Surdez cultural

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1 Mesmo estando nós, segundo Lúcia Santaella, a viver na era da Cultura Digital (ou cibercultura) na qual se assiste a uma convergência dos média, a Rádio continua, no caso de Angola, país em vias de desenvolvimento, a ter um papel e uma função de grande relevo na informação, na formação e na recreação da sociedade.

Acertadamente, o grande teórico da comunicação social, Marshall McLuhan, a classificou como um médium quente. Para destacar a importância da Rádio num país como Angola, basta referir que é um facto corriqueiro em Luanda observar um guarda noturno no seu posto de vigia escutando o seu programa preferido num rádio a pilhas.

Da minha parte, posso confessar-vos que, apesar dos inúmeros trabalhos na lavra do pensamento e da escrita, todos os dias oiço um pedaço de rádio, às vezes só música ainda, o prato predileto da minha alma-mundo.

Da música que oiço e da que devia ouvir muito há para dizer, mas não foi este editorial talhado para este tema, portanto, aguardem por mim numa próxima curva deste jornal.

2 Por agora, ergo a caneta ébria de maruvo para saudar dois programas feitos na Rádio Nacional, com alma e coração. O primeiro, dada a sua maior antiguidade, é o já histórico Antologia, pela voz do griô António Fonseca, levado ao ar desde 1978, e que divulga a oralitura angolana, o que, vale dizer, significa dar a conhecer a alma e o pensamento dos povos deste imenso país.

O segundo é o programa semanal Poeira no Quintal, nascido nos meados dos anos 90, pela batuta de Simão Bequengue, e cujo contributo à Cultura Angolana se distribui, resumidamente, por 23 títulos musicais individuais e uma coletânea de seis títulos instrumentais, mais 70 homenagens a músicos dos anos 50, 60 e 70 que há mais de vinte anos não subiam ao palco.

Estas homenagens foram possíveis com o desdobramento do programa para uma plataforma mais participativa do público, através da cooperação com o centro cultural Kilamba, que tem servido aos domingos numa única bandeja o Caldo do Poeira e a música como pano de fundo.

Há muito que o programa Antologia, de António Fonseca, pela sua duração no tempo e pelo esforço de compilação, pesquisa e apresentação radiofónica da nossa tradição oral, merecia um reconhecimento. De igual modo um programa de rádio como Poeira no Quintal, pelas razões acima apontadas e pelo esforço e dedicação dos seus autores, com Simão Bequengue à cabeça, parece-me transparecer uma aura de jornalismo cultural digna de mérito.

Refletindo um pouco sobre o Jornalismo Cultural, sabemos que ele nasce como locus adequado para dar acesso irrestrito a todo saber, fato esse que se torna uma regularidade, sendo a outra regularidade do jornalismo cultural o seu carácter reflexivo que possibilita uma forma de produção singular do conhecimento humano no meio social onde o mesmo é produzido, circula e é consumido (Sérgio Gadini).

3 Acontece, no entanto, que a Cultura é tida como uma onda periférica no círculo do desenvolvimento das nações. Deve ser por isso, presumo, que os Prémios de Jornalismo, em Angola, e quase por esse mundo fora, fazem tábua rasa do Jornalismo Cultural. A isso se chama surdez cultural.

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