Do preconceito literário

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Os cientistas ficaram, então, com um grupo de 5 macacos que, mesmo sem nunca terem tomado um banho frio.

1. "Triste época! É mais fácil desintegrar um átomo do que um preconceito", disse um dia o brilhante físico Albert Einstein, decerto dececionado com o rumo que os homens deram à História da Humanidade no século XX. A ilustrar esta asserção do ilustre autor da teoria da relatividade, encontra-se disponível na internet o registo de uma experiência científica que abaixo tenho a honra de transcrever, com a devida vénia para o autor que, infelizmente, não vem citado: "Um grupo de cientistas fechou 5 macacos numa jaula, colocou no centro uma escada e, sobre ela, um cacho de bananas.

Quando um macaco subia a escada para apanhar as bananas, os cientistas lançavam um jacto de água fria aos que estavam no chão.

Depois de um certo tempo, sempre que um macaco tentava subir a escada, os outros enchiam-no de pancada. Passado mais algum tempo, já nenhum dos macacos subia a escada, apesar da tentação ser grande.

Então, os cientistas substituíram 1 dos 5 macacos. A primeira coisa que ele fez foi subir a escada, sendo rapidamente retirado pelos outros, que o surraram.

Depois de algumas surras, o novo integrante do grupo desistiu de tentar subir a escada. Um segundo macaco foi substituído, e passou-se o mesmo, tendo o primeiro substituto participado, com entusiasmo, na surra do novato. Um terceiro foi trocado, e a história repetiu-se. Um quarto e, finalmente, o último dos veteranos foi substituído.

Os cientistas ficaram, então, com um grupo de 5 macacos que, mesmo sem nunca terem tomado um banho frio, continuavam a bater nos que tentassem chegar às bananas.

Se fosse possível perguntar a um deles porque batiam em quem tentasse subir a escada, com certeza a resposta seria: `Não sei, as coisas sempre foram assim por aqui...'"

Está a crescer, entre nós, um preconceito que redunda num efeito perverso manifestado na produção incipiente de alguns autores (sem faixa etária definida) que, pelo facto de possuírem um escasso capital de leitura em língua portuguesa, ostensiva e inconscientemente publicam algumas obras que, de Literatura, só o formato do produto (o livro impresso) lhe aproveita o nome.

2. De que preconceito estamos nós a falar? Do nefasto preconceito de que a Literatura é diferente das outras Artes e que se pode dar à estampa um texto com a marca de literiedade, sem um prévio i capital de cultura geral, sem antes se assimilar a herança histórico-literária da Humanidade (nos seus aspetos mais representativos, não na sua totalidade, é claro) e sem se ter um domínio seguro da principal ferramenta da escrita literária: a língua.

Mas, o que é mais doloroso é que todo aquele que tenta levantar a luz sobre este preconceito é escorraçado como o macaco que, na jaula do processo criativo, tenta subir ao cacho de bananas.

E os que o escorraçam, os que lhe dão porrada, nem sequer sabem porque agem assim. Para estes, o mais importante é apresentar um livro qualquer e figurar na imprensa como escritor.

Quanta árvore sacrificada, para tão efémera vaidade! Já o escritor francês André Gide havia chegado à paradoxal conclusão: "É com bons sentimentos que se faz Literatura ruim.

" A Literatura ruim é fruto do preconceito literário ou da ausência da moral, um dos pressupostos da criação literária. Expressa-se frequentemente com ostensiva aversão à crítica.

Atitude letal para a Literatura Angolana, pois ele há mesmo autores plenamente convictos que se pode, no século XXI, retroceder para o grau zero da criação literária, o que redunda na formação do paradigma da desvirtuação (falta de qualidade) e da falsificação (plágio ou colagem) da Literatura.

3. É urgente que, autores e críticos literários, subamos juntos a escada que leva ao cacho de bananas da boa Literatura, pois só com muito esforço e unidade se pode provar que um átomo não é desintegrável, já o preconceito contra a boa literatura, esse, sim, é perfeitamente redutível.

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