Perfume de goiaba

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1. É tempo de goiabas. Tempo de despovoar as sementes dessa polpa cor-de-rosa, tempo de sorver o dulcíssimo perfume que atravessa a atmosfera luandina, desde as banheiras das kinguilas até aos balaios de fruta das casas e suspende no céu-da-boca uma vontade de voltar a ser criança.

Descasca-se uma goiaba, perguntando: “porque é que a goiaba é tão doce e saborosa?”, e entramos no domínio da especulação Filosófica, na busca dos fundamentos das coisas. A cada instante, acontece uma imersão do pensamento na paisagem que vislumbramos com todos os sentidos, os do corpo e os da alma. Essa imersão, por si só, é já uma transformação metafórica da realidade. É o dealbar, a génese da Cultura. Por isso, o homem é o animal cultural por excelência. A outra faceta, a de animal político, apenas nela se deixa subsumir.

E é por ser um animal cultural por excelência que os agentes e as obras da Cultura, desde as pinturas rupestres, Ficam eternamente gravados no mural da História, como impressões digitais de uma época e de um povo. Comer goiabas é também um acto cultural, na medida em que, sendo um fruto tropical, traz dentro dele milénios da fotossíntese de um sol abrasador que moldou o matiz e o pensamento do homem africano e na medida em que, durante milénios, a goiaba foi sendo infinitamente reciclada pelo desígnio transcendental da Impermanência. Quer dizer, a goiaba que comemos hoje, comprada nas kinguilas da baixa de Luanda, já foi raio de Sol, molécula recuperada de um antepassado nosso, homem ou animal, terá sido grito de leão, ato de amor isolado, despojo de guerra que o átomo misturou, sacudiu na peneira do Tempo e fez tombar de alguma árvore nutrida de restos de terra toda essa síntese de doçura e perfume que amadurece o incontornável pecado da gula.

2. É neste tempo doce e perfumado que o poeta Maurício Gomes desceu à terra para ser reciclado pela Vida, deixando memórias indeléveis no livro da Cultura. É neste tempo das goiabas amarelas que levamos ao leitor Esta manhã terceira do nosso ofício de servir que dá sentido ao acto de ser Homem. Arnaldo Santos e Luís Kandjimbo vieram fazer morada nestas páginas, nas cadeiras dossobas das Letras. De Cabo Verde, chega-nos a pena do nosso novo colaborador Nuno Rebocho, que nos traz toda a aura monumental da Cidade Velha. Celebramos com a UNESCO o 30 de Abril, Dia Internacional do Jazz, com imagens magníficas dos grandes cultores deste género musical que penetra, hoje em dia sem reservas, nos outros géneros, assim nos soa o renascido grupo Afra Sound Star. É música que se absorve com a mesma ansiedade com que se morde a lua rósea da goiaba, tudo é tão estranho e tão próximo, tudo é menos pesado que a sombra e não sequer terminar nunca o repasto da alma.

3. Da alma, porto seguro da Cultura, nasce o outro homem traçado a escopro no mural da História, Capaz de dar nome à goiaba, coisa nascida Sem nome, esse homem produtor de atos culturais no devir transcendental da Impermanência. E assim vamos, coma alma segura entre os dedos, a produzir a cada quinzena um novo artefacto de conhecimento e informação, a voar nas asas da poesia, porque acreditamos que a poesia é o santuário do Humanismo.

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