Fernando Pessoa, Aristóteles e o escravo Jau

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Porque é que o nome de Fernando Pessoa não é o mais adequado para patrono de um programa do tipo Erasmus para a CPLP, como defende, com muita acutilância, a catilinária de Luzia Moniz, “CPLP escolhe escravocrata racista para projecto juvenil”, publicada no Jornal de Angola, no pretérito dia 10 de Fevereiro de 2019?

Porque é que o nome de Fernando Pessoa não é o mais adequado para patrono de um programa do tipo Erasmus para a CPLP, como defende, com muita acutilância, a catilinária de Luzia Moniz, “CPLP escolhe escravocrata racista para projecto juvenil”, publicada no Jornal de Angola, no pretérito dia 10 de Fevereiro de 2019?
Segundo as Nações Unidas, a escravidão moderna é um flagelo que afecta cerca de 40 milhões em todo o mundo. A África escraviza mais de nove milhões de pessoas, o número mais elevado de todos os continentes. Esta realidade global não justifica que alguém, em pleno século XX afirme que “A escravatura é a lei da vida, e não há outra lei, porque esta tem que cumprir-se, sem revolta possível. Uns nascem escravos, e a outros a escravidão é dada.” Esta frase é do grande Poeta, meu mestre nesta arte de cantar o Mundo. Há cerca de 400 anos antes da nossa era, já Aristóteles fazia a apologia da mais completa submissão humana, ao considerar o escravo uma ferramenta animada necessária para o desenvolvimento. E Luís de Camões, o príncipe dos poetas portugueses, teve um escravo comprado na Índia, chamado Jau.
Porém, é preciso colocar cada coisa no seu devido tempo. No dia 27 de Fevereiro de 1869, Portugal abolia "o estado de escravidão em todos os territórios da monarquia portuguesa." Camões viveu no século XVI. Fernando Pessoa viveu numa época em que o mundo inteiro condenou o tráfico de pessoas. Pessoa era um intelectual e conhecia a História da Humanidade.
Ao longo da nossa História comum, todos quanto defenderam a legitimidade da servidão absoluta nunca fizeram o esforço de trabalhar sem descanso, dar de comer a um patrão e limpar o cocó dele, mesmo que fosse por um mês.
Daí a jornalista Luzia Moniz, descendente dos que trabalharam durante séculos para que a Europa hoje seja a Europa, ter-se manifestado contra a nomeação de Pessoa para patrono do projecto de intercâmbio universitário no Espaço de Língua Portuguesa.
Em “Uma (quase) autobiografia” do investigador brasileiro José Carlos Cavalcanti Filho, Fernando Pessoa, que muito considero como Poeta da alto coturno, diz que “A escravatura é lógica e legítima; um zulu (negro da África do Sul) ou um landim (moçambicano) não representa coisa alguma de útil neste mundo.”
O texto de Moniz refere que “Aos 40 anos (Pessoa) consolida a sua ideologia racista, escrevendo: “Quem nos diz que a escravatura não seja uma lei natural da vida das sociedades sãs?”
Nem sequer é provável que Fernando Pessoa tenha certa razão, mesmo tendo em conta os números acima avançados sobre a escravatura contemporânea. A escravatura é inadmissível, considera a ONU. E a própria Declaração dos Direitos do Homem refuta a simples ideia de alguém viver sob o regime de escravatura.
Por isso, não concordamos com o investigador José Barreto, que trabalha há 15 anos no espólio de Fernando Pessoa, quando diz que "Pessoa explica que quando fala em escravatura não se está a referir literalmente ao sistema esclavagista do passado, mas à 'plebe', ao operariado moderno”.
Nem com Richard Zenith, “um dos grandes conhecedores da obra do poeta”, quando nega que o poeta "tenha aderido às ideias racistas de Ernst Haeckel e outros, que acreditavam na inferioridade genética de certas raças, nomeadamente a raça negra." Não é isso que Pessoa diz quando atira Zulus e Landins para o caixote do lixo? José Luís Mendonça

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