Paisagens de Cacimbo

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Parecem paisagens de nostalgia. Mas não. É simplesmente o Cacimbo. As sementes incubam no útero, dormem nos celeiros ou renascem nos moinhos das bocas.

1 O céu demora a abrir as janelas. A penugem dos pardais pesa no fio elétrico. Abrem-se os ovos ocultos nos interstícios das construções, sempre cabe lá um ninho, se não é de pardal é de osga ou lagartixa e, o que não é menos importante, os poetas cantam mais, nem que seja só da alma para dentro, os romancistas desfiam linhas feéricas para a meada da sua escrita.

É este um tempo em que o mundo parece repousar, só que está é a potenciar alento na cíclica renovação da Vida.

Foi num Cacimbo igual a este, em 2 de Julho de 1706, que a profetisa Kimpa Vita, visionária da restauração do Reino do Kongo, então em vias de fragmentação, morreu numa fogueira da Inquisição, em Evolulu, nos arredores de Mbanza Kongo, atual capital da Província angolana do Zaire.

A sua morte, porém, ao contrário de terminar com a "heresia", deu início a uma nova fase do antonionismo. Os crentes asseguravam que no preciso lugar onde fora queimada apareceram dois profundos poços, cada um deles com uma brilhante estrela no interior. Este é o nosso tema de capa, assinado por Simão Souindoula.

O livro de Marta Santos sobre as múltiplas dimensões humanas de Elias dya Kimuezo, apresentado por Timóteo Ulika, ultrapassou o domínio da Literatura e ganhou, aliado à cerimónia que teve lugar na sede da UEA, foros de excelente homenagem ao Rei da Música Angolana.

Manuel Caboco, nosso novo colaborador, descreve-nos o panorama atual da preservação e desaparecimento do Património cultural em Angola, num excelente artigo analítico que alia às suas notas sobre a Conferência Internacional sobre Educação Patrimonial, recentemente realizada em Luanda.

2 De Paris, chegam-nos notícias do Festival Rio Loco, pela pena polida de Leonardo Silva. Tratou-se da décima oitava edição realizada em Toulouse, de 13 a 17 de Junho, e que explorou os caminhos das culturas dos países de língua portuguesa em terras gaulesas, um evento generoso, cosmopolita e pluricultural, mas também um espaço pluridisciplinar.

Depois, vem Zetho Cunha Gonçalves com Roberto Chichorro pela mão, dizer-nos que o pintor moçambicano possui "um apuradíssimo e rigoroso sentido da matéria de que é feita a infância - esse dom maravilhoso da felicidade preservada e contagiante.

" Do nosso assíduo colaborador Nguimba Ngola, recebemos um conto fantástico e real sobre "O buraco e a cobra do dinheiro", que aqui damos à estampa, para deleite do leitor.

Para além de novidades da Alemanha, onde Tazuary Nkeita apresentou a novella `O Último Segredo', para além dos sons que nos vêm da terra da Marrabenta, desta feita o nosso colaborador Norberto Costa fala-nos da "velha maka dos direitos do autor (assunto que) continua a mobilizar a atenção dos mais diversos sectores da nossa sociedade."

3 Para terminar, convidamos o estimado leitor a chamar com a voz de Décio Bettencourt Mateus, "Xé, candongueiro!". Porque certamente o táxi azul e branco há-de parar na estação da página 32, para nos levar a todos numa viagem de releitura deste vosso jornal. O Cacimbo a isso nos convida.

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