Lukoki e Aznavour na barca de Rá

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Aqui na Terra, uns andam de candongueiro, outros viajam de jacto privado. Mas quando se vai para o Reino dos Mortos, todos viajam no barco solar de Rá (mesektet).

Aqui na Terra, uns andam de candongueiro, outros viajam de jacto privado. Mas quando se vai para o Reino dos Mortos, todos viajam no barco solar de Rá (mesektet), que, por causa da sua primazia mitológica, nascida no Egipto Antigo – a primeira potência mundial da História – é, até prova em contrario, o veículo mais apropriado para nos levar desta para melhor.
Mera coincidência factual, ou esotérica concertação astral, o angolano Ambrósio Lukoki “Nzakimwena”, ex-ministro e embaixador, e o francês Charles Aznavour, insigne cantor e actor de cinema, deixaram este mundo no mesmo dia 1 de Outubro e, por essa razão, lá se foram os dois encontrar sentados lado a lado, na barca solar do deus Rá.
Baloiçando levemente nas ondas subterrâneas do mágico e imponente rio Nilo, pergunta, a sorrir, o nosso ex-ministro da Educação ao seu inesperado companheiro de jornada:
– Ó ilustre Charles Aznavour, saiba que você compôs uma canção que me marcou toda a vida. Tem por título Hier Encore (ainda ontem). Lembra-se dessa canção?
– Lembro-me, querido companheiro deste barco funerário. Olhe que não esqueço nem uma letra das 650 canções que compus. Trago-as aqui todas na minha alma e vou entreter Osíris, lá no salão dos Mortos, cantando-as uma a uma, até ele adormecer. Assim, safamo-nos e bem do juízo final, ah, ah, ah!, – sorriu a bandeiras despregadas o músico.
– Ah, ah, ah! – corroborou Nzakimwena. – Mas, diga-me uma coisa, Charles, essa canção nostálgica, agora e aqui, não te traz saudades lá da Terra?
– Saiba que não, Lukoki, cumpri a minha missão, fui homenageado em vida, até uma estátua me ergueram na Arménia, de onde sou descendente, emocionei muitos corações, que as minhas músicas inspirem outras e os meus filmes ajudem a pacificar o mundo cruel que deixámos. Mas, então, e você, Lukoki, leio na sua alma que você foi um político influente em Angola. Tem algum receio de Osíris o condenar por essa sua escolha de vida?
– Não tenho receio algum, meu caro Charles. Nem sempre somos nós que escolhemos. No meu caso, era jovem e vivia num país colonizado. Não tive escolha. Entrei para a política, dei o meu contributo para a independência do meu país, se tivesse que voltar atrás, nas mesmas condições, não hesitaria.
– Folgo em ouvi-lo, meu ilustre Lukoki. Estamos quase a chegar ao nosso destino final. Já vejo Osíris e os seus 42 assessores à nossa espera. Deixa-me começar a cantar...
– Então, Charles, comece por aquela belíssima canção La bohème (A boémia)...

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