A "crioulidade" em Angola (I)

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Uma falsa teoria social usada como arma de arremesso político. O termo "crioulo", do ponto de vista epistemológico menos associado ao contexto sociológico e mais conotado com o contexto linguístico a partir da formação de pidgins que concorrem para o desenvolvimento e estruturação dos idiomas surgiu, no fervor da última campanha eleitoral, como uma arma de arremesso contra adversários políticos.

A “crioulidade” em Angola

A perspetiva de reemergência e afirmação de um desgastado discurso pan-africanista, assente numa inexistente "autenticidade genuína angolana", que, por falta de argumentação política, procura reaparecer de forma envergonhada, associada ao maior ou menor grau de melanina dos cidadãos, à sua origem ou ao seu modo livre de, social e culturalmente, pensar e agir.

Uma postura por demais negativa, própria das mentalidades estigmatizadas e, por conseguinte, retrógradas e fechadas, com dificuldade em conviver em sociedades abertas e democráticas, caracterizadas, em África, pelo multiculturalismo e plurilinguismo.

Desde a década de 60, que Willian Du Bois, promotor do pan-africanismo e Aimé Cesaire, promotor da negritude, ambos nascidos fora do continente africano, se haviam afastado destas correntes afro-americanas e antilhanas (não africanas) e que, nos dias de hoje, ferem os princípios reitores da equidade, da alteridade e da harmonização social, plasmados na Constituição Angolana, solenemente jurada a ser integralmente cumprida pelos partidos políticos com assento parlamentar.

A procura de hegemonia política, com recurso a uma hipotética legitimidade a ser alcançada, entre outros aspetos, a partir da cor da pele, local de nascimento, etnia, crença política ou religiosa e origem social, não ajuda a inculcação de um espírito necessário de angolanidade.

Ignora, por outro lado, que, de entre os próprios bantu, há pessoas mais escuras que outras, fruto de diferentes mestiçagens ocorridas durante a sua expansão no continente africano e no contacto com diferentes povos não africanos, entre os períodos pré e pós-colonial.

Do ponto de vista sociológico, as identidades constroem-se, sim, a partir de fatores de ordem histórica, cultural e política e não biológica. Ao cenário da minha memória emergiu um texto do Prof. Doutor Victor Kajibanga: "A crise da racionalidade lusotropicalista e do paradigma da crioulidade (o caso da antropossociologia de Angola)", que, resumidamente, refere o seguinte:
"A história dos movimentos protonacionalistas nos países africanos de língua oficial portuguesa, o surgimento da literatura de cariz negritudinista (que teve como alguns dos seus melhores representantes mestiços e brancos) e a activa participação dos mestiços na luta anti-colonial desses países, encarregaram-se de abalar a ideologia da chamada "fenomenologia cultural portuguesa", assente no princípio da criação do mestiço como condição da perenidade cultural portuguesa nesses países.

Com ligeiras adaptações, a antropossociologia da crioulidade, ao insistir na consciência de raça dos mestiços, parece tentar perpetuar uma das falácias da portugalidade e pautar pela marginalização dos mestiços e da sua condição de angolanos.

Pessoalmente, não acredito que o lugar dos mestiços na atual sociedade angolana e o papel que desempenham na construção da nação angolana se deva à sua consciência de raça".

Neste seu texto, Victor Kajibanga, professor titular e decano da Faculdade de Ciências Sociais da Universidade Agostinho Neto, desmonta conceitos e preconceitos assentes no lusotropicalismo e na crioulidade, que têm por detrás a defesa de uma hipotética "fenomenologia da cultura portuguesa" defendida, entre outros, pelo "filósofo nativista português" Pinharanda Gomes, que, através de um "rol de equívocos e estereótipos", chega a defender "teses absurdas e marginais", como as seguintes: "a invenção do mestiço era o facto mais importante da colonização portuguesa; o mestiço era a via necessária ao aparecimento da nova cultura portuguesa; o mestiço seria a ponte de união geográfica de Portugal e o mundo por ele colonizado". A esteira de Mário Pinto de Andrade e dos ensaístas portugueses Alfredo Margarido e Orlando de Albuquerque, Kajibanga considera "não ter havido, em Angola, a cristalização (no sentido hegemónico ou de enraizamento) das formas socioculturais resultantes da interação entre Europeus e Africanos".

Como as sociedades não são estáticas, mas dinâmicas, o processo de formação e fixação dos diferentes grupos etnolinguísticos e de várias outras comunidades são o resultado "de uma história e tradição milenares de mestiçagem biológica e cultural endógenos". Um aspeto subestimado pelos defensores do luso-tropicalismo e da teoria da crioulidade, que o antropólogo português José Redinha já havia registado.

Diz-nos um dos clássicos da sociologia, Émile Durkheim, que "uma sociedade é constituída, acima de tudo, pela ideia que os indivíduos têm de si mesmos (e não apenas pelo conjunto de pessoas que a compõem), pelo território que ocupam, pelas coisas que utilizam e pelos atos que realizam". A essência da humanidade, como afirma Victor Kajibanga, é, toda ela, mestiça.

O uso de um discurso de conveniência, mais ou menos racializado ou, no mínimo, de teor separatista, é, a meu ver um ato de irresponsabilidade política, fase ao desespero de quem prefere deitar tudo a perder, face à dificuldade de, pouco ou nada, politicamente ter para ganhar.

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