A leitura não se explica, senta-se na nossa mão

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A fronteira entre o discurso literário e o não literário é de ordem estrutural e bioquímica. O fim da literatura integrada no objecto chamado livro é o de ser recebida pelo público, é o de ser ouvida por alguém que a lê (silenciosa ou audível) ou que simplesmente a escuta ler ou recitar o que alguém gravou na memória.

A literatura está aí, na bela poesia pastoril dos Cuanhamas, nos Cantares de Salomão, nos sonetos de Camões e de Rylke, nos poemas de José Craveirinha, Breuyten Breytenbach, Malangatana, Noémia de Sousa, Conceição Lima, Pablo Neruda, Alen Ginsberg, Walt Whitman, Bertolt Brecht, nos romances de Ngugi Wa Thiongo, Chinua Cahebe, Amos Tutuola, Luandino Vieira, Pepetela, Assis Júnior, Pedro Páramo, Dostoiévsky, C. Virgil Georgiu, Victor Hugo, John Grisham, e quantos outros que lemos e que nesta página pequena não cabem.
Todo o ser humano que pretenda obter um conhecimento do que é Literatura tem simplesmente de pôr a Literatura sentada na sua mão, como quem dá milho aos pombos num jardim. E ler, ler, ler, deixar ela queimar o coração com a química das imagens pintadas com o fogo das palavras, deixar ela expandir na alma a (re)criação interna da vida, o escalonamento arquitectónico do enredo ou ver como ela batuca no céu da nossa boca a rítmica do verso e o fascínio da metáfora.
De tanto ler, aquele que lê fica a conhecer o âmago e a forma desse objecto artístico forjado com a matéria-prima das palavras que nos hominizam e endeusam dia-a-dia.
De tanto ler, aquele que lê recebe um testemunho muito valioso dos autores todos que devora. Fala com eles ali sentados dentro dos discursos literários. Aquele que lê não precisa de visitar o hálito vivo, o olhar brilhante, ou a sotaque da voz de nenhum autor físico. Põe os Lusíadas sentados na sua mão e já tem ali um Camões que morreu no século XVI. Abre a Sagrada Esperança de Agostinho Neto e dialoga com este poeta falecido em 1979.
De tanto ler, aquele que lê fica a conhecer o alto segredo da tecedura artítico-literária de cada um dos autores. Assim enriquecido de modelos de tecelagem da palavra, ele torna-se capaz de tecer o seu próprio pano de urdiduras literárias. De tanto ler é que o crítico fica apto a comparar a obra de um Norman Miller à de Pepetela, por exemplo.
Não é qualquer pessoa que se torna escritor ou crítico da Literatura. O escritor é aquele que muito lê. Critico é quem leu milhares de obras, quem conhece pelo menos vinte mãos cheias de autores de cada época da História da Humanidade, desde a Epopeia de Gilgamesh, da Mesopotâmia, aos contos fantásticos dos irmãos Grimm, ou aos best-sellers de J. K. Rowling.
Há dias, veio ter comigo um jovem entusiasta com uma história escrita para eu avaliar. Li e deparei-me com um relatório de polícia, como diria o grane contista Manuel Rui. Não senti ali nenhum cheiro de comida, nenhum sopro de vento, nenhuma luz de fogo perdida na noite, nem o pio de uma ave, ou o olhar doce de uma mulher. Chamei o jovem e perguntei-lhe se já alguma vez tinha lido a novela Quem Me Dera Ser Onda, de Manuel Rui. ou Kahitu de Wanhenga Xitu. Não sabia sequer quem eram esses autores, nem o que representavam esses títulos na Literatura angolana. Então recomendei-lhe que os lesse. Infelizmente, o jovem nunca mais me procurou. Não aprendeu que não é o autor vivo que lhe introduz a técnica de escrever na cabeça, como um funil onde se despeja vinho ou azeite num tonel.
A minha esperança é que um dia, quando o ensino em Angola tiver a qualidade que tinha no tempo colonial, os professores ponham os alunos a ler os clássicos na escola e quem quiser ser escritor não precise de andar atrás de mim, para eu lhe avaliar a obra. Os livros são melhores mestres do que eu.

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