Rolling Stones versus caducidade do semba

Envie este artigo por email

1 A conversa no jango da UEA no passado dia 29 de Janeiro, foi mesmo isso: uma daquelas conversas nobres sobre um assunto muito importante para a sanzala dos criadores das artes e das letras angolanas e dos consumidores da música, em particular. Ficará na História da UEA e, quiçá, da democracia que caracteriza esta primeira instituição cultural cívica do país.

O encontro suscitou várias indagações, evidenciou o estado actual da nossa música e postulou algumas constatações passíveis de desenrolar o fio à meada labiríntica que enreda o universo da canção num palco de ilusões alimentadas pelo candeeiro feérico de uma pretensa modernidade, onde o kuduru, o `house', o `hip-hop' e o `r&b', são os reis da parada.

2 O encontro também revelou que um grupo de resistentes não quer cair no limbo do esquecimento a que os querem votar os herdeiros anti-naturais das indústrias do disco, mais concretamente, da indústria de produção e da indústria do espectáculo, na nova economia de mercado que demora a fazer uma fábrica de discos e a enviar gravadores de talentos às periferias, mesmo com o extenso financiamento da China.

Quanto à indústria do espectáculo, a música nacional não pode sobreviver sem pelo menos um espectáculo por semana, eu diria mesmo vários, nas casas de cinema e recintos apropriados, onde as receitas dos ingressos podem cobrir as despesas com o cachet dos artistas. E nesses eventos, então estariam os da velha e os da nova geração, juntos a cantarem e a encantarem o país, em Luanda e nos territórios interiores.

Porque, se o roqueiro Mick Jagger, dos Rolling Stones já vai na casa dos 70 anos e nunca parou de cantar e editar discos, mantendo-se fiel ao estilo musical `Rock', se Papá Wemba e o falecido Tabu Ley Rochereau nunca foram postos no armário da `música dos kotas', onde certos radialistas resolveram pendurar Elias diá Kimuezu e os grandes cultores do semba angolano, rotulando a sua arte como `música dos anos 60', dois chavões desestabilizadores que conduziram a juventude ao desprezo pela música de raiz e pela cultura africana, é caso para perguntarmos: porque é que, em 2003, Mick Jagger foi condecorado cavaleiro da Ordem do Império Britânico, e nós, aqui em baixo, vemos o nosso Rei a chorar por patrocínios para gravar um novo disco? Traz dor no coração.

3 Por isso, Mito Gaspar veio de Malanje onde vive rodeado pela Natureza, dizer que não enterrou as armas (a guitarra e a canção em kimbundu). Valha-nos Nossa Senhora da Muxima! A ver se o Rei Elias e aqueles a quem um dia a rádio pendurou no cabide dos kotas dos anos 60 ressuscitam a nossa música e as nossas línguas na música, seja esta de fusão ou de veros instrumentos, sem desprimor para as colagens externas, mas que não sejam monopolizadoras ao ponto de, numa farra, um DJ nos brindar com uma injecção de estricnina de 120 minutos de `house'. É que eles, os DJs, também fazem parte do grupo da comunicação social, e educam o público. Temos, pois, de reeducá-los, a eles e aos colegas da rádio. Pois se há tanta, mas tanta boa música em África e no resto do mundo, porque nos impingirem três ou quatro estilos que nos rebentam os tímpanos e as janelas das casas nos fins de semana? Valha-nos Nossa Senhora da Muxina! Agora e sempre, ámen!

Comentários

Newsletter


Colabore com o Jornal Cultura - Envie-nos os artigos da sua autoria.

Colaboradores Ver todos