Da página à lavra

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1. Quem navegou pelas páginas do número inaugural deste jornal, certamente reteve na mente os fundamentos da missão que nos incumbimos de sermos ministros de um Culto Especial que assumimos dentro deste Templo das Artes e das Letras. Dela investidos pelo acto oficiado no passado dia 5 na sede da primeira casa das Letras de Angola, adoptamos, a partir deste número, um novo formato gráfico, que nos permitirá plantar maior diversidade na página lavrada. Com esta nova quinda de figuras secretamente esculpidas e agora levadas a este santuário de emoções, construções da alma e projecções cromáticas, inclinamo-nos em profunda reverência e pedimos licença para deixá-las mãos do leitor.

O mundo celebra neste mês de Abril três efemérides de alto pendor cultural, a 18, o Dia Internacional dos Monumentos e Sítios, a 23, o Dia Mundial do Livro e do Direito do Autor e a 29, Dia Mundial da Dança, dos quais aqui damos o devido destaque. Uma das críticas tecidas ao número um deste jornal e que aceitamos de bom grado é a de que não há nenhuma assinatura feminina nos artigos dados à estampa.

Só que, na hora em que esta crítica-nos foi exposta, já nós tínhamos recebido o concurso de três mulheres, duas angolanas, Ximinya e Mwana Áfrika, e a outra do Brasil, Carmen Lúcia Tindó Secco que brindam os leitores com as suas oferendas lançadas neste altar onde a palavra é cultuada sem reservas.

Das três, há a realçar o facto de Mwana África ser uma jovem entusiasta nestas lides do jornalismo cultural, uma promessa, portanto, do nosso país.

2. Esta edição insere as primeiras peças originárias do interior. A primeira, que dá destaque à capa, vem da Lunda-Sul, assinada pelo nosso colega Adão Diogo que nos coloca perante a presença sagrada do Muquixe. A segunda escorre da pena irreverente e concisa do jornalista Jaime Azulay que, a partir de Benguela, nos alerta para o perigo de extinção dos flamingos da Caponte e da rara beleza rósea que eles conferiam ao mapa natural do Lobito.

Estas duas peças não constituirão um convite aos demais confrades e cidadãos de alma lavada na dizanga da Cultura, nas demais regiões do país e mesmo na diáspora, para também subirem nesta caravana? O traço fino a tinta-da-china de Frederico Ningi veio fazer morada neste Templo, com Vandji-Loooking, pois que aqui não se cuida apenas da escrita, mas dos contornos policromáticos da nossa meteórica viagem neste planeta azul, estranhamente ferido pelo seu mais inteligente habitante.

3. É esta “permanente inquietação criadora”, que o poeta angolano Zetho Cunha Gonçalves vislumbra na obra do poeta chileno Vicente Huidobro, que nós também assumimos, prometendo fazer nascer do útero quente da impressora, a cada edição, uma lavra de canto renovado, para encher, caro leitor, o seu celeiro espiritual, pois, como disse um dia outro poeta “penso nos outros, logo existo.”

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