A poesia anda por aí

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1 O povo angolano é poeta. Como todos os povos do mundo. É que, fumar vidro é proeza que nem os gregos, criadores de uma mitologia que colocou Sísifo num eterno tormento de sede, poderiam ter criado. Nós, os angolanos, fumamos vidro. É só passar ali antes da ponte do Benfica e atentar para o reclame rudimentar à direita: FUMA-SE VIDRO.

Contudo, há outros anúncios de publicidade doméstica igualmente hiper-realistas, porque, surrealistas não são. O que anunciam é a pura verdade. Como este: AQUI FIBRA-SE. Da fibra de vidro dos meios de uso comum, como embarcações ou partes de um veículo automóvel.

Já li, no tempo em que Pascoal Luvualu era o presidente da UNTA, grafitos como este: ESTA CASA ESTÁ UNTADO. Quer dizer: estava ocupada por um trabalhador, filiado na UNTA, portanto, que ninguém ousasse recebê-la (no tempo em que casas, havia-as em Luanda abandonadas).

Há tempos, li numa parede de quintal sem casa no Cazenga este anúncio intensamente cósmico: VENDE-SE UMA METADE DO MUNDO.

Estariam, na verdade, a vender metade daquele quintal? Até onde vai a hipérbole genial dos criadores anónimos?
Hoje, o que há por demais, em cada esquina dos bairros periféricos, é o anúncio da sobrevivência: DÁ-SE SOPA E ALMOÇO. Se se dá, essa sopa devia vir de graça para as nossas bocas.

É uma palavra linda, o verbo dar. E um acto altruísta, humanitário. Dar. Este anúncio, em tabuletas de metal ou de contraplacado, não é novo. Já há cerca de trinta anos que se lia o mesmo anúncio, ali para as bandas do Hospital do Prenda. Só que, agora, o culto é um poema uni-versal que nos espera em cada esquina. Bendita sopa! Que nos veio do Encontro com a Civilização Ibérica, há 500 anos!

2 Todos os povos são poetas. Os chineses, que cá aportaram em busca de novos modos de vida, trouxeram consigo uma marca de triciclo motorizado que o nosso povo baptizou, muito familiarmente, de AVÔ CHEGOU.

O estilo está nas marcas desses triciclos potentes que derivam quase todas da famosíssima KAWASAKI japonesa. Os chineses criaram, para a sua motorizada de três rodas e carroça aberta, as seguintes nomenclaturas: KEWESEKI, KIWISIKI, KESEWEK, KAWASEK, KESIWIKI, KEWASEK e original KAWASAKI. A indústria e o comércio internacionais, é óbvio, não escapam à febre da poesia.

3 Todos estes versos escritos, não em papel impresso, mas nas paredes da Vida, evocam um poema de João Abel do qual recordo o verso: "a poesia anda por aí". É. A poesia, a arte em geral, andam por aí. Na escova de engraxar sapatos. No gasto do gelado entre os lábios do peão. No olhar cativante da zungueira. No poder dos grandes automóveis sobre o asfalto.

É. A poesia está em todos os lugares. Até no movimento nocturno das marés. No bater do nosso coração. Na voz de cada criança. Por isso, não vale a pena escrevê-la, entregá-la a uma editora e lê-la em recitais organizados.

Deixemos que ela surja em toda a sua espontaneidade vital. Sorvamo-la no nosso caminhar em plena Mutamba. E se desfaçam no pó da História da Literatura os livros que pouca gente consegue comprar, quanto mais ler.

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