Estação das Eleições

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Anda no ar um clima de Povo, de Voz liberta à sombra de cada mulemba partidária, umas sobranceiras, enraizadas no Vento, outras a despontar o caule, a ensaiar o seu natural tropismo perante a Luz da Cultura Democrática.

1 É a estação das Eleições. Visto como o homo politicus, quando se adensa na atmosfera das regularidades sociais, esclarece a sua dimensão de homo culturalis, diminuindo as partículas de diversidade e concentrando as linhas da identidade, também o enraizamento do hábito de votar sai do limitado espaço das urnas, dos cartões de eleitor e dos discursos políticos para se desenlatar num culto, ainda que sazonal.

Toma a forma de bem simbólico, é maneira de vivermos juntos, valor, tradição e crença num futuro melhor.

No tempo colonial e quando o parto da guerra teve dor civil em Angola, nunca o povo angolano alargou o seu ethos cultural até ao ramo mais alto do voto democrático.

Em 1992, ainda sob o fogo retumbante das armas, a primeira estação das eleições foi uma estação minguante e sacrificial, cuja única mais-valia foi ter induzido o modelo da cidadania participativa que haveria de traçar no mural da História a porta da ética no pluralismo de ideias e a sua base expressionista.

O ethos e o seu conglomerado de valores - ética, hábitos e harmonia assenta como uma luva à terceira estação do voto neste ano de 2012. Nota-se uma regularidade que, comparada à regularidade do fenómeno natural, se processa na dimensão espiritual dos costumes do nosso povo.

E assim temos que, para além da estação das Chuvas e do Cacimbo, anuais, sintamos agora, em termos sazonais mais alargados, o poiso da estação das Eleições.

O termo estação tem aqui dois sentidos: o de mudança natural do tempo e o de ponto de chegada e de partida da ferrovia. Nesta acepção cultural, o voto pressupõe uma mudança, não só de pessoas, mas essencialmente da materialidade da res publica.

Há, por seu turno, uma reunião, um hangar de confluência dos ideais de cada um, para depois, sentados no comboio democrático, encetar uma partida para um tempo que se augura mais progressista.

2 Assim, a estação das Eleições promove uma ordenação assegurada pelas normas e regras de conduta, ordenação essa que levará continuidade, para além do tempo preciso do voto e da campanha que o antecede, dentro do mecanismo cumulativo da Cultura.

Consolida-se, com esta terceira estação das Eleições, a irreversibilidade do sistema democrático em Angola, dentro do qual, e em analogia com a termodinâmica, se pode anunciar uma entropia, uma mudança prodigiosa pela qual se mede o modo como as famílias (a matéria) e o fio condutor da política (a energia) se encontram armazenadas e distribuídas no sistema político.

Sendo a entropia uma função que obedece a um princípio de maximização, o império da cultura democrática evidencia-se, agora e no quotidiano que se segue, nos hábitos e costumes, nas palavras e gestos de cada um. Este é um dado adquirido para a Cultura Democrática, independentemente dos resultados das urnas, visto que, havendo amplas regras estabelecidas, o movimento de mudança tende da confusão dos elementos para a harmonia do sistema.

3 De resto, de que vivem as sociedades senão da conciliação entre o realismo e a metafísica do quotidiano, das sensações que alimentam a alma, as arquitetadas pela imprensa e as manufaturadas no tear da relação intersubjetiva, e do efémero refazer dos bens simbólicos e dos objetos fungíveis?

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