Plantar palmeiras na lua

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O poema "O verde das palmeiras da minha mocidade",

1 Escrito na Cadeia de Caxias no dia 26 de Fevereiro de 1955 por Agostinho Neto, transporta na sua tessitura verbal signos representativos de múltiplos estados psicológicos revelados pelo sujeito poético, enquanto síntese do sentir coletivo.

Neto afirma que partia da sua terra natal "afagando o dedo da insegurança", deixava para trás o seio materno da Mãe-África, no qual se acostumara a beber, na sua vivência de homem negro estigmatizado pelo colonialismo, o manancial da Cultura, que lhe conferia a emancipação (embora condicionada aos átrios da alma) pela via do humanismo, porta de entrada da igualdade universal.

A abertura do poema desenha um quadro macabro bio vegetal e psicológico de sujidade, podridão das águas do rio Kwanza, transbordante de troncos e vísceras, onde paira o medo. E o poeta "fugia do verde/ do verde-negro das palmeiras/ da minha mocidade.

" Numa estrofe desse longo poema, na penúltima estrofe, Neto diz, agora já com entusiasmo e fé: "E nos gritos embrionários dos velhos mundos/ tudo revive/esta dramática mocidade de reencontro/tudo revive em peitos largos de ansiedade/ofegantes à força da verdade/alicerçados no imperecível."

A visão das palmeiras inserida no poema de A. Neto conduz o leitor a uma aproximação estético-futurista com os versos do poeta Ernesto Lara Filho, que, como Neto, também constrói signos de um ideário que franqueia as portas do individualismo criador para a alegoria do coletivo: «Nós iremos, nós também/ Minha mãe/ pisando o capim queimado/ pisando a areia das praias/ atravessando os desertos/ Caminhando pelas lavras/ e derrubando florestas: Nós iremos, nós também plantar mangueiras na Lua."

2 O "verde das palmeiras" é retomado aqui, em toda a sua simbologia de esperança, fé, juventude e força, mas também fruto e tempo de festa, em suma, a idiossincrasia de todo um povo que fez com que o poeta não se deixasse alienar pelos caminhos do exílio e retroalimentasse a chama da luta com a soma da africanidade que lhe corria nas veias.

A gesta gloriosa que se seguiu a essa fuga "do verde das palmeiras" da mocidade foi de uma estatura gigantesca e única na História de África. Nas horas do sofrimento mais íntimo, encerrado entre as grades da prisão, o poeta visionava a paisagem da sua terra e escrevia: "O verde negro das palmeiras tem beleza!

3 " Passados que são 56 anos desde a partida de Neto para uma gesta que culminaria com o içar da bandeira no largo 1º de Maio (hoje da Independência) no dia 11 de Novembro de 1975, nós, os poetas da Angola livre, recolhemos no verde-negro das palmeiras da nossa terra, aquela "estratégia épica, coletiva, para o povo angolano e um sentido pragmático da história", como bem referenciou o professor Pires Laranjeira.

Eis-nos, pois, homens deste futuro poetizado em versos magníficos por aquele que partiu um dia "sorridente e triste/deixando o espírito espezinhado nos currais abandonados", eis-nos dignificados aqui e agora, com as mãos cheias dos signos que ele nos legou indo "para mais alto", até à Lua, onde a alma do poeta conseguiu plantar não só mangueiras, mas também "o verde-negro das palmeiras".

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