O canto do Huambo

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1 O perfume resinoso dos cedros e dos eucaliptos do Planalto Central entrou pelos meus pulmões no passado dia 2 de Novembro, em pleno meio dia, depois de percorrermos cerca de 800 km em 7 horas, é a nova era da comunicação interprovincial agilizada pelo trabalho livre do constrangimento da guerra.

No dia seguinte, sábado, uma chuva grossa e momentânea deixou os passeios e ruas do Huambo a cantar o barro e a semente.
Nesta época das chuvas, a rota, depois do Dondo, é sempre húmida e fértil de paisagens verdes, camponeses que oferecem colheitas e alguma caça.

Desta vez o Huambo me festejou de verdade. Conheci a esposa e o filho mais velho de um dos grandes nomes da música popular urbana de Angola: Viñi-Viñi. A senhora Maria Venâncio, de 44 anos, sentou-se à minha frente, cm a sua perna direita engessada, acidente de uma colisão do kupapata (moto-táxi) onde ela ia, com uma viatura.

Dona Maria me disse que Viñi-Viñi, o marido, teve um apoio substancial do empresário Valentim Amões, que até casa doou à família, afinal o cantor, além de possuir dotes confirmados para a música, teve um papel mobilizador na província, em prol da paz. Foi o próprio Amões que patrocinou a edição dos três CDs do Rei da Música Popular do Huambo, nomeadamente Tri-ti-ti, Pakissi e Triti-ti renovado.

Com a morte do empresário, também se foi parte da esperança de prosseguir aquele mecenato que já pede uma reedição das obras do cantor.

2 Ao meu lado estava o amigo e companheiro do cantor, João Afonso, que acrescentou que Viñi-Viñi viveu no tempo colonial em Luanda, lá pelas bandas do Kikolo e o pai dele ouvia-o cantar quando só tinha 4 anos de idade, que até pensava que alguma doença estranha o tinha possuído.

Por causa deste homem que viveu para a música durante 30 anos fui ali aos arredores do Huambo, na praça da Alemanha, onde um mercador de música me fez feliz, ao vender-me um CD com algumas composições do Viñi-Viñi e um outro com muitas músicas do Francô e da sua `toute puissante' OK Jazz.

Posso então reviver algumas maiores composições rítmicas de toda a História Moderna da África, como Café, Nga Robin Mama, Nganda Maboke Naboyi, Maboli Na Ngai ou Si Lu Vanqui. Regressei com aquela nostalgia que sempre nos invade quando deixamos uma terra fresca, sem engarrafamentos de trânsito e que nos entra pela alma com a dimensão ereta dos seus eucaliptos e a voz cantante do seu povo.

Ate ao Waku-Kungu são montanhas a perder de vista, aureoladas por uma franja de nuvens brancas de algodão. E a chuva a cair. E o nevoeiro ao descer as montanhas. E os homens que passam com catanas na mão, símbolo da bandeira e da frutificação. E aquela povoação, a meio caminho do Dondo, toda ela cinzenta como o barro genesíaco, onde apetece parar e ficar a falar em silêncio com as pessoas...

3 Foi tudo por causa do Variante 2012. Ele me concedeu essa bênção de conhecer novas gentes, novas estórias reais de uma terra que já visito desde 1976. São emoções do mundo da Cultura, como aquela de ouvir, antes do concurso, uma canção do C4 Pedro, e constatar que nem toda a música que os jovens produzem é daquele tipo de amarrotar os ouvidos, no seio dos nossos cantores também há almas sensíveis que sabem escutar o vento entre as árvores da floresta, ainda que esta seja feita só do betão de Luanda.

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