‘Chão de Oferta’ e os clássicos da poesia angolana

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1 Há, na poesia angolana, um conjunto de poemas que se enquadram, pela resistência à erosão do tempo, na categoria dos clássicos. Um desses poemas é o Makézu, de Viriato da Cruz; outro é Morro da Maianga, de Mário António, do seu livro inicial Chingufo; ou os poemas Havemos de Voltar, de Agostinho Neto e Monangambé, de António Jacinto. Mas eu consideraria clássicos da nossa poesia também alguns poemas em línguas bantu, como aquele, em língua kwanyama, que começa assim: “As grandes rãs, haisikoti, saúdam a tua vinda”.

Há, porém, um livrinho completo que tem o título de ‘Chão de Oferta,’ publicado por Ruy Duarte de Carvalho, em 1972, que é um estilização verbal da “paisagem telúrica, dos significados da terra, das paisagens do campo” (Infopédia). É aquilo a que eu chamo “POESIA DO CHÃO”, em contraste evidente com uma certa ‘poesia’ que, em Angola, quer fazer notícia nos nossos dias e que considero “POESIA SEM CHÃO”, dado o seu elevado hermetismo que permite a sua absorção por qualquer realidade geocultural deste mundo.

O que se verifica nos grandes poetas acima citados é que a sua obra expressa um apego aos valores africanos, quer quanto à temática, quer quanto à forma. Através dessa poesia, segundo José Francisco Costa, “descobre-se Angola, as suas origens, as suas tradições e mitos. (...) com ela tenta-se recriar África e Angola, os valores ancestrais do homem africano e da sua terra, bem como ensinar esse mesmo homem a descobrir-se como individualidade. Esta poesia põe em prática a reposição da tradição oral, onde as próprias línguas nacionais ocupam um espaço importante. É, numa palavra, a poesia da angolanidade". Aí reside o seu valor literário e a sua resistência ao desgaste do tempo.

2 As obras dos poetas das diversas gerações do pós-independência, tanto aquela que Luís Kandjimbo chama ‘das incertezas’, como as que se lhe seguiram, por falta de leitores nacionais que as tenham devorado até à exaustão, são estudados, prioritariamente, por investigadores sediados em Portugal, no Brasil e também na Espanha.

Ora, eu tenho constatado que muita da análise que se faz às obras destes poetas parte de um olhar exegético de matriz ocidental e, salvo raras e saudáveis excepções, prima por um espírito de paternalismo que os leva a aplaudir qualquer produção literária que sai destas paragens e tem levado muitos jovens meus amigos a incorrer em equívocos de avaliação muito perigosos para a aquisição do necessário rigor artístico. Também tenho verificado que uma certa crítica exógena, com alguns seguidores em Angola, arranca da teoria interpretativa da Literatura ocidental para a caracterização das obras recentemente produzidas, privilegiando a construção metafórica (que é importante, sim senhora, mas não é suficiente) e a tessitura da língua portuguesa em si mesma, sem curar da ossatura geocultural subjacente a cada verso , patente na poesia dos poetas referidos no início desta conversa e que também e apanágio dos poetas que são prémios Nobel .

3 O que quer dizer que a poesia do pós-independência ainda carece de um estudo angolano mais profundo e, consequentemente, da legitimação de uma crítica endógena, lacuna esta que não permite a sua arrumação, para já, em patamares ou numa curva de grandeza diferenciadora, sob pena de se incorrer em avaliações espúrias, perfeitamente dispensáveis no universo da ciência da Literatura.

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