A cultura da guerra e os seus reflexos

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A conquista da paz, em 2002, e com ela o (re)início da reconciliação nacional

Cultura da guerra e os seus reflexos

Que a cultura é um software de programação mental e comportamental, isto já se sabe. Tanto assim é que durante o período da «refrega» nos habituámos a assistir aos conhecidos «filmes de guerra», que eram para muitos de nós o repasto mais delicioso que se podia ter, e como tal, devorado o dia inteiro.
A conquista da paz, em 2002, e com ela o (re)início da reconciliação nacional, trazia indicadores, entre eles, a desmilitarização do maior partido da oposição, a campanha da recolha de armas, só para citar estes, que nos faziam crer de que entraríamos num novo período no qual seria abandonada a cultura da violência cultivada durante largos anos, e na qual foram gerados e educados muitos angolanos. Ledo engano!
Ela continua presente nas nossas vidas e faz morada nas nossas casas através dos filmes de acção, de terror, e policiais violentos, assistidos por toda a família que se compraz com a recepção do apelo explícito à violência.
Um caso de estudo me parece ser o comportamento de um rapaz que, aos 3 anos de idade, ofendia e agredia os seus amiguinhos, rebelava-se contra a mãe e quase todo o mundo. Dizia-se que tal comportamento era influenciado pelos amigos que também eram violentos.
Actualmente com seis anos, o rapaz parece ter transitado do período de violência, que caracterizou os seus primeiros anos de vida, para o período de paz. Pelo menos, deixou de agredir física e verbalmente as pessoas.
Porém, enquanto crescia - encontra-se actualmente com 6 anos e a estudar - recebeu um irmão que, estando com apenas 2 anos de idade, tem sido uma dor de cabeça: gritos para aqui, «urros» para ali, pancada e bofetadas para quem estiver ao seu lado, cambalhotas...enfim. Um menino endiabrado na acepção plena da palavra!
Em casa dos vizinhos, o rapaz tende a agredir as crianças da sua idade, tal como o faz em casa dos seus pais, motivo pelo qual a vizinha que deixava a sua filha em casa dos pais deste menino deixou de o fazer, quando se apercebeu que ele agredia a sua menina.
Quando num dia destes os seus pais o levaram à casa de um casal amigo para onde desejavam passar um período de descontracção, o menino, sem cerimónias, pois acabava de chegar, fez o que mais lhe apetece fazer neste mundo: gritaria e pancada com a filha dos donos da casa!!!
O pai, envergonhado com o comportamento do seu filho, levantou-se do cadeirão e retirou-se da casa do seu amigo, não tendo tido coragem sequer para despedir-se.
Causas deste comportamento?
Segundo a mãe da criança, era frequente o seu esposo assistir consigo filmes violentos durante os períodos em que esteve grávida, hábito que continuou a ser cultivado pelo pai dos seus filhos após o nascimento destes, sendo raras as vezes em que os mesmos assistem ao telejornal.
A mãe do menino, que tem uma amiga, foi aconselhada por esta para que levasse o seu filho ao consultório de um psicólogo para que seja acompanhado pelo referido especialista, e por conseguinte, mude positivamente o seu comportamento.
- Não é normal que uma criança se comporte como o teu filho. Leve-o ao psicólogo.
A mãe concordou com a amiga e disse já ter partilhado esta preocupação com o seu esposo. Porém, não recebeu o apoio deste que considera «normal» que uma criança se comporte como seu filho, e que a fase em que ele se encontra será ultrapassada com o decorrer do tempo. O seu argumento é reforçado com alusão à experiência vivida pelo filho primogénito. Como vês, ele mudou de comportamento.
Ora, o processo de socialização, com início na infância, influencia o comportamento que o indivíduo poderá vir a ter no futuro. Aliás, ó futuro constrói-se no presente, no qual se transmitem bons e maus hábitos que podem ser preservados, abandonados ou recuperados ao longo do tempo. Sobre este assunto, nada melhor do que partilhar com os amigos a história de dois rapazes que, chegados ao Brasil com os seus pais, foram hospedados em casa de um pastor angolano que residia neste País há já algum tempo. A sua filha brincava com os meninos, porém, estes tendiam a agredi-la com frequência. Tendo observado várias vezes o comportamento dos rapazes, o pastor, que na altura frequentava o curso de Psicologia na universidade, repreendeu-os e, com a autoridade espiritual e moral que representa e possui, disse o seguinte aos pais das crianças: vocês estão a conviver com bandidos em potência!
Não tardou para que os pais dissessem o que muitas vezes temos ouvido: pastor, eles são mesmo assim. Ai, é? – questiona o pastor.
Com a sua ajuda, os rapazes tornaram-se pacíficos.
É possível que alguns psicólogos, sociólogos e pedagogos angolanos tivessem pensado sobre as consequências que o ambiente de guerra, no qual foram gerados e educados muitos angolanos, particularmente os adolescentes e jovens, traria para o País, e em torno da necessidade de se educar o cidadão para a paz – um processo que, conforme já foi dito, começa na infância. Logo, a família desempenha um grande papel neste processo de preservação de um “bem público” - a paz -, tal como as Igrejas, os partidos políticos, cujos militantes devem conviver pacificamente na diferença, e, em geral, a sociedade que precisa de distanciar-se cada vez mais da insegurança, dos assaltos, assassinatos e outras práticas que trazem consigo a intranquilidade no seu seio.
É hora de (re) pensarmos o País que queremos ser e ter, pois, indiferentes à situações como as que foram descritas, correremos o risco de viver numa sociedade violenta, e, tal como muitos estavam durante o período de guerra, convictos de que a situação não pode ser alterada.
Na verdade, a reconstrução do País não limitar-se ao material, concretamente, o asfalto, as fábricas, os edifícios, etc.; ela deve estar centrada na restauração do homem envolvido na construção das infra-estruturas mencionadas anteriormente.
Nunca é demais lembrar, e porque não mesmo seguir o exemplo de países como os europeus que, depois de terminada a II Guerra Mundial, voltaram as suas atenções, não somente para a recuperação das suas infra-estruturas, mas também para a restauração do Homem, e da África do Sul que, em função dos traumas causados pelo apartheid e sob liderança de Nelson Mandela, deu início a uma espécie de terapia social centrada no perdão e na humanização das relações entre os algozes e as vítimas produzidas pelo extinto apartheid.
Para o efeito, será necessário, entre outras medidas, criar e manter um clima de tolerância a todos os níveis, e melhores condições de trabalho para que, bem remunerados, os psicólogos, psiquiatras, assistentes sociais, educadores sociais, e outros especialistas das Ciências Humanas e Sociais, desenvolvam as suas atividades com vista ao alcance do objetivo que o país prossegue: o desenvolvimento integral do homem.
JOÃO N’GOLA TRINDADE

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