Da kazukuta e suas infrutescências rítmicas

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Embora no auge da carreira tenha tido o zouk como fundo rítmico de eleição, a imagem de Mamborró andará sempre associada à música de estreia, `Mamborró das Garotas' (estilo semba).

Carpimos em silêncio a sua partida, apenas alguns dias depois do grande mestre da kazukuta, Man Nito, nos ter também abandonado, deixando-nos a flor da surpresa no coração: a grande massa dos jovens não o conheceram.

Poucos conheciam o Man Nito, corneteiro do Kabokomeu, como conheciam o Mamborró. Man Nito, que partiu com décadas de sopro na corneta e inéditas passadas na Marginal, era menos conhecido que Cabo Snoop (Windeck), um nóvel e insólito inovador do kuduru, cuja letra de música deu azo a uma novela.

Estes três artistas (dos quais, aos dois primeiros estamos aqui a render homenagem póstuma), assim colocados em paralelo, induzem-nos a levantar uma indagação: até que ponto os média influenciam não só os gostos do público (principalmente o juvenil que mais consome a nova música), mas também a tendência evolutiva das artes num determinado território, criando um fosso, impercetível à vista desarmada, entre a música e as artes do centro e a da periferia (conceito formulado com base nas audiências e não na localização).

Regressando às origens do fenómeno kuduru (e tendo na mente as imagens da coreografia e dos seus ritmos), nota-se à vista desarmada que boa dose da inspiração fundante do kuduru partiu da dança kazukuta em evolução no Carnaval da Marginal.

Depois ao desaportuguesarmos a denominação sugerida por Tony Amado, substituindo o "c" pelo "k" e unindo os dois termos (cu duro), retirou-se-lhe, com grande técnica de inovação linguística, algum peso escatológico.

O que é certo é que, no espaço de mais ou menos duas décadas, o kuduru atravessou as fronteiras do Estado angolano e hoje é marca de referência no exterior.

Se, em 1978, o União Operária Kabokomeu, muito antes do Tony Amado ter recriado essa dança `sui generis', já trazia ao mundo a kazukuta (confusão), que fatores contribuíram para o enorme êxito universal do kuduru, em detrimento da kazukuta que até tem semelhanças no ritmo solto e improvisado e na sua incrustação geográfica (o Sambizanga)?

Agora que vai aqui uma saborosa moamba de batidas, concluiremos que, pelo seu quase secretismo e periodicidade, visto o Carnaval e as suas danças pertencerem a um universo esotérico, onde só alguns iniciados penetram e só é mostrado ao público uma vez por ano, faltou à dança kazukuta a componente mediática que confere ao kuduru um lugar de divulgação actualmente inserido naquela vertente que os teóricos da comunicação social apelidaram de matraquear, pela sua contínua aparição.

No entanto, para nós, a kazukuta, embora conotada com uma dança periférica, constituirá para sempre a argamassa invisível (daí estarmos a prestar-lhe a devida honra) que suporta o elevador (a parte mais nobre do edifício) do kuduru, alcandorado hoje a centro das atenções e dos gostos artísticos dos aficionados.

Limpamos o prato desta moamba com uma questão final: não é chegada a hora de divulgarmos mais as artes da periferia, a começar pela música e as danças do nosso carnaval?

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