A crítica como contributo para o desenvolvimento cultural

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O texto que se segue traz uma reflexão em torno da crítica histórica e da polémica levantada sobre a análise da monografia da autoria de uma licenciada em Relações Internacionais versada nas relações económicas entre Angola e Portugal, ex-potência colonial.
Pretende-se apenas elucidar algumas pessoas sobre o uso da crítica histórica como um dos métodos utilizados pelo historiador no contacto com as fontes históricas.

A crítica como contributo para o desenvolvimento cultural
Marco Cabenda

Liberdade de pensamento
O desenvolvimento científico de uma sociedade pressupõe a existência de um conjunto de condições entre elas a liberdade de pensamento – elemento fundamental para o exercício da crítica. A Academia enquanto espaço de debate promove-o com o intuito de despertar a consciência crítica do indivíduo que, depois de terminada a sua formação, será chamado para, entre outras tarefas, emitir um parecer sobre um determinado assunto.
Em História a crítica histórica é um conjunto de operações mentais que tem por objectivo apurar a proveniência das fontes históricas, a veracidade ou falsidade da informação; exige a interpretação dos dados, etc.. Isto porque, a fonte pode ser verdadeira, porém, o testemunho pode ser falso. Senão, reflictamos no facto narrado pela Bíblia que dá conta da ressurreição de Cristo, testemunhada pelos soldados romanos. Estes, ao invés de testemunharem o sucedido ao povo, alegaram que o corpo de Jesus havia sido roubado enquanto dormiam - versão que prevalece até hoje na Terra Santa.
Segundo Collingwood, o historiador “é crítico” e como tal, o exercício do seu ofício pressupõe a liberdade de pensamento, de expressão, consagradas constitucionalmente em Angola. Neste País, o debate de ideias promovido pela e na Academia deveria começar na apresentação de trabalhos individuais e ou em grupo entregues pelos professores universitários aos seus estudantes, que para o efeito deveriam esgrimir todos os seus argumentos. Este exercício saudável exige muita leitura e análise do enunciado pelos autores consultados (MENDONÇA, 2015).
Do contrário, o estudante, posteriormente diplomado, não terá a capacidade de sustentar os argumentos expostos diante do júri que juntamente a assistência aplaudiu-o pela realização do seu “trabalho científico”, entenda-se, de fim de curso.
Sobre este assunto, parece-nos estranha a dedicatória feita pela autora de uma monografia em Relações Internacionais (2011) cujo nome é mantido no anonimato, aos seus “entes queridos pais falecidos”. Como justificar um erro como este? Alguma pressa na obtenção do grau de licenciada e do diploma? Terá ela revisto o seu texto? E o que dizer do orientador do trabalho de fim de curso?
Chamou-nos atenção a alusão ao 25 de Abril de 1974 ocorrido em Portugal que na visão da diplomada foi um “golpe de Estado da Revolução dos Cravos”. Um novo conceito?
O golpe de Estado geralmente subentende a tomada do poder político pelos militares, concretamente os generais, que como responsáveis do exército o lideram. Este acto dá lugar ao que designamos de “militarização do poder”, isto é, a conquista e o exercício do poder político pelo generalato. Por sua vez a “Revolução” é um movimento cuja finalidade é instaurar um novo sistema político e económico. Pode ser encabeçada por civis ou por militares. No caso da Revolução Francesa, ela foi promovida pelos intelectuais (Montesquieu, Rousseau, Voltaire, etc.) e outras personalidades destacadas que abraçaram os ideias de Liberdade, Fraternidade e Igualdade.
No seio de alguns estudantes universitários prevalece a ideia segundo a qual o importante é ter diploma e com ele rentabilizar ao máximo o salário que infelizmente não é usado para a compra de livros. Quem desperta o colega para o debate em torno deste ou aquele fenómeno é mal compreendido, ofendido e ameaçado.
Este comportamento manifesta falta de preparação para o exercício da liberdade de pensamento, e consequentemente para a análise dos fenómenos que ocorrerem na sociedade que espera ver solucionados os problemas que a preocupam.

Como reverter o quadro?
Mais do que um simples grau universitário, a formação universitária, e não só, requer auto-didactismo. Isto é, a leitura e releituras de vários autores, síntese e a tomada de uma posição que poderá suscitar debate, reflexão entre os académicos. Neste contexto, o hábito da leitura deve ser cultivado, inicialmente, na infância, em casa e na escola. Infelizmente nem todas as escolas (públicas e privadas) estão apetrechadas com bibliotecas.
Na universidade, o cenário não difere muito do que acabámos de dizer. O consumo de bebidas alcoólicas,e a ostentação disto ou daquilo preenche a ausência do professor que nunca produziu sequer um fascículo.
Numa só palavra, a banalização da Academia (Sociedade do Conhecimento) é um facto constatável em Angola que, para além da reflexão, motiva a tomada de medidas para que se altere o quadroactual. Na rota para o desenvolvimento, Angola precisa de quadros competentes, sejam eles técnicos médios ou superiores que irão, entre outros, conceber e desenvolver projectos culturais que contribuam para o seu progresso.
Enganados estarão os estudantes que confundem o diploma com a competência técnico-profissional. O saber-fazer adquire-se com muitas horas de leituras e tempo de experiência. Do contrário, a incompetência condicionará o progresso na carreira profissional e do País em geral.
Quanto à crítica histórica, ela aponta as insuficiências do trabalho de um historiador e motiva o refazer da História. Como hermenêutica, ela apresenta novas leituras sobre um facto histórico, porque a História além de ser uma narração é também interpretação deste ou daquele acontecimento. Neste sentido, a semântica de uma determinada língua constitui-se em ferramenta para o historiador no momento em que submeterá o trabalho do seu colega à critica de interpretação.
É possível discordar sem ofender; quem age à margem do respeito pela diferença de pensamento demonstra falta de urbanidade e arrogância, atitudes que não contribuem para a elevação do debate académico, sério, racional e construtivo.
Que a crítica no seio da academia angolana seja construtiva e feita com o propósito de melhorar a criação do produto cultural consumido pela sociedade, que ela seja um momento de diálogo frutífero entre os académicos que devem assumir as suas responsabilidades no processo de desenvolvimento cultural.

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