A "crioulidade" em Angola (II)

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Ambiguidade.

"Crioulo" é um termo polissémico que, na sua origem etimológica, deriva de criar. Após ter começado a ser utilizado no Brasil, em pleno século XVI, nos fins do século XVIII já se encontrava generalizado em toda aquela ex-colónia portuguesa, com o sentido de "escravo que nasceu em casa do senhor" e em oposição ao "negro buçal" precedente do tráfico africano.

O vocábulo propagou-se às áreas hispano-americanas para designar os brancos nascidos no novo Mundo. "Afigura-se nos que as sociedades crioulas se caracterizam como ambientes societais, produto de amalgamento biocultural num espaço de relativa exiguidade, com uma língua própria de comunicação, em tudo emergente de um processo de transculturação".

O termo "crioulo" começou por ser utilizado pelo escritor e sociólogo angolano Mário António Fernandes de Oliveira, na sua obra Luanda, "Ilha Crioula" e o investigador brasileiro Marcelo Bittencourt refere que, o conceito de crioulo passou a ser entendido, em Angola, como sinónimo de mestiçagem cultural, ou seja, a presença simultânea de elementos culturais africanos e europeus, bem como, ainda, a capacidade de atuar nesses dois mundos e realizar uma interligação entre eles.

Mário António Fernandes de Oliveira afirmava que tal grupo seria fruto de pequenos núcleos populacionais resultantes da penetração portuguesa em África, restrita a uma faixa litorânea ponteada por portos para o comércio de escravos, além de uma pequena inserção nas margens do rio Cuanza, através da construção de presídios e do estabelecimento de mercados ou feiras. A presença crioula ter-se-ia consolidado nessas regiões a partir do século XVII e Luanda constituiria o local privilegiado pelos seus componentes".Víctor Kajibanga, sustentando-se em Césaire e Mário Pinto de Andrade (1929-1990), refutou esta posição e afirma que aquela caracterização ignora a dimensão socioeconómica e política da colonização, "que consiste na pilhagem dos recursos naturais dos países colonizados, na exploração da força de trabalho dos seus habitantes e no desenvolvimento do poder económico, social e político dos colonizadores". Para Kajibanga "a essência social do colonialismo é una".

Daí não acreditar que tenham existido no mundo colonialismos que se caracterizassem por sentimentos de generosidade e "que supostamente terão investido na formação da nova cultura e do homem novo, em detrimento do saque de recursos naturais (e outras riquezas) e da exploração de mão-de-obra das populações colonizadas".

Considera ainda tais discursos teóricos infundados já que, na sua opinião, a teoria da crioulidade, formulada por Mário António de Oliveira (19341989), representa apenas uma variante da sociologia do luso-tropicalismo de Gilberto Freire (1890-1987).

Para Kajibanga, os termos sociedade "biculturalmente mestiça" e "sociedade crioula" têm apenas como alvo a construção de uma teoria explicativa, totalitária e hegemónica sobre a realidade sociológica angolana.

Com base numa "nova grelha (de leitura) teórica para a explicação dos factos e processos sociais angolanos que assenta numa sociologia (e epistemologia) do saber endógeno", Vítor Kajibanga contesta aquilo a que ele próprio chama de "racionalidade luso-tropicalista e paradigma da crioulidade."Esta opinião de Victor Kajibanga vai também de encontro à de Frantz Fanon que, na sua obra, "Os Condenados da Terra", afirma que "as relações colonocolonizado são relações de massa. Ao número o colono opõe a força".

Em relação a Mário António, Kajibanga afirma que este definia o lusotropicalismo e a crioulidade com alguma "ambiguidade e insegurança", já que, numa entrevista concedida a Michel Laban, um francês estudioso de literaturas africanas, igualava o luso-tropicalismo às práticas de alguns angolanos, quando festejam o Natal: "com bacalhau", "com figos", "amêndoas", "nozes", "com castanhas". Para além deste aspeto, "chega mesmo a chamar essa prática como um exemplo satisfatório de lusotropicalismo".

Porém, mais tarde, Mário António, na sua dissertação de doutoramento ­ A Formação da Literatura Angolana (1851-1950) ­, defendida, em 1985, na Universidade Nova de Lisboa, acabou por reconhecer o carácter polémico do conceito de crioulidade que, em alguns países sulamericanos, é hoje um conceito em desuso. Em sua substituição propõe-se o de "antilhanidade".

Ao refutar a teoria da crioulidade (a variante do luso-tropicalismo para Angola), Victor Kajibanga afirma haver um "carácter falacioso do mito do não racismo português, que os insignes teóricos da crioulidade também pretendem defender e eternizar de forma camuflada". Porém, considera que essa questão "já foi suficientemente demonstrada em estudos competentes de autores estrangeiros (incluindo portugueses) e angolanos.



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