A baixa estirpe de um cartoonista italiano

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Pena é que, em pleno século XXI, mesmo nas coisas mais simples e aparentemente inofensivas (como é o caso do futebol).

As questões de melanina continuem a entupir as mentes de cidadãos do chamado primeiro mundo, que, de forma mais ou menos envergonhada mas não menos explícita, manifestam um arreigado preconceito de cor, que lhes está entranhado no tutano da estrutura craniana e do qual não se conseguem libertar.

Esta minha conclusão, fruto da minha indignação, vem a propósito de o maior jornal desportivo italiano, "La Gazzetta Dello Sport", ter publicado um desenho que representa o jogador italiano Mário Balotelli no alto do Big Ben, de forma análoga ao filme King Kong, quando o gorila subiu para o Empire State Building de Nova Iorque.

Esta foi a recompensa que aquele jornal, de italiano para italiano, ofereceu a Mário Balotelli, após o mesmo ter ajudado a Itália a eliminar a Inglaterra nos quartos de finais do Euro ao marcar dois golos naquele desafio.

A gracejola, de péssimo gosto, que infere a animalização do jovem jogador negro italiano, não é ingénua, nem inócua e muito menos artística ou inovadora.

Caso contrário não provocaria os protestos de leitores e organizações anti-racistas. Já, anteriormente, no segundo jogo da seleção italiana no Euro'2012, adeptos croatas haviam atirado bananas para o relvado, na direção de Mário Balotelli e, sempre que o mesmo tinha a posse da bola, imitavam sons de macacos, ignorando que, no fundo, estavam a projetar a sua própria imagem de animalização e ignorância.

Daí que as desculpas apresentadas pela "La Gazzetta Dello Sport" sejam totalmente desprovidas do mínimo de senso e honestidade. Tudo se agrava, quando referem que "o jornal sempre lutou contra qualquer forma de racismo em qualquer estádio e viu as ofensas direcionadas a Balotelli como uma forma inaceitável de incivilidade".

Pergunta-se: "Então foi por isso que o "La Gazzetta Dello Sport" publicou aquele patético cartoon de péssimo gosto? Isto faz-me lembrar a estória de alguém que afirmava nunca ter sido racista e que tanto apertava a mão a um branco como o pescoço a um "filho da mãe" de um negro (para não dizer, aqui, algo mais despudorado, que, de facto, aquele indivíduo chegou a afirmar).

É claro que, como o mesmo afirma, o "jornal é para quem o lê". Contudo, por maior liberdade que haja por parte de quem escreve ou desenhe porque através do desenho também se comunica não há (nem pode haver) a libertinagem de, deliberada e gratuitamente, ofender quem quer que seja. Muito menos recorrendo a estereótipos de cunho marcadamente racial, próximas das teses discriminatórias de meados do século XIX, que, antes, serviam para justificar o hediondo tráfico negreiro e, hoje em total oposição aos princípios da Declaração Universal dos Direitos Humanos de que a civilização ocidental tanto se orgulha de ter incentivado e tanto apregoa, à boca cheia, de ser defensora servem, apenas, para denegrir e conflituar.

Já Chomsky, em "Armas silenciosas para guerras tranquilas" refere que na atual conjuntura globalitária, em que tudo, mesmo com perda de valores, se justifica pela competitividade do mercado, a maioria da publicidade dirigida ao grande público utiliza discursos, argumentos, personagens e entonação particularmente infantis, muitas vezes próximos à debilidade, como se o espectador ou leitor fossem meninos de baixa idade ou deficientes mentais. Por quê? "Se você se dirige a uma pessoa como se ela tivesse 12 anos de idade (ou menos), então, face à sugestionabilidade, ela tenderá, com certa probabilidade, para uma resposta ou reação também desprovida de sentido crítico como a de uma pessoa de 12 anos ou menos de idade".

Atitudes destas, não são (nem nunca foram) inocentes, mesmo quando o objetivo é distrair as pessoas dos seus verdadeiros problemas sociais, que, nos dias de hoje, afetam (e de que maneira) as diferentes sociedades europeias.

Depois, se calhar, são os mesmos (ou outros que tais) que nos vêm bater à porta a propor relações de amizade e respeito mútuo para uma cooperação mutuamente vantajosa, justificando, às vezes, como razão para o estabelecimento dessas mesmas relações, a incorporação de atletas negros, outrora africanos, nas suas seleções nacionais.

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