwelo ya sinhola”.
Ulika da Paixão Franco é peremptória: “estava, obviamente, perante um objecto de um enorme valor cultural e social na História da Música de Angola.
A isto seguiram-se frenéticos contactos para localizar o único elemento vivo do Trio Assis. Mário Alberto Assis falaria comigo e com os colaboradores que me acompanharam neste projecto a 7 de Novembro, em Lisboa, numa das lojas FNAC da capital de Portugal. Trocámos impressões rápidas mas suficientes para confirmar que a gravação em disco que tínhamos ouvido em Luanda era, de facto, do Trio Assis e teria sido gravada entre 1942 e 1946. Contas fáceis de fazer, Mário Alberto Assis nasceu em 1936 e recorda-se de ter gravado o tema teria entre seis e dez anos. Recorda-se de o pai ter dito que o iria enviar para a Alemanha e recorda-se de o terem tocado e cantado durante os famosos saraus culturais organizados pela Liga Nacional Africana, da qual o seu avô, António de Assis Júnior, foi fundador.
De Luanda para Lisboa, viajou o disco em loiça nas mãos cuidadosas de Luís Rosa Lopes para ser gravado, a 26 de Novembro, no estúdio Ponto Zurca, em Almada, na presença de Mário Alberto Assis e sua esposa, bem como de um ilustre grupo de crentes no poder da música.
O disco em loiça é antes de mais um objecto de sublime bom gosto, com um desenho na bolacha esteticamente bem conseguido, que foge ao acentuado lusotropicalismo das editoras do Antigo Império sempre vorazes em expor corpos nus de mulheres e de homens negros, mas pouco astutas ou diligentes em perceber a essência estética da música de Angola. O disco em loiça é também sinónimo da preocupação que os angolanos tinham com a sua nossa música, do desejo em exprimi-la e exprimirem- se – não fosse a música o grande cálice dos estados de alma –, a vontade na divulgação e na preservação dos seus ritmos originais.
Este objecto assim tornado público é dignamente um testemunho vivo da atenção que a sociedade angolana dava à recuperação das suas tradições, da sua cultura, do seu modo de ser e estar.
É, por fim, a prova do início de um movimento de internacionalização da música de Angola que não se ajoelhava perante os grilhões do Antigo Regime e que se impunha, como sempre se impôs, na voz de um Povo que sabia, e sempre soube, ser, e ter sempre sido, uma Nação. Pois que a Vitória é Certa.
E assim o foi,” finaliza essa mulher apaixonada pelo ritmo e a melodia do quadrilátero angolano, som latente no coração do Universo.

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