A Economia da Cultura

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A ministra Carolina Cerqueira saudou o Dia da Cultura Nacional

1 O ano de 2016 lavrou o campo da Cultura com muita parcimónia e demasiada contenção. O Festival Variante que o diga. E a Feira do Dondo esteve quase à beira da anulação. A sua realização apenas foi possível, porque – como disse o Secretário de Estado, Cornélio Caley, na abertura – “todos quantos estão aqui colocaram Angola acima de todas as dificuldades que enfrentamos, quer financeiras, quer morais.”
Este ano de 2017 começou bem, graças a Deus. A ministra Carolina Cerqueira saudou o Dia da Cultura Nacional com um discurso muito promissor e entusiasta. Os três eixos prioritários anunciados na sua pronúncia em Cabinda – municipalização, formação e economia – farão, certamente, movimentar a Cultura Nacional ao encontro das expectativas, não só da juventude das periferias, ávida de aparecer e mostrar o que vale, mas também de outros agentes culturais, que a onda da Globalização remeteu para o ostracismo.

2 É o caso do grupo Kisama (um apêndice do grupo carnavalesco União 54), que, com a sua interpretação da coreografia Nga Mutudi (Viúva), composta de três ngomas e uma banheira metálica, para quatro tocadores e seis dançarinas, impuseram, na gala do Prémio Nacional de Cultura e Artes (PNCA) de 2012, a genialidade da dança, a criatividade, a expressividade da indumentária e dos gestos e o domínio dos instrumentos, a demonstrar que as mulheres angolanas, as nossas mais velhas, também podem competir com a jovem geração. O que é preciso e urgente é não as esquecermos, porque, desde 2012, ninguém mais viu as nossas mamãs do grupo Kisama a actuar em palco.
Esta pungente constatação é extensível aos grupos carnavalescos que apenas têm como instante de glória o dia do desfile e ficam, durante os restantes dias do ano, a ver passar, à distância, os navios da promoção cultural. Os agentes de espectáculos, que agora são, na maioria, privados, parece estarem dominados por um desprezo pela cultura popular mais enraizada na tradição bantu.
Digo isto, assim desta maneira, porque o que foi dado a ver em 2012, na gala do PNCA, causou em todos os presentes no salão do Cine Tropical uma profunda emoção. E tenho a plena certeza e a absoluta convicção de que o grupo Kisama pode muito bem abrir um grande espectáculo da juventude, aqui em Luanda, ou até no Campo Pequeno, em Lisboa. Ilustraria a diversidade artística da nossa música e das nossas danças. E ajudaria a sustentá-lo financeiramente. Os grupos carnavalescos poderiam actuar na mesma proporção do Kisama, ou até seis elementos ilustrativos da sua genialidade estético-formal. Os agentes de espectáculos privados devem ser mais aconselhados pela direcção de Acção Cultural do Ministério da Cultura, para que tomem a iniciativa de promoverem, com o lucro esperado, estes agentes culturais guardiães da Alma Mater Angolana. Resultarão em espectáculos a solo, ou como complementos de grandes manifestações artísticas, perfeitamente produtivos do ponto de vista da geração de rendimentos. Aqui está a tradução para a prática do terceiro eixo paradigmático anunciado pela ministra da Cultura: a economia da Cultura.
E quem diz a dança e a música, diz também as Artes Plásticas. O moderno não é só o anglo-saxónico. As pinceladas abstractas sobre uma tela branca já deram o que tinham a dar. Temos de ser mais criativos, mesmo que absorventes das novas tendências universais, o que é benéfico, sem nos deixarmos cegar pelas luzes niilistas do Primeiro Mundo. Vejam os estudos de Malangatana. E a beleza musical de Manu Dibango.

3 Talvez a nossa ministra da Cultura devesse ter anunciado o primeiro eixo como sendo a economia da Cultura. Tudo agora está suspenso da Economia. Por isso, vale aqui sugerir que a ajuda dos Mecenas angolanos é imprescindível. E, neste domínio, seria útil e agradável não deixar fenecer as expectativas geradas com a realização dos concursos provinciais do Festival Variante 2016. E de que maneira?
Poderia o Variante ser agregado à III Trienal, pois, como afirmou Fernando Alvim, vice-presidente da Fundação Sindika Dokolo, esta Trienal se estenderá por seis meses, com a perspectiva de ser focada para outras cidades do interior. Desse modo, dada a magnitude e importância do festival Variante, no tocante à promoção das novas vozes da canção angolana, poder-se-ia realizar no primeiro semestre deste ano a fase final desse evento, com o apoio da organização eficiente e sustentada da Trienal.

JOSÉ LUÍS MENDONÇA

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