A arte como profissão em Angola (4) Públicos das artes

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Este é o último de uma série de quatro artigos publicados neste jornal, sobre a arte enquanto actividade profissional em Angola.

A arte como profissão em Angola (4) Públicos das artes
A arte como profissão em Angola (4) Públicos das artes Fotografia: Paulino Damião

 Nos dois primeiros artigos, nos debruçamos sobre a construção e a natureza do estatuto de artista profissional, respectivamente. No terceiro, o foco centrou-se na análise das démarches para legitimação deste estatuto junto da sociedade. Para finalizar, o presente artigo pretende, essencialmente, levantar algumas interrogações em torno dos públicos das artes e a sua constituição. Julgamos ser útil questionar: existem públicos para as
artes em Angola? Teremos uma arte pública em Angola? Que relações estabelecem as artes com sociedade?
Ao longo dos três artigos anteriores fomos demonstrando como as artes (lato sensu, os artistas), estão imbricados nas dinâmicas sociais. Isto ficou
claro, por exemplo, quanto à questão da construção do estatuto e necessidade da sua legitimação social. Vimos que este estatuto é construído socialmente e, que é dentro da própria sociedade, onde se encontra as âncoras da sua institucionalização para uma legitimação completa. Deste ponto de vista, toda a nossa reflexão perderia o seu valor crítico e pedagógico se não abrangesse a análise dos públicos das artes, pois, como
se sabe, desde a modernidade, as artes se têm afirmado como linguagem e, como tal, instrumento de diálogo.
Neste sentido torna-se urgente fundarse um diálogo entre o instrumento e os vários públicos a que serve.
O debate sobre os públicos das artes é já bastante antigo. Foi no século XVIII, quando a estética enquanto teoria das artes se implantava a nível do considerado mundo civilizado, sobretudo nos países da Europa, que se foi forjando a geografia das artes e definidos os moldes das suas relações com as demais produções sociais. Contudo, desde cedo, esta tarefa esteve longe de ser fácil. Porque, se por um lado, a delimitação das fronteiras entre o cognitivo, o moral e o expressivo pode ser considerada uma tarefa concluída, por outro lado, os termos dessas relações estão ainda por se definir. É nesta senda que Habermas - um dos maiores estudiosos da esfera pública na contemporaneidade - fala da necessidade de se reposicionar as produções artísticas em contexto de interacção com outras produções sociais. A proposta deste autor inclui uma peremptória recusa do regresso ao ideal mítico associado às artes e procura conferir (ou restituir?) à sua função expressiva maior tonalidade. Esta questão remete-nos à outra igualmente antiga. A questão da autonomia da arte em relação à sociedade. Trata-se de um fenómeno decorrente da modernidade onde simultaneamente se instituiu e autonomizou como diferentes planos de acção, a política, religião e arte na esfera pública donde se digladiam por legitimação através de processos de diferenciação social. Sucede que neste processo de diferenciação e autonomização das esferas, adoptaram-se determinadas lógicas que provocaram o fechamento dos planos. Dito de outra forma, a busca da autonomia conduziu, em certa medida, ao isolamento. As artes podem autonomizar-se da sociedade, enquanto plano independente e auto-reflexivo mas, jamais poderão isolar-se dela.

Aliás, o desenvolvimento tecnológico tem contribuído para que as artes se tornem cada vez mais públicas. Para que o exercício artístico se junte às demais produções numa tentativa colectiva de construção de alternativas para uma sociedade que é líquida e está em constante mutação. Estas mutações estão, em parte, na base de um aceso debate dentro da teoria das artes, donde, como vimos Habermas1 , e agora Benjamim2
sugerem um novo olhar sobre o que é a arte. As artes hoje ganharam novas faces, seguem novas lógicas, regem- se por novas regras. As artes hoje
se propõem ir além do estético e do contemplativo, procuram um lugar no quotidiano, querem ser úteis e práticas, por isso recusam a limitar-se ao
simbólico. As artes ganharam valor de mercado, as artes são mercadorias também. Enquanto mercadoria, as artes entram num estado de impureza
onde passam a aglutinar pontos, até então, considerados irreconciliáveis como o divertimento e a crítica, como se verifica no cinema. A arte perde parte do seu valor ritualístico (associado a experiencia do emissor e do receptor) para agregar o valor de exposição, isto é o valor de mercado, no entender do Benjamim.
Em Angola as artes de espectáculos e mais performativas são seguramente as que mais públicos conseguem atrair.
Este facto pode se verificar até nos países mais secularizados e com elevadas taxas de escolarizados. Para entendermos as lógicas da demografia das artes, devemos ter em consideração que, de acordo com diversos estudos, em muitos casos há uma comprovada relação positiva entre elevados níveis de escolarização e secularização das sociedades. É dessa positividade que decorre configuração dos públicos das artes. Assim, se explica que, em países como Dinamarca, Suécia, Finlândia, Alemanha ou os Estados Unidos da América a percentagem do público que assiste às exibições de arte clássica ou erudita não seja tão baixa quando comprada a massa de indivíduos que procuram pelas formas de manifestação artísticas mais contemporâneas, como a dança e música urbanas, por exemplo.
Os ateliers e museus são espaços regularmente frequentados por indivíduos de diferentes extratos sociais, porque as diferenças económicas e sociais não interferem nos níveis de escolaridades. Muitas destas sociedades alargaram o ensino superior à mais de dois quartos da sua população, fazendo com que mais indivíduos têm acesso ao código das artes. Porque é disso que se trata. O acesso ao código. A cultura popular por se constituir maioritariamente de elementos da tradição estará sempre mais acessível que a cultura erudita. O acesso a esta última pressupõe o domínio de códigos específicos e o desenvolvimento de sensibilidades próprias o que dificilmente se alcança sem escolarização. Fica deste modo clara a associação entre os níveis de escolarização e o consumo da produção artística.
Com a realização do II Festival Nacional da Cultura (FENACULT) assistese ao mapear das desses públicos no nosso país. Ou no mínimo ao reconhecimento das suas fronteiras geográficas e identificação dos vários públicos
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para as distintas categorias artísticas. Neste âmbito, o ministério de tutela criteriosamente constitui várias províncias do país em capitais culturais de
uma determinada disciplina artística.
O facto de a cidade de Benguela ter sido constituída novamente em capital do teatro, após o ter sido já na primeira edição realizada em 1989, a par de ter acolhido outros festivais importantes da categoria, indicia um claro mapeamento e reconhecimento dessas fronteiras e desses públicos, por exemplo.
Porém, no caso angolano a questão não parece ser tão fácil assim. Faltamnos alguns objectivos para uma análise mais consistente e consensual, por estarmos ainda numa fase embrionária da nossa indústria cultural. Sem esta componente material não mercado e sem mercado não há como falar sem reservas de públicos. Portanto, temos públicos para as artes mas, só para algumas.
Toda arte é pública. Porém, somente algumas são populares. Fazer arte implica comunicar, estabelecer pontes e dialogar. Este exercício obriga ao reconhecimento da alteridade, exige um apurado conhecimento do colectivo onde se está inserido e do público (que nem sempre é o mesmo) para o qual se comunica através da arte. A arte é uma criação individual cujo consumo deve ser necessariamente público, pois a sua realização acontece na esfera pública.
Neste sentido ela será sempre pública.
Contudo, a arte precisa de ser difundida e socializada para que se torne popular, embora não seja esta a sua pretensão inicial. Diríamos, portanto,
que a uma maior ou menor divulgação de uma determinada disciplina artística poderá corresponder a igual grau de aceitação pública, sobretudo em contexto de forte mediatização social, como é o nosso.
Em Angola existem disciplinas artísticas que estão quase sem público, quando comparadas com outras. São exemplos a música lírica, o balett tradicional e a escultura. A dramaturgia e a pintura começam a angariar adeptos nas últimas décadas mas, ainda, estão longe de serem classificadas como artes públicas, no sentido de que são publicitadas e procuradas por um público considerado substancial ou representativo da população nacional. Estas disciplinas fazem parte de um leque de outras, consideradas ou qualificadas como “artes da elite” ou arte erudita por não estar acessível a maioria dos públicos.

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