Atitude de escritor

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Segundo o historiador angolano Carlos Serrano, surgiu na Angola colonial um grupo de “intelectuais angolanos denominados de Geração de 50, que veio a ter uma grande influência nas gerações posteriores de escritores. Esta influência não se resume unicamente a aspectos meramente culturais, necessários à construção de uma identidade comum, mas também outros que se referem à mobilização e formação política militante de novas gerações numa emergente luta pela autonomia cultural e política, naquele dado momento histórico.

Segundo o historiador angolano Carlos Serrano, surgiu na Angola colonial um grupo de “intelectuais angolanos denominados de Geração de 50, que veio a ter uma grande influência nas gerações posteriores de escritores. Esta influência não se resume unicamente a aspectos meramente culturais, necessários à construção de uma identidade comum, mas também outros que se referem à mobilização e formação política militante de novas gerações numa emergente luta pela autonomia cultural e política, naquele dado momento histórico.
Na mesma senda, José Luandino Vieira publicaria em 1963, um livrinho de contos intitulado Luuanda, que viria a provocar uma grande polémica e represálias na época salazarista. Se a primeira preocupação de Luuanda é a de tentar fecundar a língua literária com o pólen da língua falada nos musseques de Luanda, a obra levanta também a problemática da condição social dos colonizados.
Na década de 80, a geração da Brigada Jovem de Literatura de Luanda lançaria aquilo que chamou de Projecto Comum e que, nas palavras de um dos seus mentores, o poeta Carlos Ferreira, pretendia afirmar o desejo “de cumprir uma gesta que desse flor e fruto a sonhos antigos”.
Estes exemplos ilustram o tema em apreço. Os grandes escritores posicionam-se na vida com uma atitude pautada pelo imperativo ético de defesa do Homem e da Vida. Com esse espírito, o escritor é um humanista, representa a reserva moral da sociedade.
Com essa atitude actuaram, tanto na escrita, como no posicionamento perante os factos da vida, os escritores universais Whole Soyinka, José Craveirinha, Bertolt Brecht, Ernest Hemingway, George Orwell, Antoine de Saint-Exúpery, Victor Hugo, Garbriel Garcia Marquez, Pablo Neruda, Breyten Breytenbach, entre outros.
Esta atitude tem a ver com o papel que a Literatura se atribuiu, desde os tempos imemoriais (vejam-se as tragédias gregas) de contestar o que a sociedade tem de errado. Aqui levanta-se esta questão pertinente: pode o escritor abdicar da moral, não só na sua produção, mas igualmente na sua praxis social?
O escritor brasileiro Fernando Sabino dá-nos uma resposta sincera, ao afirmar: “O artista, mesmo empenhando apenas beleza, pode estar contestando a ordem iníqua que a sociedade nos impõe, quando não aceita as regras do jogo, que são as da hipocrisia, da falsidade, da deformação do pensamento, do desrespeito aos direitos humanos.”
Eu acredito que hoje em dia, em que a Literatura já não atrai o leitor como nos séculos precedentes, não basta publicar literatura para ser um escritor integral. O escritor tem necessariamente de estar engajado na defesa da dignidade da pessoa humana. Quem não demonstra sensibilidade inata perante o sofrimento do próximo, não pode ter nenhuma pretensão a ser denominado escritor. A obra que escreve deve andar a par do pensamento do autor. Um escritor não mexe na quinda do povo.
Aquele que ainda não descalçou pelo menos dois dos sete sapatos sujos expostos na prateleira de Mia Couto: “A passividade perante a injustiça” e “A ideia de quem critica é inimigo”, como pode querer sentar-se à mesa de uma Academia de Letras?
Como disse um dia Marthin Luther King Jr.: "O que me preocupa não é o grito dos corruptos, dos violentos, dos desonestos, dos sem carácter, dos sem ética. O que me preocupa é o silêncio dos bons."
O escritor, como já o disse, é a reserva moral da sociedade. Como pode ele denunciar os males dessa mesma sociedade, se pactua com eles?

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